Capitulação
A aliança com a burguesia é a consequência prática dos setores da esquerda que não querem confrontar os golpistas
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Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados | Foto: Reprodução

Na medida em que a crise econômica se aprofunda, a pressão da burguesia sobre os setores mais pequeno-burgueses da esquerda em torno da política de “frente ampla” aumenta. As posições de Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP), em defesa da conciliação com a direita golpista são uma clara expressão desse fenômeno. Em artigo intitulado “As esquerdas e a antipolítica”, Fornazieri procura elaborar algumas justificativas para a “frente ampla”, que serão debatidas neste texto.

A culpa é da luta contra o golpe

No desespero de justificar a política cada vez mais irracional da colaboração com a direita, Fornazieri encontra o seguinte “culpado” pelo avanço da extrema-direita: a luta contra o golpe. Vejamos o que o articulista diz:

“Os partidos se negam, sistematicamente, a um exame acerca de seus erros. Adotam a tese de que sempre estão certos e de que suas derrotas se devem aos inimigos, à grande imprensa, ao judiciário etc. (…). Ao não examinar os seus erros com rigor, as esquerdas adotam uma postura autocomplacente, vitimista, de autopiedade, que as conduz à indolência, ao fracasso e as afunda no lodo da história. (…) trata-se de um brutal erro estratégico colocar temas como construção de frentes antifascistas, combate ao golpe e temas afins como centro tático na conjuntura, a exemplo do que vêm fazendo os partidos de esquerda. A defesa da democracia precisa subsidiar a luta pelo emprego, pela renda, pelo auxilio, pelo atendimento médico etc.”

Em primeiro lugar, não é verdade que “a esquerda” dedicou todas as suas energias para denunciar a imprensa, o Judiciário, os golpistas, a extrema-direita etc. Na verdade, essa não foi a regra, mas a exceção: os setores mais combativos da esquerda, mais diretamente ligados ao povo, estiveram sempre em campanha contra a ofensiva golpista. No entanto, a pequeno-burguesia, justamente por sua natureza centrista, sempre procurou, mesmo diante de toda a crise, a melhor maneira de se adaptar ao regime político. Nesse sentido, as direções pequeno-burguesas que controlam a maioria das organizações da esquerda nacional capitularam, sucessivamente, à ofensiva golpista e procuraram formular uma política que não visava ao enfrentamento. Quando o golpe se desenhava, diziam que não haveria golpe, quando o impeachment estava em processo, corriam para um acordo de bastidores, enquanto o cerco se fechava contra Lula, confiavam no Judiciário…

Se a esquerda tem alguma responsabilidade pela situação em que o País se encontra está justamente no fato de que as direções pequeno-burguesas renunciaram, sistematicamente, o enfrentamento com os golpistas. Barganharam a luta política por ilusões eleitorais e parlamentares que jamais se cumpriram. Fornazieri, contudo, justamente por fazer parte dessa ala, não só se mostra incapaz de criticá-la, como, efetivamente, faz um apelo para que a esquerda pequeno-burguesa não se desvirtue de sua tradição de capitulações. Substituir a luta política por reivindicações genéricas de por emprego, renda e atendimento médico é tudo o que a burguesia quer. Isto é, que o caráter de classe da luta contra o golpe seja substituído por uma demagogia sem qualquer descompromissada.

Vemos essa rejeição de Fornazieri à luta política em outro momento no artigo: “em eleições municipais a dinâmica das disputas é definida pelas questões locais. Apenas subsidiariamente as questões nacionais têm alguma incidência”. Sem perceber, o sociólogo acaba reproduzindo a mesmíssima propaganda da burguesia. Para o regime político, as eleições municipais não devem ser uma plataforma para que os partidos políticos apresentem os seus programas, mas sim um palco para um disputa selvagem entre candidatos à administração do Estado burguês. Um Estado falido e completamente refém dos esquemas mafiosos da classe dominante.

O papel da esquerda nas eleições não deve ser o de perpetuar o regime político, mas sim o de denunciar suas ilegalidades para derrubá-lo.

Não existe fascismo, nem crise econômica

Ao tentar demonstrar os supostos erros de análise da esquerda que teriam levado à derrota, Fornazieri elabora a seguinte crítica:

“Desde o início do governo Bolsonaro, alguns analistas e dirigentes de esquerda oscilam entre duas fake News: a iminência da queda de Bolsonaro ou a iminência de um golpe militar de Bolsonaro. Nenhuma das duas diretrizes tem base na realidade: Bolsonaro nunca esteve perto de cair e nunca esteve perto de dar um golpe”.

Considerar que o governo Bolsonaro não é um governo instável e que um golpe militar não é possível consiste justamente na base supostamente teórica para as conclusões absurdas às quais Fornazieri chega. Afinal, se não há uma ameaça de golpe, nem o governo pode ser derrubado, então a situação política é estável e, portanto, a ação da esquerda contra o regime seria injustificada e inócua.

