80 anos da morte de Trotsky
Um legado fundamental deixado por Leon Trotsky foi a análise e a luta contra a burocracia stalinista
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Lenin-Stalin-Trotsky
Nas extremidades, os principais dirigentes da revolução russa, no centro o chefe da burocracia | Foto: Arquivo DCO

A implementação do socialismo, segundo o marxismo, não é simplesmente uma elaboração de um conjunto de preceitos de uma sociedade mais justa e igualitária, mas, sobretudo após a Revolução Industrial, está vinculada com o desenvolvimento do capitalismo e de suas crises. No Manifesto Comunista (1848), Marx e Engels afirmaram que “Na mesma medida em que se desenvolve a burguesia — isto é, o capital — desenvolve-se também o proletariado, a classe dos trabalhadores modernos”.

Um aspecto fundamental no desenvolvimento histórico do capitalismo é ao mesmo tempo a intensidade da exploração e a expansão espacial que supera os limites locais e nacionais. Como também analisado no Manifesto Comunista: “Graças a sua exploração do mercado mundial, ela conformou de modo cosmopolita a produção e o consumo de todos os países”.

A elaboração pela burocracia termidoriana, que havia se apoderado do estado soviético, da noção de Socialismo em um só país representou não somente uma revisão das premissas fundamentais do marxismo (o caráter internacional do socialismo), mas uma interessada deformação, que significou um abandono da luta pela revolução mundial. É precisamente na luta em defesa da política bolchevique, elaborada por Lênin, de pautar a Revolução Russa como “prólogo da revolução mundial” que se deu o embate entre Trotsky e a burocracia soviética.

Um dos grandes legados de Leon Trotsky foi justamente a sua heroica luta contra a burocracia stalinista, em determinado momento quase solitária, que representou a manutenção da herança histórica da Revolução Russa e do próprio marxismo. Essa luta titânica foi travada nas piores condições, em contexto de retrocesso da revolução mundial, com a ascensão dos regimes fascistas, e de uma imensa campanha de calunias e mentiras lançadas pelo formidável aparato stalinista, não somente na URSS, mas em todo mundo.

A expressão trotskismo foi criada pelos adversários de Trotsky na disputa pelo poder nos anos 1920 na URSS, na ocasião, a troika (Zinoviev, Kamenev, Stálin) retomou textos passados da polêmica de Trotsky com Lênin antes da Revolução Russa, e procurou estigmatizar a teoria da Revolução Permanente. Trotsky procurou demostrar a falsificação dessa operação e, posteriormente, foi o único que conseguiu analisar os desdobramentos da URSS, caracterizando concretamente o significado do domínio da burocracia.

Neste sentido, o trotskismo é a continuidade do Leninismo, e mais ainda do marxismo no nosso tempo. Foi Leon Trotsky armado do método marxismo que conseguiu ter uma análise concreta do desenvolvimento dos fatores que levaram a revolução na Rússia e, posteriormente, que conseguiu analisar os desdobramentos da revolução, apresentando uma compreensão do fenômeno stalinista.

Ao contrário dos apologistas do stalinismo de ontem e de hoje, o advento do stalinismo como fenômeno político não é a continuidade do leninismo, mas apresenta uma ruptura no fundamental. O que confundiu e parece continuar confundindo muita gente é o fato do aparato stalinista apresentar-se a si mesmo como “marxismo – leninismo”, e, através de um método completamente estranho ao marxismo, passou a recortar passagens aqui e acola dos escritos de Lênin, para de maneira escolástica justificar alguma atrocidade prática cometida em nome do “leninismo”. Para evitar o contraditório e questionamento, livros e mesmo documentos históricos eram adulterados ou censurados.

As caracterizações do stalinismo como algo apenas ideológico, como geralmente é apresentado tanto por críticos e, sobretudo, pelos “neoestalinismo”, de forma alguma consegue compreender efetivamente as causas e consequências.

Na defesa dos seus interesses, a burocracia era completamente eclética, saltando de política em política, fazendo um verdadeiro zigue- zague constante. Dessa forma, o stalinismo não tinha como eixo a coerência ideológica, mas uma adaptação aos acontecimentos. Assim, podendo ser contra qualquer aliança com a social-democracia, no chamado terceiro período, para depois da derrota dessa desastrosa política, que possibilitou a ascensão de Hitler na Alemanha, saltar para a política de colaboração de classes com a burguesia com a política da Frente Popular, que ´possibilitou o estrangulamento da revolução na França e na Espanha na década de 1930.

O stalinismo tem uma natureza contraditória, pois ao mesmo tempo que se ampara na existência de um Estado operário, procura dominar a classe operária e controlar suas ações revolucionários. Por isso, o stalinismo necessita ser compreendido como fenômeno social e não como ideológico.

 

A divergências em torno do desenvolvimento da URSS

 

No livro Teoria e Prática do Leninismo de Stálin, na sua primeira edição era possível ler uma reprodução da visão até então comum de todo partido bolchevique.

“Sua tarefa mais importante (do proletariado) – a organização da produção socialista – continua sem solução. Essas tarefas podem ser resolvidas e a vitória final do socialismo pode ser conquistada sem os esforços conjuntos do proletariado de vários países altamente desenvolvidos? Não, isso é impossível

.Na segunda edição, apenas essa passagem era alterada, e apresentada uma nova versão do que seria o “ leninismo”.

“Depois que o proletariado vitorioso de um país consolidou seu poder e conquistou o campesinato para si, ele pode e deve construir a sociedade socialista”.

 

Durante o debate sobre o desenvolvimento econômico da URSS,  A teoria do socialismo em só país foi apresentada por Stalin e Bukharin em 1924, ela se opunham ao plano apresentado pela Oposição para a industrialização do país e a coletivização da agricultura. A burocracia, apoiada em setores que se beneficiaram com a NEP, colocava empecilhos para a constituição de “Planos Quinquenais”. A preocupação central era o estrangulamento da Oposição dentro do partido.

Bukharin representante da ala direita da burocracia, representando os setores ligados aos camponeses ricos (kulaks) afirmava que o novo lema da URSS seria  “Enriqueça-se”!

Diante das críticas da oposição, a proposta de “ socialismo a passo de Tartaruga” , e “ assimilação do Kulaks ao socialismo”, a burocracia afirmava que o impulso a industrialização significaria uma “ ameaça à aliança com os camponeses”. Daí a lenda de que a teoria da Revolução Permanente de Trotsky desprezava os camponeses.

Na verdade, o perigo principal que ameaçava a aliança com os camponeses vinha de uma ausência de um efetivo desenvolvimento da indústria, que se confirmou na “crise das vendas” no outono de 1923.  Trotsky analisava que a indústria estava atrasada, e mesmo  boas colheitas seriam uma fonte que viriam a alimentar as tendências capitalistas, e não os socialistas. Foi popularizada a expressão “ crise das tesouras”, que expressava a diferença real de preços dos produtos industriais e os agrícolas.

A essa altura, Stálin afirmava que Trotsky  “ quer saquear o camponês”, aliando-se com a política preconizada de favorecer o setor privado. Posteriormente, os prognósticos da oposição se confirmam, com um colapso eminente da economia. Essa situação provocará a divisão da burocracia. Em 1928-29, Stálin lança a política de “coletivização forçada” e a máxima de “ liquidação do kulaks como classe”.

Na próxima semana, abordaremos  o impacto da derrota da Revolução Alemã, em 1923 na URSS, e de que forma o pessimismo gerado pelas derrotas revolucionarias levarão ao fortalecimento da política da burocracia soviética, e consequentemente na justificação do “socialismo em só país”.

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