Música sem fronteiras
Frank Zappa foi um dos músicos mais originais de nosso tempo, um compositor que tinha livre trânsito entre o rock, o jazz e a música erudita
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
frank zappa 1970 mothers
Frank Zappa em 1970 com os Mothers Of Invention | Foto: Reprodução Mirrorpix/Getty Images

O dia 4 de dezembro de 1993 nos trouxe a triste notícia da morte de um dos maiores e mais completos músicos do século XX, Frank Zappa. Foi um dos mais originais e criativos músicos de nossos tempos, um compositor, cantor, guitarrista, multi-instrumentista, provocador e satirista dos costumes da pequena burguesia americana.

Sua vasta obra se compõe de 62 álbuns que ele lançou enquanto vivo e mais dezenas de outros trabalhos lançados após sua morte e se caracteriza pela extensa variedade de estilos, onde ele explorou desde o blues, jazz e o rock até a música erudita tradicional e de vanguarda, com elementos de politonalismo, música concreta, manipulação de fitas e efeitos e para isso se utilizando de variadas formações musicais, desde um grupo de rock a grandes aparatos orquestrais. Era um conhecedor e estudioso de música, que ele começou a aprender ainda na infância através de uma formação totalmente autodidata. Ele creditou todo o seu conhecimento à leitura de livros que pegava emprestado das bibliotecas.

Como guitarrista foi considerado um dos maiores de sua geração, um nome que é frequentemente citado ao lado de virtuosos como Jeff Beck, Jimi Hendrix e Jimmy Page.

Foi ainda um dos artistas mais ativos pela liberdade de expressão, que nos anos 80 e 90 sofreu forte pressão dos setores mais conservadores da sociedade americana. Em 1985 Tipper Gore, mulher do vice-presidente americano Al Gore, liderou uma cruzada moralista que visava a censura das letras de músicas e das capas de discos. Zappa, ao lado de outros músicos como Jello Biafra, vocalista do Dead Kennedys, Dee Snider (do Twisted Sister) e Joey Ramone, foi um dos aguerridos opositores dessa política reacionária.

Primeiros dias

Frank Vincent Zappa nasceu em Baltimore, estado de Maryland em 21 de dezembro de 1940. O pai de Frank era Francis Vincent Zappa, um imigrante italiano que veio de Partinico na Sicília. Na infância, por muitos anos, Frank pensava ter recebido exatamente o mesmo nome de seu pai. Foi só depois de examinar a sua certidão de nascimento que ele descobriu que seu nome era Frank e não Francis.

Francis Zappa era químico e matemático, formado na Universidade de Chapel Hill, na Carolina do Norte e trabalhava na indústria de armas. Nos anos 40 a família morou na Flórida e depois voltou a Maryland, onde Francis trabalhava na indústria de armas químicas Edgewood Arsenal, uma fábrica ligada ao exército americano. Por morarem próximos à fábrica, que armazenava gás mostarda, a casa da família era repleta de máscaras de gás. Este fato marcou muito a infância de Frank, que, anos depois, fez diversas referências em seus discos a germes, combate a germes e à indústria de defesa.

Ainda na infância Zappa frequentemente estava doente, sofrendo dos efeitos da asma, dores de ouvido e sinusite. Um médico cuidou de sua sinusite colocando um filete de rádio em cada uma de suas narinas. Na época não se sabia que mesmo uma pequena quantidade de radiação terapêutica tem um potencial enorme de desenvolver câncer em uma pessoa. Em 1951 a família Zappa se muda para Pacific Grove, distrito de Monterey, na Califórnia.

Frank foi muito influenciado na infância pela música negra americana, o rhythm and blues de Johnny “Guitar” Watson, Guitar Slim e Ray Charles, pelo doo-wop, o estilo vocal de grupos como o The Channels e o The Velvets e pela música erudita modernista de Igor Stravinsky, Anton Webern e especialmente de seu grande ídolo, o franco-americano Edgard Varese.

O primeiro instrumento de Frank foi a bateria. Aos 12 anos começou a estudar a percussão de orquestra levado pelo seu interesse na música clássica. Em 1957 se junta ao grupo The Blackouts, que mistura negros e brancos, ao mesmo tempo em que mergulha no estudo da composição “Ionization” de Edgard Varese. Zappa fica tão obcecado com a obra do compositor que chega a telefonar para a casa dele, chegando a conversar com sua esposa.

Naquele mesmo ano começa a tocar a guitarra, que aprende sozinho. Desenvolve uma fascinação com discos de blues e rhythm & blues com solos de guitarra. Dentre seus favoritos estão Howlin’ Wolf, Muddy Waters e Clarence “Gatemouth” Brown. Ouve também muito jazz, em especial dos artistas mais modernos como John Coltrane, Cecil Taylor e Ornette Coleman.

Em 1958 Zappa tem sua primeira oportunidade de reger a orquestra de sua escola. Ele apresenta duas de suas composições para quarteto de cordas. No ano seguinte escreve a trilha sonora de um filme de baixo custo e com o dinheiro compra uma guitarra e monta o seu próprio estúdio caseiro de gravação. Nos anos seguintes continua se desenvolvendo com os estudos de música, gravações e tocando em bandas de rock, R&B e blues.

