A Deusa da Passarela
Uma das maiores campeãs do carnaval carioca, a Beija-Flor é uma expressão do samba e da comunidade de Nilópolis, município na Baixada Fluminense
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O desfile da Beija-Flor de 1989 com o abre-alas Cristo Mendigo | Foto: Sebastião Marinho/Agencia O Globo

O dia de natal de 1948 marcou o dia da fundação do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Beija-Flor. O então Bloco Beija-flor foi formado por um grupo que tinha Negão da Cuíca (Milton de Oliveira), Dona Eulália (mãe de Milton), Edinho Ferro-Velho (Edson Vieira Rodrigues), Helles Ferreira da Silva, Hamilton Floriano e José Fernandes da Silva. O grupo estava comemorando o natal no centro de Nilópolis quando tiveram a ideia de criar um bloco carnavalesco para suprir a extinção dos blocos Irineu Perna-de-Pau e dos Teixeiras.

A reunião oficial ocorreu no Grêmio Teatral de Nilópolis. O nome da escola foi sugerido por Dona Eulália, inspirado no Rancho Beija-Flor, um rancho da cidade de Valença, pela qual Dona Eulália desfilava quando mais nova. Por ter escolhido o nome da escola Dona Eulália foi incluída entre os fundadores, única mulher do grupo, sendo que Negão da Cuíca foi eleito presidente e Edinho do Ferro Velho o secretário.

A Beija-Flor foi fundada em Nilópolis, município da Baixada Fluminense. A escola ficou conhecida como “A Deusa da Passarela” e como “A Maravilhosa e Soberana” e ao longo dos anos vários de seus sambas-enredos trouxeram referências a esses apelidos como o de 2016 onde cantavam: “Sou Beija-Flor, na alegria ou na dor / A deusa da passarela, é ela! / Primeira na história do Marquês / Que na Sapucaí é soberana / De fato nilopolitana”.

Logo em seu primeiro ano de desfile, em 1949, o bloco foi campeão municipal, tornando-se tricampeão em 1953, seu último desfile como bloco. Nesse ano, através do compositor Cabana, começaram as articulações para transformar o bloco em uma escola de samba. Foi então que foi mudado o nome original de Bloco Associação Carnavalesca Beija-Flor para o atual Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. O primeiro presidente da nova escola de samba foi José Rodrigues Sennas, ex-militar e morador da comunidade que não era dos membros fundadores, mas convidado por eles para assumir o posto. A Beija-Flor foi campeã com o samba-enredo “Caçador de Esmeraldas”, de autoria de Cabana, subindo para o primeiro grupo, onde ficou até 1963. Nos anos seguintes teve vários desfiles infelizes e a escola passou anos pelas divisões inferiores até 1974.

Em 1973, o primeiro ano sob a administração do novo presidente, Nelson Abraão David, controlador do jogo do bicho em Nilópolis, a Beija-Flor conquista o vice-campeonato do segundo grupo e volta para a divisão principal do carnaval carioca.

Um fator marcante para a Beija-Flor foi a chegada do carnavalesco e artista plástico Joãosinho Trinta em 1976, egresso do Salgueiro. Nesse ano ele fez um enredo em homenagem ao jogo do bicho, além de trazer outras inovações como convidar a transexual Eloína dos Leopardos para desfilar à frente da bateria da escola, tornando-se a primeira madrinha de bateria da história do carnaval. Com Joãosinho Trinta e com o cantor Neguinho da Beija-Flor puxando o samba, a Beija-Flor se sagra campeã em 1976, 1977, 1978, 1980 e 1983.

A escola ficou conhecida pelo luxo de suas alas e alegorias e surpreendeu o público em seu desfile de 1989, que trouxe o samba-enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”. Nesta ocasião a Beija-Flor ficou em segundo lugar, mas causou uma grande controvérsia com a Igreja Católica por trazer, em seu carro abre-alas uma reprodução do Cristo Redentor vestido como um mendigo. Às vésperas do desfile a Arquidiocese do Rio de Janeiro conseguiu uma ordem judicial que proibia a apresentação da alegoria. Por causa disso, Joãosinho Trinta cobriu a alegoria com um plástico preto e colocou uma faixa com a frase: “mesmo proibido, olhai por nós”. No desfile das campeãs os foliões rasgaram o plástico que cobria o Cristo, levando o público ao delírio.

