Frente ampla
Para combater o bolsonarismo, é preciso, antes de tudo, combater a direita golpista
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Guilherme Boulos no dia do segundo turno | Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Depois de muito lhe adular para impedir que a candidatura do PT em São Paulo se desenvolvesse, a burguesia entregou a Guilherme Boulos (PSOL) uma votação bem distante do primeiro colocado: perdeu o segundo turno por mais de 1 milhão de votos. Mesmo assim, a imprensa capitalista já revelou que seus planos para o psolista não chegaram ao fim. A burguesia vai levar adiante seu apoio a Guilherme Boulos até, pelo menos, 2022, com o objetivo de, em nova extorsão contra a esquerda, rifar a candidatura do ex-presidente Lula.

Embora a operação seja extremamente impopular, a burguesia encontra eco nos setores mais pequeno-burgueses da intelectualidade brasileira. É esse o caso de Vladimir Safatle, filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP), que se lançou ao papel vergonhoso de contribuir com a classe dominante na falsificação completa da realidade.

Em entrevista ao portal Rede Brasil Atual, contida na reportagem “Candidatura de Boulos representa derrota para o projeto político de Bolsonaro”, publicada em 29 de novembro, o filósofo adere à tese aberrante de que Boulos seria um “fenômeno” e que sua candidatura serviria para mudar a correlação de forças na luta da esquerda contra o fascismo. Isto é, a mesma tese que pode ser encontrada, em formato de conselho “mui amigo”, na Folha de S.Paulo ou no Estadão: que a esquerda deveria abandonar o PT, a CUT, o MST, os sindicatos e o maior líder operário da América Latina para seguir aquele que inexplicavelmente se tornou o “novo líder” da esquerda.

Segundo expõe Vladimir Safatle, o voto em Guilherme Boulos e Luiza Erundina significaria o início da vitória da esquerda contra o fascismo: “escolhendo Boulos e Erundina, abriremos o começo do fim do fascismo ordinário que hoje governa o país, mudando a correlação de forças na nossa maior cidade. Essa será a primeira e mais contundente derrota desse projeto que jogou o Brasil em seu momento mais escuro”.

Se assim de fato é, somos obrigados a concluir que a candidatura de Boulos e Erundina seria o maior inimigo do bolsonarismo no País. Mas se fosse assim, por que o bolsonarismo, sentindo-se extremamente ameaçado em ser derrotado pela poderosa “arma” da candidatura psolista, não travou uma luta contra a candidatura de Boulos e Erundina? E, o que é ainda pior: por que, no final das contas, nem Boulos, nem Erundina, enquanto eram candidatos, se propuseram a atacar o bolsonarismo?

A única resposta possível é que a candidatura do PSOL em São Paulo não representou guerra alguma contra o bolsonarismo. E podemos demonstrar isso facilmente.

O bolsonarismo não é um fenômeno em abstrato, desvinculado da luta de classes e do golpe de Estado de 2016. Muito pelo contrário: a ascensão da extrema-direita somente se deu porque a burguesia se sentiu obrigada a impulsionar o bolsonarismo para combater o PT. Com o fracasso do governo Temer e a impopularidade do chamado “centrão”, era mais do que natural que a revolta dos trabalhadores se materializasse no apoio eleitoral ao ex-presidente Lula. A extrema-direita, atuando tanto nas ruas, como nas instituições, favorecida pelas capitulações da esquerda pequeno-burguesa, foi o que garantiu que a burguesia conseguisse eleger um presidente comprometido com o programa dos banqueiros. Dentre essas capitulações da esquerda pequeno-burguesa, podemos, inclusive, colocar na conta a atuação de Guilherme Boulos, que foi a favor de que Lula se entregasse quando Sérgio Moro ordenou sua prisão.

O primeiro dever de quem se coloca na tarefa de lutar contra o bolsonarismo, portanto, seria o de lutar contra os golpistas. Mas não é, nem de longe, o que Boulos fez ao longo do último período. O candidato do PSOL assinou manifestos com Fernando Henrique Cardoso, Demétrio Magnoli, Luiz Felipe Pondé e outros tantos vigaristas da direita e da extrema-direita nacional, negociou os atos pelo Fora Bolsonaro em São Paulo com a Polícia Militar e com João Doria (PSDB) e fez da Folha de S.Paulo a sua principal porta-voz. Durante a campanha, mostrou-se como um dos maiores defensores da fascista guarda municipal, prometeu não “demonizar” os empresários, e recebeu apoio de toda sorte de direitista: desde o anarco-capitalista (sic) Paulo Kogos, ao fascista José Luiz Datena e aos golpistas Ciro Gomes e Márcio França.

