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Ameaça
A base de Bolsonaro e os militares querem, sim, impor uma ditadura
João Pedro Stédile, coordenador nacional do MST, afirmou que não haveria condições para um golpe militar.
manifestação
Ameaça
A base de Bolsonaro e os militares querem, sim, impor uma ditadura
João Pedro Stédile, coordenador nacional do MST, afirmou que não haveria condições para um golpe militar.
Bolsonaristas pedindo intervenção militar.
manifestação
Bolsonaristas pedindo intervenção militar.

O portal UOL, dirigido pelos donos do jornal Folha de S. Paulo, publicou, em edição de ontem (4), uma entrevista com João Pedro Stédile, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Na entrevista, Stédile afirma repetidamente que a ofensiva da direita golpista sobre os direitos democráticos dos trabalhadores e a entrega do patrimônio nacional irá ser encerrada por iniciativas vindas do próprio regime político – isto é, de forma independente da ação revolucionária das massas.

Os latifundiários “do bem”

Ao ser perguntado sobre o agronegócio, João Pedro Stédile introduziu, pela primeira vez na entrevista, a tese que vai guiá-lo a cometer uma série de análises imprecisas da situação política – a de que haveria um setor da burguesia mais “democrático”. Assim Stédile respondeu a pergunta:

O agronegócio lúcido não está no governo Bolsonaro. Inclusive, eles já estão na oposição. A gente vê quase todos os dias no [jornal] Valor [Econômico] declarações de dirigentes desse agronegócio mais lúcido, como Blairo Maggi, Roberto Rodrigues [ex-ministros da Agricultura] e outros líderes, que demonstram preocupação porque esse governo é uma insanidade. Esse é governo não tem juízo. É um desgoverno. Então, a médio prazo, vai provocar consequências para o mercado brasileiro e para o mercado mundial.

Espero, inclusive, que esse setor empresarial do campo, que é produtivo, que está interessado no futuro do Brasil, que eles se deem conta de que é importante fazer uma reforma agrária.

Não existe, contudo, nenhum agronegócio que seja lúcido. Ou, pior ainda: quanto mais lúcido for o agronegócio, pior será para os trabalhadores do campo. O agronegócio, que nada mais são do que os capitalistas que utilizam a terra para explorar os trabalhadores, tem um interesse muito bem definido: o de obter o máximo possível de lucro. Dessa maneira, os interesses do agronegócio são inevitavelmente contrastantes com os de toda a população do campo: enquanto um luta para encher seus cofres, o outro luta para alcançar condições dignas de existência.

A confusão de Stédile sobre o assunto se mostra bastante evidente quando este cita Blairo Maggi, ministro da Agricultura do governo Temer, que serviu de base para toda a destruição que o governo Bolsonaro está causando. A concepção do agronegócio lúcido revela, portanto, uma concepção de que haveria um setor mais democrático no interior da burguesia, disposto a “dialogar” com o movimento popular. Tal coisa, no entanto, não existe.

Todos o agronegócio que Stédile defende é, para todos os efeitos, bolsonarista. Quando encurralado nas eleições de 2018, ao ver que as candidaturas mais tradicionais do regime político fracassaram, o “agronegócio lúcido” por inteiro apoiou a extrema-direita. Isso, por sua vez é inevitável. A extrema-direita é o último recurso da burguesia para manter a população sob domínio, para impedir que se organize e atrapalhe os planos do imperialismo. A derrota da extrema-direita seria um passo fundamental para que os trabalhadores do campo avançassem em suas reivindicações, o que poderia acarretar na liquidação do latifúndio e, portanto, do chamado agronegócio.

A polícia também “do bem”

Em outro momento da entrevista, Stédile foi questionado sobre a possibilidade de o presidente ilegítimo Jair Bolsonaro endurecer a repressão. Assim respondeu o coordenador do MST:

Ele até pode querer, mas eu percebo [que] as polícias militares não são dirigidas por ele. São dirigidas pelos governos estaduais. E mesmo em governos estaduais que são de direita, eles têm juízo.

Esse tipo de declaração, além de se assemelhar com a que elogia o agronegócio lúcido, é imbuída de uma otimismo tão esperançoso que esconde, na verdade, o mais intenso desespero. Afinal de contas, dizer que as polícias e os governos estaduais de direita têm juízo é um delírio que expressa, na verdade, um desejo, uma vontade de se enganar diante da ameaça real que se coloca diante dos próprios olhos.

Em todos os governos estaduais onde a direita se alocou, a repressão contra a população pobre é duríssima. Na hipótese menos sangrenta possível, esses governos assassinam diariamente negros nas periferias, reprimem manifestações e atuam lado a lado com os jagunços no campo. No extremo mais elevado da repressão, tais governos permitem, a exemplo do psicopata Wilson Witzel, que crianças sejam assassinadas e que a polícia seja condecorada por cada homicídio que provoca.

Os governos estudais comandados por partidos da esquerda, por sua vez, também não conseguem acalmar os cçaes raivosos da polícia militar em sua fúria para bater na população. Afinal, mesmo que os governadores não queiram reprimir o povo, a polícia enquanto máquina assassina se estabelece por vários outros caminhos, sendo alvo de pressão da sociedade capitalista como um todo, que a prepara para essa função.

As polícias costumam ser o berço do fascismo, e o caso brasileiro não é diferente. São os agentes da polícia, na ativa ou fora da corporação, pressionados para reprimir o povo, que se lançam à missão de organizar as milícias da extrema-direita. No final de 2018, por exemplo, um grupo de extrema-direita assassinou um policial ligado à petista Fátima Bezerra, mostrando que já existe, na Polícia Militar, grupos organizados para servir de base para um governo de extrema-direita que precise se impor pela força.

