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President Slobodan Milosevictalking to reporters at the Sava centre, Belgrade, Serbia, in the run-up to elections, Dec 1993., Image: 6033063, License: Rights-managed, Restrictions: , Model Release: no, Credit line: Profimedia, Alamy
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Aproveitando o aniversário de 20 anos do início dos bombardeios da OTAN contra a antiga Iugoslávia (em 24 de março de 1999), reproduzo aqui uma resenha publicada no Pravda.Ru há mais de um ano, criticando um livro-reportagem do jornalista Kennedy Alencar e a manipulação da imprensa acerca daquele acontecimento. Alencar, em 1999, foi enviado especial da Folha de S. Paulo à Iugoslávia, para acompanhar o que se passava no local.

Tomo a liberdade apenas de modificar algumas expressões utilizadas no artigo original, cortar uma ou outra parte desnecessária e adicionar alguma frase oportuna. Boa leitura.

A destruição da Iugoslávia tem uma lógica cada vez mais atual

Encontre o erro na seguinte frase, caro leitor:

“Nunca votou no ditador.”

Essa é uma descrição que o jornalista brasileiro Kennedy Alencar faz de uma repórter sérvia durante a agressão da OTAN à Iugoslávia, em 1999. A colega sérvia de Alencar apoiou Slobodan Milosevic contra os bombardeios da coalização imperialista, apesar de ser uma opositora da “ditadura” que dava o direito ao voto popular.

Tudo bem, concordo que o voto não é garantia de democracia. A maioria dos países capitalistas se dizem democráticos e o povo pode votar. Mas, parafraseando Lenin, o voto nesses países serve para o povo escolher quem será seu próximo opressor.

Entretanto, a frase destacada no começo do artigo sugere uma contradição, que Alencar justifica:

“Milosevic, embora eleito, é considerado ditador por causa de duas atitudes: manipula os meios de comunicação e se apoia num aparato repressivo. Nunca é demais lembrar que Alfredo Stroessner se reelegeu sucessivas vezes no Paraguai e que Alberto Fujimori também passou pelas urnas no Peru.”

Outra desculpa que o jornalista encontra para tachar Milosevic de ditador dezenas de vezes em seu livro “Kosovo: a guerra dos covardes” (DBA, 1999, 224 pg.) é esta:

“O fato de policiais terem equipamento pesado evidencia o quão repressor é (e foi) nos últimos anos o regime sérvio em Kosovo.”

Não pretendo dizer que as forças de segurança sérvias eram formadas por hippies paz & amor. Obviamente havia militares, policiais e paramilitares cruéis, mas os acontecimentos daquela época sofreram as frequentes distorções cometidas pela imprensa imperialista quando ocorrem guerras e invasões lideradas pelos Estados Unidos.

A Iugoslávia era um país com boa qualidade de vida, estabilidade de emprego, serviços públicos gratuitos para toda a população e as diversas etnias viviam em relativa harmonia. Na década de 1980, com a crise econômica (o país, apesar de ser um Estado Operário, era dependente das forças imperialistas do mercado, como o FMI e o Banco Mundial) e a morte de Tito, o cenário começou a mudar.

Grupos marginais e políticos racistas e de extrema-direita emergiram, clamando mudanças políticas e econômicas na esteira da crise do bloco do Leste Europeu. Sérvios, croatas, eslovenos, bósnios e kosovares, muitos deles incentivados pela propaganda clandestina da CIA, tiveram seu ultranacionalismo reacionário despertado.

O que se seguiu, na virada para a década de 1990, foi a fragmentação da Iugoslávia em vários países, com guerras civis que faziam cada vez mais os ânimos se exaltarem e barbaridades serem cometidas. A guerra destrói a infraestrutura, as vidas e a mente.

Fiz esse rápido resumo para dizer que os conturbados anos 80 e 90, com a crise e as guerras, levaram ao aumento inevitável do racismo e da violência reacionária por toda a região.

Em um clima de guerra e agressão estrangeira durante dez anos, como foi o caso das operações imperialistas que desencadearam os ataques da OTAN em 1999, um país fragmentado e economicamente falido (uma secretária sérvia ganhava seis vezes menos em 1999 do que em 1991) não vive na normalidade.

Como foi reconhecido em 2016 pelo Tribunal de Haia, Milosevic não teve participação nos massacres na Bósnia e tentou impedir as ações de grupos extremistas paramilitares. Mesmo assim, indivíduos racistas acabavam por fazer parte do aparato de segurança.

Agora, vamos concordar então que um presidente (Alencar usou essa denominação apenas três vezes para caracterizar Milosevic) seja um ditador quando manipula a imprensa e se apoia no aparato repressivo. Devemos concluir, então, que todos os presidentes dos EUA são ditadores.

Mas críticas profundas aos EUA e aos outros países do Ocidente são evitadas pelo autor do livro. Enquanto Milosevic era o malvado, o cruel, o sanguinário, a OTAN apenas errava os seus alvos, por descuidos. A imprensa sérvia, controlada pelo governo, distorcia a realidade, mas a CNN e a BBC, apesar de descritas como tendenciosas, não eram controladas pela OTAN e seus governos, segundo Alencar.

