30 dias do assassinato de Marielle: nenhum suspeito

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Neste sábado, dia 13 de abril, completa um mês do assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco (38 anos) e de seu motorista, Anderson Gomes (39) no centro do Rio de Janeiro. Ocorridas em pleno período da intervenção militar, essas mortes permanecem obscuras do ponto de vista de sua causa efetiva. Aventa-se “razões políticas” como fundamento deste ato de grande brutalidade. Apesar da maior suspeita recair sobre a milícia, fato é que as investigações ainda não chegaram a identificar os reais culpados, nomeadamente. Chegarão? De todo modo, o prazo do inquérito terá de ser prorrogado a partir de amanhã.

A causa principal pela qual lutava Marielle era a ampliação dos direitos das mulheres pobres e negras das favelas e comunidades carentes. Egressa da Maré, tendo se graduado na PUC (Pontifícia Universidade Católica) e feito pós-graduação na Universidade Federal Fluminense sobre o tema das UPPs (Unidades de polícia pacificadora), ela tratou da problemática das favelas desde o nível da reflexão teórica até a ação prática. Marielle trabalhou juntamente com Marcelo Freixo, seu padrinho político, na Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Mais recentemente, ela participava de grupos de auxílio a vítimas da polícia e de criminosos, além de colaborar com as famílias de policiais assassinados.

Marielle denunciava uma série de abusos cometidos por policiais em favelas. Poucos dias antes de ser assassinada, ela censurou de forma aberta os desmandos do 41º batalhão da polícia militar, conhecido como o mais letal do Rio de Janeiro. Por não sofrer ameaças, ao contrário de Freixo, a vereadora não possuía um esquema de segurança pessoal, tornando-se assim um alvo fácil. A maneira “profissional” como foi sumariamente executada, leva a crer na participação de grupos paramilitares treinados para operações deste tipo.

O crime, ao mesmo tempo brutal e planejado, ocorreu quando ela retornava de um encontro na Casa das Pretas na Lapa, já pela parte da noite. Ela voltava para sua casa na Tijuca, num Chevrolet branco, que foi alvejado 9 vezes em 13 tiros disparados. 4 deles estouraram a cabeça de Marielle, outros 3 atingiram seu motorista pelas costas. Só sua assessora, sentada à sua esquerda no banco de trás, acabou escapando, com alguns arranhões. Não dúvida do caráter premeditado do crime, e de que este foi obra de mais de uma pessoa.

Após o assassinato “físico” de Marielle e Anderson, grupos direitistas como o Movimento Brasil Livre (MBL) e outras pessoas – dentre elas uma desembargadora do Rio e o deputado da bancada da bala Alberto Fraga (DEM) –  tentaram de forma “assassinar” sua reputação, espalhando boatos infundados sobre a vereadora, como o de que ela manteria relações pessoais com traficantes. Mas a família da vítima conseguiu na Justiça uma justa vitória contra esses mentirosos.

De todo modo, independente da autoria “factual” do crime, o mais importante e grave é que ele ocorreu durante o estado exceção que vivemos, quando as garantias individuais se acham ameaçadas e se assiste não só no Rio como no Brasil e no mundo a uma escalada da extrema-direita. O crime foi político nesse sentido mais amplo, e marcou um salto qualitativo no nível da repressão às lideranças populares urbanas. Mas se por um lado ele aumentou a insegurança no campo político da esquerda, ainda mais por sua não elucidação, a morte heroica da vereadora estimulou e intensificou a política de resistência travada pela consolidação dos direitos dos negros, favelados e LGBTs. Hoje, somos todos Marielle.