Golpe militar

Além de declarar que as polícias não estariam preparadas para reprimir duramente o povo, Stédile declarou que não haveria condições para um golpe militar:

Mesmo que o Bolsonaro queira aumentar a repressão, acho que ele não tem base nem social e nem nas Forças Armadas.

Novamente, Stédile aqui incorre no erro de confiar em setores que estão comprometidos até o último fio de cabelo com o regime político golpista – e, portanto, com o bolsonarismo. Em relação à base social, a afirmação de Stédile não se sustenta, uma vez que já mostramos acima que a polícia é, em essência, bolsonarista. Além disso, nos chamados “coxinhatos”, quando os apoiadores de Bolsonaro nas ruas, foi possível ver, inúmeras vezes, palavras de ordem em favor de uma intervenção militar.

A base social que sustenta o governo Bolsonaro é fundamentalmente a favor de uma intervenção militar, embora seja uma fração minoritária da sociedade. O fato de ser minoritária no entanto, não impede que um golpe militar aconteça: como Bolsonaro é apoiado pela burguesia de conjunto, é possível conseguir criar condições para um golpe militar, assim como foram criadas condições para que o maior líder popular do país não se tornasse presidente da República nas eleições de 2018.

As Forças Armadas também estão dispostas a ver um novo golpe militar acontecer no Brasil. Mesmo que não seja possível identificar com clareza como as baixas patentes estão posicionadas nesse momento, é nítido que toda a cúpula das Forças Armadas está corrompida pelo imperialismo. Portanto, se o imperialismo decidir que o Brasil precisará de um golpe, os generais entrarão de cabeça.

A mobilização das massas

Discutindo a situação do Chile, João Pedro Stédile caracterizou dessa maneira o problema da mobilização popular:

A classe trabalhadora [brasileira] não se mobilizou, mas isso é só questão de tempo. Porque a lógica da mobilização das massas não é uma questão que depende de direção ou nós aqui decidirmos. Há uma lógica que leva um tempo até as massas se darem conta. E por isso que não tenham dúvida dia mais, dia menos haverá um reascenso do movimento de massa ainda que agora não esteja acontecendo.

Dizer que a classe brasileira não se mobilizou não é uma afirmação muito precisa, uma vez que há um movimento de luta contra o sendo desenvolvido há pelo menos quatro anos, que foi responsável, entre outras coisas, pela realização de duas greves gerais consideravelmente impactantes. Por outro lado, Stédile tem razão quando afirma que haverá inevitavelmente um levante dos trabalhadores brasileiros contra a direita. Isso, por sua vez, se dá porque a política neoliberal é insustentável e se mostrou um fracasso em todo o mundo, de modo que não pode levar a outro resultado que não a revolta popular.

O que deve ser criticado, no entanto, é a tese de que a mobilização não depende das direções. De fato, o que coloca as massas em movimento são seus interesses materiais – o que, por sua vez, depende da economia. No entanto, é necessário que a esquerda cumpra seu papel de vanguarda chamando o povo para as ruas e, sobretudo, apontando o caminho que deve ser seguido, de modo a fazer com que a rebelião contra a política da direita se transforme em um movimento com um resultado efetivo. O caso do Equador, por sua vez, é um exemplo que ilustra o que a ausência de uma direção pode causar: como o movimento seguiu sem uma orientação clara, foi rapidamente arrefecido.

A liberdade de Lula

O coordenador nacional do MST também falou do caso do ex-presidente Lula, encarcerado em Curitiba por meio de um dos processos mais fraudulentos da história:

Eu acho que é só questão de tempo para, no dia 7, os ministros completem e recuperem, envergonhadamente, o erro que cometeram no passado, porque a Constituição é clara: ninguém pode ser preso, a não ser em flagrante delito, até ser julgado na última instância. Portanto, eles estão julgando se o Lula faz parte do “ninguém” ou não. Eu acredito então que depois do julgamento do STF será questão apenas de adequar a forma e, em algumas semanas, o Lula estará livre.

Mais uma vez, Stédile confirma sua disposição em confiar nos setores mais reacionários do regime político. O Supremo Tribunal Federal (STF), que em um país verdadeiramente democrático, jamais deveria existir, uma vez que se trata de um poder não eleito que interfere nas decisões adotadas pelo Legislativo e pelo Executivo, é formado por uma série de elementos profundamente vinculados à burguesia. O STF permitiu o golpe de estado contra a presidenta Dilma Rousseff, a prisão do ex-presidente Lula, a fraude eleitoral de 2018 e todo o tipo de picaretagem aplicado pelo regime golpista. Não há porque depositar qualquer esperança nessa Corte.

O próprio presidente do STF, Dias Toffoli, já deu uma declaração em que aponta que não haverá um resultado favorável ao ex-presidente Lula no próximo julgamento. Toffoli deverá ter o “voto de minerva” e, ao que tudo indica, votará a favor da manutenção da prisão após condenação em segunda instância. Mesmo que, surpreendentemente, o resultado seja favorável, isso não vai garantir a liberdade de Lula, pois sempre é possível fazer alguma manobra para que a direita permaneça trancafiando o maior líder popular do país.

Diante disso, é preciso largar toda e qualquer confiança nas instituições burguesas e na burguesia de maneira geral. A única maneira de barrar a ofensiva da direita e libertar o ex-presidente Lula é por meio de uma mobilização revolucionária que derrube o governo Bolsonaro e coloque o regime político contra a parede. Fora Bolsonaro e todos os golpistas! Liberdade para Lula já!