Especificamente durante a guerra de 1999, o autor afirma que os meios de comunicação eram controlados por Milosevic. Creio que em uma guerra contra um invasor estrangeiro, possivelmente em qualquer país uma cobertura noticiosa favorável ao inimigo seria proibida.

Mas uma contradição de Alencar é que ele mesmo relata que a CNN era transmitida para a Iugoslávia e cobria um grande público, apesar de muita gente desconfiar da cobertura distorcida.

E os sérvios desconfiavam com razão. A maioria dos jornalistas ocidentais que cobriram a Guerra do Kosovo, seguindo orientações superiores ou não, distorciam informações e não contextualizavam nem aprofundavam as análises, baseando-se fundamentalmente em preconceitos que eram transmitidos também para seus públicos. Esse é um dos motivos do porquê de, até hoje, a maior parte das pessoas que aborda esse assunto acreditar piamente que os sérvios foram os grandes vilões e mereceram ser massacrados pelos mísseis da OTAN.

Mas as manipulações, para serem eficazes, eram cuidadosamente preparadas e sutilmente difundidas, os preconceitos e mentiras eram quase que naturais e poderiam até ser confundidos com ingenuidade dos profissionais de imprensa, como o capacitado Alencar. Esse é o método pelo qual funciona o modelo de propaganda tão bem analisado pelo filósofo Noam Chomsky.

Modelo que vemos hoje sendo utilizado para manipular os acontecimentos na Venezuela ou na Coreia do Norte, por exemplo. Os grandes veículos de imprensa não pensaram duas vezes em acusar os sérvios e seu presidente de genocidas. Mesmo que atrocidades tenham sido cometidas – como, infelizmente, ocorrem em todas as guerras -, até hoje não existem evidências de muitos dos crimes supostamente cometidos, e muito menos da participação de Milosevic. Aliás, como já mencionado, o Tribunal de Haia (o mesmo que o deixou morrer na prisão) não encontrou nada contra Milosevic durante a Guerra da Iugoslávia em sua exaustiva investigação. Curiosamente (para os leigos), isso não foi notícia no monopólio de imprensa internacional.

Ao mesmo tempo, o autodenominado Exército de Libertação do Kosovo (ELK) era tachado como grupo de resistência, do mesmo jeito que são retratadas hoje organizações armadas opositoras do governo sírio, a maioria com ligações com a al Qaeda ou o Estado Islâmico, e financiadas pelo imperialismo.

Em alguns casos, se forjou incidentes para culpar os sérvios. Crimes cometidos pelo ELK não foram denunciados. Civis sérvios sendo atacados não foram merecedores de protestos, como eram as vítimas kosovares. Por acaso não seriam os jornais os verdadeiros “xenófobos” e racistas, segregando os sérvios como vítimas de categoria inferior? E não é isso o que sempre fazem os grandes meios de comunicação burgueses? Fala-se muito de supostas vítimas de perseguição política por parte do governo norte-coreano, mas nenhuma linha sobre a censura e repressão a opositores na Coreia do Sul. Diz-se que Putin não admite homossexuais nem feministas, mas nem uma palavra sobre o regime autoritário protofascista da Ucrânia.

O certo é que uma guerra na Iugoslávia foi muito conveniente para o Ocidente (diga-se imperialismo, especialmente o estadunidense). Fomentou-se um conflito fratricida, com participação de agentes e governos estrangeiros, talvez porque de outra forma não fosse possível derrubar tão facilmente seu regime como ocorreu com os outros países da região na mesma época. E, realmente, enquanto Milosevic não foi deposto (em um ato final da operação de mudança de regime na Iugoslávia), o imperialismo não conseguiu dominar a economia do país.

E mais ainda: até a atualidade a Sérvia ainda não está completamente subjugada pelo imperialismo. Os sérvios mantêm um forte sentimento anti-imperialista devido ao que sofreram e lembram-se de quando viviam lado a lado com os croatas, bósnios, eslovenos, macedônios, etc. O governo ainda mantêm um estilo nacionalista (ainda que extremamente moderado), aliado da Rússia e que, por exemplo, reconhece a legitimidade de Maduro na Venezuela.

Foi por isso que o país foi completamente fatiado, passando pela divisão em 2006 entre Sérvia e Montenegro e mais atualmente o reconhecimento de organismos internacionais comandados pelos EUA e vários países do status de independência do Kosovo. Essa parte da Sérvia, desde a intervenção da OTAN, se tornou uma zona especial de controle e laboratório imperialista.

O que foi feito pelo imperialismo na Iugoslávia se repetiu depois no Iraque,  na Líbia e na Síria. O que ocorre hoje na Venezuela também é muito semelhante ao que o imperialismo fez há 20 anos na Iugoslávia. E Maduro é tratado exatamente igual a Milosevic. Por enquanto, está resistindo ao mesmo destino.

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