Vê-se, no entanto, que Fornazieri confunde seus desejos com uma análise concreta da situação. Bolsonaro é um presidente improvisado, convocado de última hora para assumir a vaga que a direita tradicional não conseguiu tomar para si por causa de sua profunda desmoralização. Sendo assim, mesmo apoiado pela burguesia e pelo imperialismo, Bolsonaro não goza de sua confiança. E justamente por ser um elemento de pouca confiança do regime político, procura mobilizar sua base de extrema-direita para garantir a manutenção de seu cargo. A relação entre Bolsonaro e a burguesia é intrinsecamente conflituosa e instável. E será cada vez mais instável na medida em que ele não consiga dar uma resposta à crise econômica cada vez mais profunda.

O golpe militar é uma consequência desse conflito. Por um lado, um eventual governo militar teria mais condições de suprimir, por meio da força, as contradições no interior do bloco golpista. Por outro, uma ditadura das Forças Armadas vai se tornando cada vez mais necessária para conter a tendência cada vez mais explosiva das massas.

Essa análise só leva a uma conclusão possível: é preciso mobilizar contra a ofensiva golpista do imperialismo, e a instabilidade do governo Bolsonaro é uma oportunidade para fazer essa mobilização tomar conta do País.

A culpa é do povo

É natural que Aldo Fornazieri, na medida em que não consegue demonstrar a validade de sua política, faça aquilo que acusou a esquerda de fazer: jogar a culpa nos outros. Mas aqui se dá de maneira baixa e desmoralizante, pois Fornazieri não põe a culpa no imperialismo, mas sim no povo:

“Mesmo com grandes números de mortos, as pessoas que não são atingidas tendem a naturalizar a morte. Passado certo tempo, até mesmo os familiares naturalizam a morte. Para os que não são atingidos pela morte e mesmo para as famílias mais pobres que são atingidas pela morte, a questão econômica é preeminente. O ganho, o interesse egoísta para alguns, e a sobrevivência para os mais pobres, são prioridades. (…) Bolsonaro, de forma oportunista, especulou com o interesse egoísta das pessoas e com a necessidade de sobrevivência”.

Nada mais cômodo do que jogar a culpa no povo. Mas também nada mais reacionário. Afinal, se o problema está na falta de sensibilidade do povo, caberia, por eliminação, à burguesia resolver os problemas do País. Embora os intelectuais pequeno-burgueses costumem se colocar acima das classes sociais, se Fornazieri não pretende resolver o problema por meio da mobilização dos trabalhadores, largará a solução no colo da classe dominante.

Além de desesperadora, esse tese demonstra a distância entre a esquerda pequeno-burguesa e o próprio povo. Os trabalhadores têm muito fidelidade às suas organizações de luta e a sua política do que a esquerda “bem pensante” pode crer. Para demonstrar isso, basta citar o incansável apoio dos trabalhadores ao ex-presidente Lula. Apoio esse que foi inclusive capaz de enfrentar a Polícia Federal e colocou o regime político em um grande impasse.

Fornazieri se baseia apenas nas suas impressões de quem vê o mundo através das pesquisas da imprensa burguesa, não através das filas gigantescas da Caixa Econômica e dos grandes dramas da classe operária.

A “frente ampla”

As sucessivas capitulações de Fornazieri para a pressão da burguesia só poderia levar à formulação da política de “frente ampla”:

“Além de recalibrar a tática, com o objetivo de enfrentar os problemas centrais do povo e de construir um projeto nacional, os partidos de esquerda precisam buscar vitórias em prefeituras importantes nas eleições municipais para acumular força. Bolsonaro poderá participar de forma mais ativa nas eleições no segundo turno, apoiando candidatos do centrão e de partidos de centro-direita. Visará, com isto, construir um campo de alianças para 2022”.

A política de conciliação com os golpistas é a consequência de tudo aquilo que já apontamos no artigo: a falta de esperança na mobilização dos trabalhadores, a análise de que o governo Bolsonaro é estável, a campanha contra a politização das eleições municipais etc. Trata-se de uma política sem qualquer eficiência para os trabalhadores e que não tem um único exemplo histórico a seu favor.

Mais do que criticar a sua ineficiência, é preciso denunciar que a campanha em torno da “frente ampla” é um serviço da esquerda pequeno-burguesa à burguesia, pois é a burguesia quem tem o maior interesse em reciclar os seus partidos falidos às custas da esquerda.

Uma campanha muito reacionária

Como uma última prova da desmoralização daqueles que se lançam na defesa da “frente ampla”, podemos apontar o que Fornazieri diz sobre o fundo partidário:

“Gleisi Hoffmann afirma que as esquerdas estão atrasadas nos embates nas redes sociais. Deveria fazer autocrítica, pois ela é presidente do maior partido de esquerda. A comunicação do PT é ruim. Cabe perguntar: o que é feito do fundo partidário, dinheiro do povo, do qual o PT recebe a maior fatia?”

A campanha contra o fundo partidário e a favor da abertura das contas partidárias é uma típica campanha da burguesia e da extrema-direita. É uma das bandeiras, por exemplo, do Partido Novo, uma das organizações da extrema-direita nacional. E o direcionamento feito a Gleisi Hoffmann não é por acaso: trata-se de uma representante da ala lulista, da ala que tem se chocado com a “frente ampla”.

O ataque gratuito e reacionário contra os gastos partidários comprova o caráter direitista da “frente ampla” e revela que os setores que insistirem nessa política serão arrastados cada vez mais para a direita

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