Zappa trabalhou por um breve período em 1959 como redator em uma firma de publicidade. Sua jornada pelo mundo comercial foi breve, mas lhe trouxe muitas informações valiosas sobre seu funcionamento. Por toda sua carreira nutriu um vívido interesse na apresentação visual do seu trabalho, desenhando algumas das capas de seus discos e dirigindo os seus próprios filmes e vídeos.

Frank ganhou dinheiro neste período compondo trilhas sonoras para vários filmes. Ao mesmo tempo compôs muito do material que ele viria a gravar nos anos 60.

The Mothers Of Invention

Em 1964 Zappa forma o grupo The Soul Giants que tem em sua formação o vocalista Ray Collins, o baixista Roy Estrada e o baterista Jimmy Carl Black. O grupo incluiu, algum tempo depois, o guitarrista Elliot Ingber, mudando de nome para The Mothers Of Invention. Foram contratados pela gravadora MGM em 1966 e lançam o seu primeiro LP, o clássico “Freak Out!”.

“Freak Out!” foi uma estréia sensacional, um LP duplo, uma completa novidade na época para um grupo iniciante. Muitos outros grupos seguiram seu exemplo, lançando álbuns duplos como o “Album Branco” dos Beatles, “Blonde On Blonde” de Bob Dylan e “Electric Ladyland” de Jimi Hendrix. “Freak Out!” trouxe canções com forte conteúdo político, como foi o caso de “Trouble Every Day”, que tratou dos conflitos conhecidos como os Protestos de Watts, ocorridos em Los Angeles, onde a população negra se revoltou contra a discriminação racial e a segregação em agosto de 1965. Além disso incluiu uma suíte que ocupava um lado inteiro do disco, “The Return Of The Son Of Monster Magnet”, um experimento utilizando percussões, vozes, manipulação de fitas e música concreta.

O segundo álbum do grupo, “Absolutely Free”, saiu em 26 de maio de 1967 e trouxe mais composições complexas com letras repletas de conteúdo político e sátira social. O ponto do álbum é “Brown Shoes Don’t Make It”, considerada a primeira obra prima do autor, uma sátira atacando a sociedade conformista americana com uma mistura de rock, música clássica, psicodelia, music hall e jazz. Apenas alguns meses depois, em agosto, é lançado o primeiro álbum solo de Frank, “Lumpy Gravy”. São duas peças orquestrais, sem a participação de Zappa, executadas por um grupo de músicos que ele chamou de Abnuceals Emuukha Electric Symphony Orchestra.

Nas sessões de gravação desse disco Zappa teve que enfrentar a desconfiança dos músicos presentes. O percussionista Emil Richards não sabia quem era Zappa e não o levou a sério, achando que ele era apenas um guitarrista em uma banda de rock. Tudo mudou quando Zappa entregou as partituras aos músicos, que eram uma música complexa, densa e repleta de mudanças de ritmos e acordes. Outro músico presente, o guitarrista Tommy Tedesco, brincou com Zappa dizendo que ele não sabia o que fazia. O fagotista e o clarinetista baixo se recusam a tocar suas partes dizendo serem impossíveis de serem executadas. Zappa respondeu: “se eu mostrar como se toca, vocês podem pelo menos tentar tocar?”. Ele tocou as partes na guitarra. Os músicos concordaram após essa demonstração. Após o fim das sessões os músicos se convenceram do talento do compositor e se tornaram amigos de Zappa.

Em 1968 Frank Zappa e os Mothers Of Inventions gravaram e lançaram o seu terceiro álbum, considerado o seu maior triunfo artístico nos anos 60, “We’re Only In It For The Money”. O disco é um comentário satírico e uma resposta ao álbum clássico dos Beatles, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” de 1967, um álbum que inaugurou a ideia do álbum conceitual, onde todas as músicas giram em torno de um mesmo tema.

A capa de “We’re Only In It For The Money” trazia uma colagem que parodiava a capa do disco dos Beatles. Zappa telefonou para Paul McCartney para conseguir a permissão para o seu uso, mas McCartney disse que isso era um problema que deveria ser resolvido com seus empresários. Em resposta Zappa disse que os artistas deveriam ser aqueles que diriam aos seus empresários aquilo que eles deveriam fazer. De todo modo a gravadora dos Beatles implicou com a capa, o que fez com que o lançamento do disco de Zappa fosse adiado por cinco meses. A gravadora de Zappa, a Verve, decidiu inverter a capa, colocando o que deveria ser a ilustração interna como a capa e a paródia dos Beatles foi parar na parte interior, o que desagradou imensamente a Frank e causou muito menos impacto.

O disco trouxe canções que criticavam a política americana e também o movimento hippie e a contracultura.

