Pacto Ítalo-Soviético
A burocracia termidoriana não fez acordos apenas com Hitler. Antes, já era aliada de longa data do fascismo italiano
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
maxim
Maxim Litvinov, ministro do Exterior da URSS, com o embaixador italiano em Moscou, Vittorio Cerutti | Foto: SPUTNIK / Alamy Stock Photo

É famoso o acordo que Josef Stálin fez com Adolf Hitler, em 23 de agosto de 1939, conhecido como Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético, ou Pacto Ribbentrop-Molotov (os sobrenomes dos ministros de Relações Exteriores da Alemanha e da URSS, respectivamente).

Essa aliança, que faria Lênin arregalar os olhos e se remexer em seu mausoléu nos muros do Crêmlin, levou a uma intensa crise no seio do movimento comunista internacional. Afinal, como poderia o primeiro estado operário do mundo, símbolo da luta contra a burguesia, se aliar com o maior de todos os inimigos que a classe operária já enfrentara?

A desculpa propagandeada pela máquina de mentiras da burocracia soviética era de que o “gênio” que controlava o PCUS estava, ao mesmo tempo, evitando uma guerra contra os nazistas e alertando as potências imperialistas ocidentais de que não deveriam mexer com a União Soviética, porque esta tinha poderosos aliados.

O fato é que essa traição execrável do marxismo e de todo o movimento socialista levou a uma forte desilusão de dezenas ou centenas de milhares de militantes honestos que acreditavam que a revolução socialista libertaria o homem de sua opressão e construiria um mundo onde não houvesse exploradores. A aliança da URSS com o nazismo confundiu até mesmo parte da vanguarda revolucionária da época. Muitos comunistas, desacreditados, passaram, inclusive para o lado da reação.

Mas Stálin já havia traído a revolução há muito tempo. Não só por ter sabotado a possibilidade da tomada do poder pela classe operária na China, na Espanha ou na França. Ele já tinha uma aliança com o fascismo.

O Pacto Ítalo-Soviético

A primeira nação ocidental a reconhecer a legitimidade do governo soviético que nasceu da Revolução de Outubro de 1917 foi a Itália, em 7 de fevereiro de 1924. Foi nessa data que os dois países estabeleceram relações diplomáticas.

Benito Mussolini e os fascistas já dominavam o país havia dois anos. O fato de iniciarem relações diplomáticas, um estado operário liderado por um partido revolucionário e uma nação controlada pelos fascistas, não é, por si só, algo condenável. No entanto, há que entender as consequências desse acordo.

Em 1926 e 1927, a União Soviética fornece a maior parte do óleo combustível que alimenta a frota de guerra italiana (Maria, Jean-Jacques. Stalin, p. 336). A aliança é justificada por Arturo Mussolini, irmão de Benito, no Giornale D’Italia: é absurdo travar uma luta com a URSS “na medida em que o bolchevismo é invencível em sua cidadela e tem direito à existência” (Idem).

A frase de Arturo é apenas retórica demagógica. Para os fascistas, a burocracia soviética, enquanto ajudava a dar sustentação à ditadura de Mussolini, tinha direito de existir. Mas o bolchevismo não! Ao menos, não na Itália. Ainda em 1926, todos os membros do Partido Comunista no parlamento italiano são presos, e os socialistas expulsos. A partir daí, a ditadura mussoliniana se endurece ainda mais e no mesmo ano o PC é posto na ilegalidade, seus dirigentes são exilados ou presos (como Antonio Gramsci) e milhares de militantes são enviados para campos de concentração ou assassinados.

Tudo isso, sob os olhos de Stálin e da III Internacional, que já mantinha o PCI sob estrito controle.

Ao invés de romper relações com a Itália, de intervir contra o extermínio dos comunistas e do movimento operário ou ao menos de negociar uma anistia, Stálin continua seus negócios com os fascistas.

Um Tratado de Amizade, Não-agressão e Neutralidade é assinado em 2 de setembro de 1933 (Paier, Anton. Sazonov, Vladimir. “From the Comintern to Putin: Russian ties with Italy”, 2019). Esse pacto permite uma maior aproximação militar entre os dois regimes. Já em maio daquele ano, Itália e URSS haviam acordado uma cooperação econômica para permitir o avanço de metas de industrialização, o acesso de Roma ao óleo combustível soviético e o fornecimento de apoio italiano nas áreas de aviação, automobilística e naval.

Quatro meses depois, a imprensa soviética repercute a visita de uma missão militar a Roma, relatando as palavras do então embaixador no país latino, Vladimir Potemkin: “gratitude pela atenção excepcional dada à missão soviética pelo comando e governo italianos.” Por sua vez, um general italiano diz que “o exército italiano tem um sentimento mais profundo que o sentimento profissional habitual em relação ao Exército Vermelho. Esses sentimentos se fortaleceram como resultado do Pacto Ítalo-Soviético” (TASS, setembro de 1933).

Depois disso, os contatos se mantiveram, ao ponto de representantes do exército e da marinha italianos terem passado duas semanas na URSS. Ainda em 1933, um submarino italiano esteve no Mar Negro e embarcações soviéticas em Nápoles.

A cooperação militar com a burocracia contrarrevolucionária soviética ajudou a Itália a fortalecer suas forças armadas. Em 1934, Mussolini empreendeu a invasão da Abissínia (atual Etiópia) e promoveu uma guerra genocida que assassinou 500 mil africanos, com o uso de armas químicas e intensos bombardeios contra os indefesos etíopes.

O Tratado de Amizade, Não-agressão e Neutralidade foi quebrado somente em 22 de junho de 1941, quando a Itália declarou guerra à URSS.

Assim como ocorreu com Hitler, Stálin foi um aliado de Mussolini durante anos, tendo a aliança se desfeito não por iniciativa da URSS, mas sim dos fascistas. Além dos milhares de italianos, alemães, etíopes, europeus orientais que sofreram com a invasão nazista, 20 milhões de soviéticos também foram vítimas da agressão hitlerista com apoio de Mussolini. A camarilha stalinista guarda essa culpa consigo até hoje, em seus túmulos.

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas
Sobre o Autor
Publicidade
Últimas
Publicidade
Mais lidas hoje