Colapso na saúde
É preciso compreender que a situação chegou a esse ponto no Estado graças a décadas da mesma política defendida pelos que hoje se colocam como oposição a Bolsonaro
Manaus 07/05/2020 - Cenas dos leitos de UTI do hospital de campanha Gilberto Novaes sob responsabilidade da prefeitura de Manaus. Foto Jonne Roriz/Veja
Unidade de tratamento para pacientes com Covid-19 em Manaus | Foto: Jonne Roriz/Veja
Manaus 07/05/2020 - Cenas dos leitos de UTI do hospital de campanha Gilberto Novaes sob responsabilidade da prefeitura de Manaus. Foto Jonne Roriz/Veja
Unidade de tratamento para pacientes com Covid-19 em Manaus | Foto: Jonne Roriz/Veja

A crise da falta de oxigênio nos hospitais de Manaus é um demonstrativo importante da total inépcia que os governos têm de lidar com o problema do coronavírus. Não apenas o governo Bolsonaro, mas também os governos estaduais e municipais têm se mostrado totalmente incapazes de agir para enfrentar uma situação que não possui nenhuma característica de tão excepcional e que, caso fossem tomadas as medidas corretas, poderia estar muito mais controlada. Isso, aliás, vale para governos de todos os países do mundo. É preciso, no entanto, salientar que essa incapacidade não é uma característica exclusiva da política bolsonarista e nem mesmo do atual governador estadual do Amazonas. O verdadeiro algoz do povo amazonense e até do planeta inteiro é o imperialismo, que impõe a política neoliberal de vampirizar os estados nacionais e impede, assim, todo investimento em saúde ou em necessidades fundamentais da população.

Desde o princípio da pandemia, o estado do Amazonas já apresentava uma situação bastante alarmante com relação ao número de mortos. Ficaram famosas fotos aéreas dos cemitérios com um número gigantesco de covas sendo abertas todos os dias, fora situações em que 3 pessoas ou mais eram enterradas nas mesmas covas. Esse cenário catastrófico não se deu do dia para a noite. Ele é a consequência de muitos anos de uma política em que o sistema de saúde de todo o País está despreparado para uma emergência. Como o Amazonas está entre os estados mais pobres do País, ele tende a ser um dos primeiros a manifestar essa situação. Um exemplo disso é o ocorrido em 2018, quando o estado foi atingido por uma epidemia de sarampo, doença cujo último caso registrado datava de julho de 2015. À época, a doença voltou a preocupar os órgãos de saúde brasileiros e dois dos estados mais afetados eram o Amazonas e Roraima que, em um dado momento, tinham registrado 500 infecções pela doença.

Um dos ataques mais profundos a todo o sistema de saúde nacional no período recente foi a PEC do Teto de Gastos criada durante o governo do golpista Michel Temer. A PEC, que foi aprovada em 2016, mas passou a vigorar em 2017 (para a saúde e educação, começou em 2018), estipulava um limite para os gastos do governo que não fosse além do valor da inflação (ou seja, não seria diferente de 0) pelos próximos 20 anos. Uma medida como essas atinge diretamente setores como o da saúde, que precisam de investimento estatal para funcionar e esse investimento precisa, naturalmente, ser constantemente reajustado, visto que a população cresce a cada ano e novos problemas são colocados a cada novo período. Essa política foi articulada e levada adiante pelos mesmos setores que hoje são defendidos como “científicos” e conscientes, em oposição ao genocida Bolsonaro. Além disso, a política de acelerar as privatizações dos diversos setores do estado amazonense, como a do sistema elétrico, que vem se processando desde 2017, e também do sistema de saneamento básico, que foi aprovado em 2020, promete piorar ainda mais a situação da população amazonense.

Na última década, são muitas as notícias de cortes e sucateamento na área da Saúde ou em outros setores e que influenciam diretamente na situação atual do Amazonas. Um exemplo é uma notícia de 2011 da Folha de S.Paulo que relata que o Ministério da Educação havia acabado de cortar 3.986 vagas de cursos da área da saúde, entre as faculdades listadas que sofreram os cortes está a “Faculdade do Amazonas”. Outra notícia do mesmo ano conta sobre o bloqueio do Ministério da Saúde de repasses para 242 municípios no valor de R$6,5 milhões. Entre os municípios listados que deixaram de receber as verbas estão 3 do Estado do Amazonas. Há também uma notícia de 2012, do portal G1, que dá conta de um protesto realizado por servidores de saúde em Manaus, exigindo melhores salários e condições de trabalho, denunciando a precariedade total do sistema de saúde do Estado desde aquela época. Além disso, notícias de 2016 relatam uma crise na saúde nacional com o crescimento do vírus da zika e da mortalidade infantil: o Amazonas já se encontrava entre os Estados mais atingidos pela mortalidade infantil, com uma taxa de 19,6%, que equivalia a 3 vezes a média nacional.

Um aspecto fundamental para os problemas que se dão no sistema de saúde do Amazonas é a falta de acesso da população ao sistema de saneamento básico. Em 2014, de acordo com pesquisa do IBGE, apenas 36% dos domicílios urbanos possuíam saneamento básico adequado. A mesma pesquisa indica que 64% não possuem acesso ao saneamento e destes, 28,2% não possuíam abastecimento de água; 90,7% não possuíam esgotamento sanitário e 4,1% não possuíam coleta de lixo. A situação é ainda mais aberrante se considerarmos que o estado possui a maior bacia hidrográfica no mundo.

A dificuldade política de fazer com que todos os amazonenses tenham acesso à água limpa e a um tratamento de esgoto é naturalmente devido à política neoliberal, que entrava o desenvolvimento e vem sendo conduzida por todos os governadores do estado e também pelos governos federais desde pelo menos 30 anos atrás. Convém destacar também o caso da capital do estado, Manaus, que tem seu abastecimento de água gerido pelo setor privado há 20 anos. Desde o ano 2000, o gerenciamento do saneamento da cidade é feito por uma empresa chamada “Águas de Manaus”. Duas décadas sob o seu comando e apenas 12,4% da população da cidade tem acesso a tratamento de esgoto.

Também é importante salientar o fato de que uma parte grande do sistema de saúde do estado do Amazonas sofreu um processo de privatização. Os médicos amazonenses não são contratados por serviços públicos oferecidos pelo estado, mas sim através de suas cooperativas, o que aumenta ainda mais o grau de corrupção nesse processo de seleção e possibilita a indicação de profissionais inaptos. Não só isso, é um demonstrativo de toda uma política de saúde que se aplica a diversas outras áreas.

A crise de saúde no estado do Amazonas, assim como em outros diversos estados do país, não é de agora. É um sintoma da política neoliberal, cujos maiores defensores são os próprios governadores “científicos” que agora procuram se colocar como oposição a Bolsonaro. No entanto, é preciso ter claro que a política deles nunca foi diferente da de Bolsonaro e foi ela que levou a saúde do estado a esse colapso. A esquerda não pode ficar a reboque desses setores direitistas no que diz respeito à pandemia, é preciso ter uma política própria de combate ao coronavírus e não cair na demagogia da direita de que todos os problemas são causados apenas por culpa do fascista Bolsonaro.

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