Dois pesos, duas medidas
Iniciada no ano de 2000, a bolha imobiliaria estadunidense inflou o mercado interno com promessas vazias e fraudes gigantescas. Em 2008, o crash, romperia com as ilusões vendidas
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Candidata democrata a vice-presidente dos EUA, Kamala Harris
12/08/2020
REUTERS/Carlos Barria

Kamala Harris, Procuradora-geral durante as fraudes imobiliárias | Reprodução

Iniciada no início do século XXI, a bolha imobiliária estadunidense inflou o mercado interno com promessas vazias e fraudes gigantescas. Em 2008, o crash, romperia com as ilusões vendidas às pessoas de baixa renda, latinos, afro-americanos, imigrantes e idosos. A crise hipotecária, por sua vez, abalou o País.

À época, os ditos “consultores de execução hipotecária” montaram uma verdadeira campanha de enganação. Com anúncios na internet e nos jornais locais – especialmente na imprensa com maior alcance na população negra, os sicofantas aproveitaram o turbilhão de desconsolação popular e lançaram no ar a inodora fragrância trapaceira. Podemos impedir sua execução hipotecária” – diziam. Através de anúncios transmitidos em estações de rádio em inglês e espanhol, o embuste dos golpistas irrompeu a precaução dos exasperados com a promessa de “interromper a execução hipotecária”; chegando, às vezes, a se passar por representantes de programas federais de habitação, exibindo selos do HUD e do Departamento do Tesouro em seus sítios na internet, malas diretas e brochuras. A isca para fisgar o bolso dos infortunados recorria, sem-pudor, a todos os artifícios. Obtenha uma modificação do empréstimo para ficar em sua casa”, lançavam-na. Uma empresa, à saber – chegara a usar um sistema robotizado programado com a voz do presidente Obama anunciando um falso plano de “resgate” de hipotecas.

Em meio a crise financeira, a fraseologia vazia ecoada pelos veículos de comunicação transitava como botes salva-vidas num mar de dívidas. Milhares de dólares foram despejados nos bolsos dos golpistas sendo que os serviços prometidos nunca foram prestados ou, em muitos casos, nunca sequer poderiam impedir uma execução hipotecária. Advogados desonestos, e corretores não licenciados agiram num ajuste fino para limpar cada centavo da população através de novos empréstimos; cobrando altas taxas iniciais, sem nenhum serviço a fazer. Os mais astutos na arte da rapina fraudaram centenas de tomadores de empréstimos em milhões de dólares. A fraude foi tão grande que nenhuma agência estadual, federal ou até mesmo autoridade policial obstinaram-se a fazer estimativa razoável.

Longe de acabar, o ímpeto dos gângsteres do mercado imobiliário ainda mantém a atividade do Comitê de Advogados para Direitos Civis sob a Lei em pleno funcionamento. O órgão recebe entre quinhentas e oitocentas queixas por mês de proprietários de casas em todo o país sob alegação de golpes de resgate de execução hipotecária. Segundo Michael Tanglis, analista do comitê, “a Califórnia lidera”. “A Califórnia também lidera com 6.000 reclamações relatadas por proprietários de residências no estado”, revelou Tanglis. Para Joseph Dunn, CEO da California State Bar, “a Califórnia, tragicamente, é o epicentro das fraudes de modificação de empréstimos” conclui.

Embora os números causem espanto, segundo Dunn, os casos trazidos pela ordem dos advogados estaduais representam apenas uma fração das operações de resgate de execuções hipotecárias na Califórnia.

Sob a chefia de Kamala Harris

A situação era tão grave que, em 2011, Kamala Harris assumiu o Gabinete do Procurador-geral da Califórnia e anunciou a criação de uma força-tarefa em todo o estado para combater a fraude hipotecária, tratando-a como “prioridade máxima”.

Segundo Harris, “o Departamento de Justiça da Califórnia recebeu milhares de reclamações só no ano passado – todas relacionadas a golpes de execução de hipotecas, fraude de hipotecas e golpes de serviços de hipotecas” Ainda segundo Harris, “2,2 milhões de californianos devem mais do que seu lar vale. Sua angústia e vulnerabilidade são uma oportunidade muito rica para predadores”.

Parecia que os problemas dos pobres enganados havia caído nas mãos dos paladinos da justiça. Era só aparência… Em memorando obtido pelo The Intercept, alega-se que o OneWest Bank, que o secretário do Tesouro indicado de Donald Trump, Steven Mnuchin, administrou de 2009 a 2015, expulsou os proprietários de suas casas ao violar os estatutos de avisos e períodos de espera, documentos-chave retroativos ilegalmente e leilões de execução hipotecária ilegais. De acordo com o memorando, os líderes da Seção de Direito do Consumidor do procurador-geral do estado disseram que “descobriram evidências sugestivas de má conduta generalizada” numa investigação de um ano. Foram identificadas mais de mil violações legais na pequena subseção dos empréstimos do OneWest Bank. Por conseguinte, recomendaram que Kamala Harris abrisse uma ação civil contra o banco baseado em Pasadena. Estranhamente, o escritório de Harris, sem qualquer explicação, recusou-se a processar o caso.

Já estava tudo documentado. Não faltavam provas para a ação de Kamala Harris. Por que Kamala Harris não aproveitou a chance de esboçar toda sua plenitude marcial contra o banditismo dos golpistas? Afinal, sabia-se que os californianos estavam sendo expulsos ilegalmente de suas casas. Por que rejeitara um caso no qual já se havia gasto recursos significativos durante um ano de investigação em nível de linha?

Mnuchin, outrora, fora acusado de práticas de execução hipotecária do OneWest Bank. Os democratas do Senado já estavam em sua cola há tempos. Chegaram, inclusive, a criar um site convidando as vítimas de execução hipotecária a contar suas histórias. Teena Colebrook, uma das vítimas do golpe, votou em Donald Trump, mas perdeu a fé nessa decisão após a escolha de Mnuchin. Colebrook alegou, em entrevista, discrepâncias em sua substituição do administrador – semelhante ao que fora descrito no memorando do pacote.

Colebrook diz que enviou materiais para Kamala Harris anos antes, pedindo-lhe que a ajudasse a salvar sua casa. Harris, no entanto, respondeu: não podemos nos envolver em um caso individual”.

Fica evidente, portanto, que Kamala Harris não tem o mínimo interesse em “punir” os saqueadores da população, os golpistas do mercado hipotecário dos EUA. Diferente dos discursos dirigidos contra o povo cubano, onde ela diz que se deve endurecer a política contra a “ditadura” cubana, quando se trata dos grandes tubarões do mercado imobiliário e do mercado financeiro, a ditadura do capital se transforma na democracia dos poderosos sobre os desalentados; tudo isso, com o aval de Kamala Harris, a “capitã do mato” que se orgulha em enviar milhares de negros para o cárcere do país onde a democracia passa longe… bem longe.

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