E nem mesmo no segundo turno, quando Boulos se colocou em uma disputa mais aberta contra um candidato bolsonarista, o psolista decidiu enfrentar de fato a extrema-direita. Boulos não denunciou o genocídio promovido por Covas durante a pandemia de coronavírus e ainda desejou “boa sorte” ao tucano após ter sido derrotado:

“Eu quero aqui cumprimentar o Bruno Covas [PSDB] e desejar que ele tenha sorte nos próximos quatro anos. E, acima de tudo, governe a cidade sabendo que uma imensa parcela da sociedade quer mudança. Quer que a periferia seja tirada do abandono, tenha vez e voz”.

Não há um único caso na história em que uma eleição tenha derrotado o fascismo. Muito menos em um caso como esse, em que sequer o processo eleitoral foi utilizado para impulsionar uma luta contra o bolsonarismo. Na medida em que Boulos ia difundido a tese e se mostrando convencido de que iria vencer as eleições, sua candidatura foi se deslocando cada vez mais para direita, bem como seus apoios foram se tornando mais direitistas. Vale destacar, nesse sentido, o acordo podre entre o PSOL e Ciro Gomes, para que o PDT apoiasse Boulos em São Paulo e Boulos apoiasse o candidato direitista do PDT em Fortaleza.

O que chama ainda mais a atenção neste caso é que, além de a concepção de que um candidato pequeno-burguês poderia ser uma ferramenta na luta contra o fascismo ser um erro, a exaltação à candidatura específica de Boulos e Erundina reflete um movimento condicionado da intelectualidade pequeno-burguesa: seguir fielmente a política da burguesia, sobretudo seus setores mais pró-imperialistas. Afinal, se a tese é de que bastaria um candidato de esquerda vencer as eleições para que a luta contra o bolsonarismo avançasse, então por que Vladimir Safatle se dedica exclusivamente ao caso Boulos?

A resposta é simples: porque não se trata de uma análise real da situação política, mas sim de pura propaganda da burguesia. A reportagem da Rede Brasil Atual atribui a Boulos um “bom desempenho”:  “o bom desempenho da candidatura de Guilherme Boulos e Luiza Erundina (PSOL) nas eleições para a prefeitura de São Paulo representa um duro golpe no projeto político do presidente Jair Bolsonaro”. Isso, contudo, não passa de um mito: voto não é sinônimo de bom desempenho. E, nesse caso, os votos de Boulos não são dele: são os votos roubados do PT e os votos da classe média de esquerda conservadora que acompanha a Folha de S.Paulo.

A segunda hipótese seria a de que Boulos seria uma figura mais radical do que os demais:

“Só a inteligência prática das populações é capaz de resolver os problemas que destroem a potência do corpo social. Tomemos o poder. É hora de dar outro sentido à palavra ‘governo’. Que em São Paulo comece o fim dos nossos pesadelos”.

Tomar o poder com Márcio França e Ciro Gomes? Não, obviamente que a candidatura de Boulos está muito longe de significar uma tomada de poder pelos trabalhadores. Caso fosse eleito, Boulos faria apenas um governo de conciliação de classes. E ainda pior: sem o apoio que o PT tem no interior dos sindicatos e do movimento popular em geral. Seria, no fim das contas, um governo controlado pelo setor pró-imperialista da burguesia que acabou de dar um golpe de Estado no País sem a pressão popular dos governos nacionalistas.

Em meio à empolgação, o filósofo considera que a candidatura de Boulos estaria baseada “na ideia de não sermos mais governados da maneira como fomos até agora”. Trata-se do exato oposto: a candidatura da “frente ampla”, representada, neste caso, pela chapa Boulos-Erundina, seria apenas uma manobra para permitir que a política do PSDB, do DEM e do MDB continuasse sendo aplicada no Brasil.

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