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Há 97 anos, mais de 300 soldados do Exército se amotinavam no Forte de Copacabana, na ponta direita da célebre praia do Rio de Janeiro, visando a impedir a posse do conservador mineiro Arthur Bernardes na Presidência, para a qual fora eleito quatro meses antes.

Na esteira da Primeira Guerra e da própria Revolução Russa, a crise do capitalismo encontrava na pressão da burguesia industrial urbana brasileira o seu vetor de pressão política visando à derrubada da política dominada pelas oligarquias agrárias típicas da República Velha.

O ex-presidente Hermes da Fonseca, germanófilo e responsável pela reforma do Ensino Militar no país com base no Império da Prússia antes da Guerra, retornara de uma estadia na Suíça após seu mandato, apoiando a candidatura de Nilo Peçanha à presidência no pleito de 1922, colocando seu oponente Artur Bernardes num campo antimilitar. A polarização foi reforçada por uma intensa campanha da imprensa. Em outubro de 1921, por exemplo, o Correio da Manhã do Rio de Janeiro publicaria duas cartas falsas de Bernardes ao político mineiro Raul Soares repletas de ofensas a Hermes, aos oficiais e ao Clube Militar cuja presidência ele assumira.

O Clube Militar emitiu um protesto contra o uso do Exército na política local de Pernambuco, e o presidente Epitácio Pessoa determinaria a repreensão e prisão de Hermes da Fonseca e o fechamento do Clube Militar. Os quartéis amotinaram-se, sobretudo no Rio de Janeiro, onde um levante geral foi organizado para eclodir na manhã do dia 5 de julho.

Entretanto, somente o Forte de Copacabana e a Escola Militar sublevaram-se. Os 301 amotinados do Forte, comandados pelo Capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do ex-presidente, e pelo tenente Antônio de Siqueira Campos, se viram isolados quando o alto oficialato da capital não aderiu ao levante. Desde a manhã do dia 5, quando haviam dado fogo a seus canhões, os revoltosos estavam sob pesada artilharia da Fortaleza de Santa Cruz da Barra e bombardeio aéreo, tendo resistido até a madrugada do dia seguinte, quando os comandantes da revolta deram autorização para retirada dos que desejassem, com o que restariam apenas 29 combatentes no Forte.

Euclides Hermes tentaria negociar a rendição, mas seria preso. Os demais optaram então por marchar abertamente pela Avenida Atlântica em direção ao Leme, sob fogo cerrado. Somente 17 militares restariam na marcha, a que se juntou o civil Otávio Correia, sendo finalmente derrotados na altura do Posto 3. Dezesseis teriam morrido na troca de tiros, restando os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes gravemente feridos.

Embora se tratassem de jovens da burguesia, sua baixa patente e a adesão da soldadesca deu ao levante um caráter popular. O tenentismo, como passou a se chamar o movimento, se firmaria como um importante setor de pressão revolucionária no Brasil até o final da era Vargas, após a Segunda Guerra.

Tal característica ambígua, própria das insurreições de características revolucionárias, reflete-se por exemplo na pauta de reivindicações de natureza conservadora dos 18 do Forte, como seria conhecido o grupo, que visava afinal “salvar a honra do Exército”, numa “missão regeneradora” que visava a derrubar as oligarquias estaduais e estabelecer um poder central de natureza bonapartista e militar.

Não se pode subestimar, em todo caso, o viés incendiário do episódio, que passaria a ser comparado à Revolta da Chibata conduzida pelo negro João Cândido anos antes e duramente reprimida por ninguém menos que Hermes da Fonseca.
Em 1924, no mesmo 5 de julho em homenagem aos 18 do Forte, estalaria outra revolta tenentista em São Paulo, sob comando de Eduardo Gomes, Juarez e Joaquim Távora, Estillac Leal, João Cabanas e Miguel Costa.

Mais organizada, a revolta paulista controlou a capital do estado por 22 dias, retirando-se no fim de julho rumo a Bauru, somando-se a outras revoltas tenentistas e formando a “coluna paulista”. Já no Paraná, em 1925, uniram-se a um grupo sublevado no Rio Grande do Sul comandado pelo tenente João Alberto e pelo capitão Luís Carlos Prestes.

Nascia a Coluna Miguel Costa-Luís Carlos Prestes, hoje conhecida como Coluna Prestes, com 1.500 pessoas que cortaria o interior do Brasil de sul a norte, percorrendo em rápidos deslocamentos mais de 24 mil quilômetros até 1927, quando se dissolveria. Prestes, como se sabe, se tornaria um dos principais líderes do Partido Comunista Brasileiro nas décadas seguintes.

Este notável episódio da história revolucionária brasileira demonstra o potencial político da verdadeira mobilização popular numa conjuntura polarizada, para além do credo pessoal de seus líderes, cuja consciência evolui com a experiência prática de organização.

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