A Beija-Flor voltou a ser campeã do carnaval carioca em 1998 quando mostrou o enredo “Pará: o mundo místico dos caruanas nas águas do Patu-Anu” e depois conquistando os títulos de 2003, 2004, 2005, 2007, 2008, 2011, 2015 e 2018 e tornando-se a terceira maior campeã dos carnavais do Rio de Janeiro, atrás apenas de Portela e Mangueira.

O samba, expressão popular

O samba sempre foi a maior expressão popular do povo negro brasileiro, especialmente dos moradores do Rio de Janeiro. O samba moderno teve origem nos anos 1920 no morro do Estácio, um ritmo muito mais sincopado que o conhecido até então. Nesta época o samba e os sambistas eram alvos constantes da perseguição policial, associados sempre à marginalidade. Para conquistar uma legitimidade social, resolveram vincular suas batucadas ao samba do carnaval e se organizaram nas escolas de samba. O termo “escola de samba” foi cunhado por Ismael Silva em 1928, fundador da Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba.

As escolas de samba eram uma contraposição aos ranchos carnavalescos. Enquanto as escolas de samba eram manifestações populares da população mais humilde e negra, os ranchos eram manifestações da classe média. Em locais como o Rio de Janeiro as escolas de samba sempre foram encaradas como manifestações das comunidades e dos bairros, onde os desfiles das escolas de samba são trabalhos comunitários. Muitas escolas de samba se tornam associações de bairro e representantes de sua comunidade.

Com o crescimento das escolas de samba os ranchos carnavalescos acabaram desaparecendo, sendo que seu declínio já era visível desde os anos 40.

O papel da burguesia

É possível traçar um paralelo das escolas de samba com o mundo do futebol. Ambas são manifestações populares, das maiores tradições do povo brasileiro. Ambas atraem muita atenção, tem um público fanático por suas agremiações e times e são eventos onde circula muito dinheiro. Neste sentido é claro perceber que a burguesia tenta sequestrar estas expressões populares para si.

No futebol há uma clara tendência da burguesia de tomar o esporte mais popular do país para torná-lo um entretenimento para a classe média com a construção de novos tipos de estádios, as chamadas arenas multiuso, onde os ingressos são caríssimos e sem a presença dos antigos setores populares, as arquibancadas de ingressos mais baratos. As torcidas organizadas são duramente reprimidas e clássicos frequentemente são para as torcidas de um único time. O estado busca sempre colocar obstáculos diversos para impedir a participação popular.

Os altos salários pagos aos profissionais da área contribuem muito para isso, deixando clubes em situações onde só é possível continuar existindo se houver um patrocínio pesado de empresas, como é o caso do Palmeiras e o patrocínio da Crefisa. Por outro lado, a burguesia pretende transformar outros clubes nos chamados clube-empresa, ou seja, uma privatização dos clubes de futebol, tirando totalmente a participação dos torcedores das decisões do time.

A mesma coisa acontece com as escolas de samba e o carnaval. A cada ano cresce a influência da burguesia. O primeiro passo foi dado com a construção dos chamados sambódromos, onde agora é possível cobrar ingresso para assistir aos desfiles que antes podiam ser vistos de graça nas grandes avenidas. O Sambódromo do Rio de Janeiro foi implantado em 1984, no governo de Leonel Brizola. Inicialmente tinha ingressos a preços populares, mas cresceu no sentido de criar camarotes vips e áreas exclusivas para a elite, onde figuras, das mais grotescas e fascistas como Wilson Witzel e João Doria aparecem para mostrar sua “ligação” com o povo.

A população tem que rejeitar isso. O carnaval nasceu das camadas mais pobres e só poderá sobreviver se continuar sendo uma manifestação de suas comunidades, onde a burguesia não tem vez. Como a Beija-Flor, expressão máxima da população de Nilópolis.

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