A crise política, o “Lulismo” e o governo Dilma – parte III

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Em 31 de agosto, o Senado confirmou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Assim, utilizando-se como pretexto as “ pedaladas fiscais”, o voto de mais de 54 milhões de eleitores é confiscado. A conjuntura e o desenrolar do processo político que levará a queda do governo Dilma, encerrando 13 anos de experiencias de governos do PT é exposta por André Singer na terceira parte do seu livro O lulismo em crise. Um quebra-cabeça do período Dilma( 2011-2016).

De uma maneira geral, a crise política é identificada por Singer como a crise do Lulismo e do pacto democrático. Por sua vez, o que explicaria a perda da base de sustentação do governo Dilma, com a virada dos setores burgueses coligados aos PT é devido equívocos (decisões econômicas e políticas) do próprio PT, em especial da própria Dilma. “Lulismo se quebrou porque, acelerado por Dilma no bojo da ideologia rooseveltiana, acabou vítima de suas contradições, que são igualmente as contradições brasileiras.”

As sucessivas vitórias do PT nas eleições presidenciais colocaram o PSDB na politica de não respeitar os resultados eleitorais, assinala André Singer “O partido da classe média é incapaz de vencer as eleições.” Isso aumenta a instabilidade do sistema partidário brasileiro.

Diante da impossibilidade do “partido dos ricos vencer as eleições presidenciais, estimula o golpismo”, e provoca “uma dinâmica bipolar cada vez mais radicalizada” Um processo que tem semelhança com o desenvolvimento do sistema eleitoral no período entre 1945 a 1964  “a intensificação da luta de classes aparecia, então, como embate entre elites e massas” expresso no conflito cada vez mais agudo entre a UDN e PTB. Os dados eleitorais mostram o crescimento do PTB com a representação popular, o partido dos “ pobres”.

Ao analisar as “tragédias do impeachment”, mais particularmente a atuação das forças políticas,   Singer, identifica corretamente que um grande elemento para a derrubada do governo eleito, foi o fato que o PSDB, não aceitou o resultado eleitoral, pois identificou que o Lulismo não poderia ser derrotado de maneira imediata por eleições. “o caminho da criminalização como instrumento do PSDB para chegar ao poder.”

“ ressentido pela quarta derrota seguida em eleições presidenciais, o PSDB forneceu elementos para a construção do golpe parlamentar. Embora o protagonismo tenha sido do PMDB, que assumiria a Presidência, a formulação jurídica, o programa econômico, a ponte com o empresariado e a legitimação perante a classe média passaram pelo PSDB. A mobilização impulsionada pela Lava Jato, via meios de comunicação, recobriu a derrubada de apoio social.” P.31.

Entretanto, quando discorre sobre a atuação do próprio PSDB, assim como Fernando Haddad em recente entrevista, o Andre Singer, insiste em evidenciar que existe um PSDB não tão golpista. Para Singer, o grande vilão seria Jose Serra, que junta com o centrão de Eduardo Cunha e com o vice- conspirador Michel Temer colocaram em marcha o golpe.

Em linhas gerais, apesar da condenação do golpe, a intepretação de André Singer sobre a “ crise do Lulismo” é insuficiente. Por um lado, acentua muito fortemente as contradições no interior do governo Dilma, evidentemente que eles existiram e foram fatores salientes para a queda do governo, entretanto, o fato decisivo foi a clara politica golpista da direita nacional, que teve sua articulação interna através dos caciques do PMDB, em especial do vice-presidente. Por outro lado, Singer não considera que foi um efetivo golpe de Estado, a derrubada do PT, mas um golpe parlamentar, o que mostra uma incompreensão da natureza do golpe.