O disco seguinte dos Mothers Of Invention foi “Cruising With Ruben & The Jets”, que trouxe uma proposição bem diferente. Foi concebido como um disco conceitual sobre uma banda de doo wop fictícia de Chicago chamada Ruben & The Jets. Foi uma homenagem de Zappa à música que ele tanto gostava nos anos 50. Na época o disco enganou vários disc-jóqueis, que pensaram que era um disco inédito de uma banda real dos anos 50 (o nome de Zappa e dos Mothers Of Invention não apareciam na capa). Nos anos 70 surgiu uma banda que adotou o nome de Ruben And The Jets.

Em 1969 Zappa começou a trabalhar no seu primeiro filme longa-metragem, que deveria receber o título de “Uncle Meat”. Por diversos problemas o filme fica inacabado e só é lançado em 1987. Mas a trilha sonora sai em 21 de abril de 1969, outro álbum duplo repleto de faixas complexas e variadas, extremamente inventivo e aclamado pelas suas técnicas de gravação e edição com experimentos de manipulação de fitas e efeitos. Pouco tempo depois Zappa resolve dissolver o Mothers Of Invention e lança na sequência outro álbum solo, o aclamado “Hot Rats”, um disco quase todo instrumental. A única faixa cantada é “Willie The Pimp”, que tem nos vocais a presença do seu amigo de infância Captain Beefheart.

Durante o ano de 1970 são lançados os discos “Burnt Weeny Sandwich” e “Weasels Ripped My Flesh”, que trazem material inédito gravado pelos Mothers Of Invention. O terceiro álbum solo de Zappa sai no mesmo ano, “Chunga’s Revenge”.

Os anos 70

Ainda nesse ano Zappa monta uma nova versão do seu Mothers Of Invention com os cantores Mark Volman e Howard Kaylan, que foram anteriormente os cantores da banda pop The Turtles. Essa banda lança os discos “Fillmore East – June 1971” (1971) e “Just Another Band From L.A.” (1972).

Os anos de 1971 e 1972 foram bastante problemáticos para Frank Zappa. Em dezembro de 1971 Frank e sua banda fizeram uma apresentação no Cassino de Montreux na Suiça. No meio do show uma pessoa na plateia iniciou um incêndio que acabou se espalhou por todo o cassino e destruiu todo o equipamento da banda. Esse incidente foi depois retratado pelo grupo inglês Deep Purple em sua famosa canção “Smoke On The Water”.

Segundo a banda o prejuízo foi da ordem de 50 mil dólares (hoje em dia em torno de 300 mil dólares). Alguns dias depois o grupo foi tocar no Teatro Rainbow de Londres usando equipamento alugado. Bem no final do show uma pessoa da plateia subiu ao palco e empurrou Zappa para fora do palco, dentro do fosso da orquestra. A banda pensou que Zappa tivesse morrido na queda. Ele não morreu, mas sofreu fraturas múltiplas, um trauma na cabeça e a perna esquerda e pescoço gravemente fraturados, além de danos na laringe, o que  afetou a voz de Frank, que ficou mais grave. Frank ficou um ano em recuperação, precisando usar uma cadeira de rodas. Ele só voltou a se apresentar em shows em setembro de 1972, quando ainda estava com a perna engessada e com dificuldades para se movimentar. Anos depois ele comentou que uma perna ficou mais comprida que a outra e que como consequência ficou com uma dor crônica nas costas.

Após sua volta aos palcos Zappa lançou discos onde explorava a fusão de rock e jazz como “Waka/Jawaka” (1972), “The Grand Wazoo” (1972), “Over-Nite Sensation” (1973), “Apostrophe” (1974), “Roxy & Elsewhere” (1974) e “One Size Fits All” (1975).

A partir de 1979 Zappa monta sua própria gravadora, a Zappa Records e lança mais um álbum duplo, “Sheik Yerbouti”, onde satiriza fenômenos da música pop como a onda da música disco, Peter Frampton e mesmo Bob Dylan. 1979 é o ano do disco “Joe’s Garage”, um álbum triplo conceitual que conta uma história futurista no estilo de “1984” de George Orwell onde discute temas como a censura, livre vontade, a indústria fonográfica, sexualidade, religião e política.

Nos anos seguintes continuou fazendo várias excursões e lançando inúmeros álbuns, alguns deles exclusivamente com seu material erudito. Dentre eles está “London Symphony Orchestra Vol.1” (1983), que traz composições orquestrais regidas por Kent Nagano. Um segundo volume foi lançado em 1987.

Nos seus últimos anos Zappa ficou fascinado pelo Synclavier, um sintetizador digital, que tinha recursos de sequenciador. Com ele foi capaz de realizar composições onde a execução por músicos verdadeiros seria quase impossível. Um dos trabalhos onde ele usou este instrumento foi o disco “Francesco Zappa”, um álbum com composições de um compositor italiano do século XVIII. Apesar do nome não eram parentes.

Em 1991 Zappa foi diagnosticado com câncer terminal na próstata. A doença já havia se desenvolvido por dez anos e foi considerado inoperável. Com isso o compositor dedicou seus últimos dias ao seu trabalho, especialmente no campo erudito e no Synclavier. Ele morreu no dia 4 de dezembro de 1993 em sua casa em Los Angeles, com apenas 52 anos.

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas