A crise política, o “Lulismo” e governo Dilma parte I

LULA / NOVA ERECHIM SC

A análise sobre o significado da ascensão dos governos do PT e posterior interrupção das experiências governamentais do “Lulismo” tem colocado em relevo as insuficiências gritantes da Ciência Política, em especial relevo dos “marxianos” acadêmicos.

Num cenário intelectual marcado pelo predomínio nas universidades de uma esquerda pequeno burguesa “marxiana” (termo por sinal grotesco), que  substitui uma análise concreta por um discurso moral “esquerdista” completamente oco e vazio, apenas com verniz marxista (gramsciano ou lucaksiano), as formulações do ex-porta voz do governo Lula, André Singer, professor da USP e colunista da Folha de S. Paulo tem o mérito de buscar uma crítica mais equilibrada e balizada.

A conceituação do Lulismo como fenômeno político relevante é por sinal um dos pontos chaves na obra de André Singer. A percepção do papel histórico de Lula e do que o autor chama de Lulismo, uma ligação de Lula com setores mais populares do País e a constituição de um pacto social, entre grupos e classes, em torno de um “reformismo fraco”.

De um ponto vista mais global, o que André Singer classifica como Lulismo não consegue abarcar todos os aspectos do papel que Lula exerce no desenrolar da política brasileira. Um ponto ausente é o significado que ainda perdura como representação da classe operária, que o autor considera como algo pretérito, que foi compensado pela adesão das camadas pobres ao Lulismo, que os governos do PT souberam explorar com as políticas sociais focalizadas na redução da pobreza.

De qualquer forma, André Singer tem o mérito de registrar a importância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que já o diferencia dos “marxianos” preconceituosos da esquerda pequeno burguesa.

Já analisei nessa coluna a coletânea coordenada por Singer,  as contradições do Lulismo, e passo comentar o mais recente livro O Lulismo em Crise. Um quebra-cabeca do período Lula, em que são destacados textos sobre “ os dramas do primeiro mandato”; Intermezzo histórico e na última parte do Livro “ as Tragédias do impeachment

Inicialmente, o autor destaca a herança dos governos Lula, em que “Dilma sentou na cadeira presidencial tendo atrás de si um crescimento de 7,5 % do PIB, uma taxa de desemprego de 5,3 % e uma participação do trabalho na renda 14% acima da que havia em 2004” p.11

Num texto, publicado na revista Piau, que teve enorme destaque, “ Cutucando onças com bases curtas” presente no livro, André Singer identifica a crise de governabilidade do governo Dilma, como uma expressão política da crise aberta pela tentativa de um voo mais alto do Lulismo, que ele classifica como uma tentativa de uma implementação de um “ sonho rosseveltiano” , de uma radicalização do modelo neodesevolvimentista, buscando enfrentar os impactos da crise econômica internacional com um forte estimulo estatal ( através de investimentos e desonerações) no setor produtivo, inclusive colocando obstáculos para o pleno controle exercido pelo setor financeiro( em especial os bancos) na economia.

Por outro lado, ao contrario do discurso sobre corrupção, o governo Dilma, buscou um “ ensaio republicano”, visando diminuir as barganhas políticas na constituição da “ governabilidade”.

Dessa forma, o agravamento das contradições no seio do bloco de poder do lulismo, e da virada das forças oposicionistas para a quebra do pacto democrático constituído em 1988, com a constituinte pós ditadura levará ao processo de questionamento do pacto Lulista, já fragilizado pela crise econômica.

Importante destacar que a queda de Dilma foi realizada não por conta do “combate à corrupção”, mas visando um programa político de retrocesso. O “novo bloco do poder queria derrubar a participação obrigatória da Petrobras na exploração do pré-sal, congelar o gasto público por duas décadas, aprovar a terceirização de mão-de-obra para atividades-fim, fazer uma reforma trabalhista anti-CLT, aprovar uma emenda constitucional que limitasse os benefícios da Previdência Social e, se possível, alterar o regime político na direção do parlamentarismo.

“Diminuiu o número de atendidos pelo Bolsa Família, redução de verbas para saúde, educação, universidades públicas, agricultura familiar, abrandar a fiscalização do trabalho escravo, a estancar a demarcação das terras indígenas reconhecimento das propriedades quilombolas.”

Na segunda parte do livro, André Singer aborda a conjuntura política e a atuação das forças políticas no processo de impeachment. Este será o tema da segunda parte da nossa resenha.