Revoltas Populares
O dia em que os escravos de Salvador se levantaram contra a opressão.
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Os revoltosos vestiam branco, a cor do islã e carregavam amuletos religiosos. | Foto: Reprodução
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Os revoltosos vestiam branco, a cor do islã e carregavam amuletos religiosos. | Foto: Reprodução

O Dia de Hoje na História traz um destes episódios pouco conhecidos pela maioria do povo brasileiro. Este esquecimento não é por acaso, pelo contrário, a elite procura esconder qualquer episódio onde o povo, em particular os mais oprimidos, sejam protagonistas de lutas por liberdade ou melhorias sociais. Falaremos hoje, com orgulho, do 24 de janeiro de 1835, a Revolta dos Malês, que teve como palco a cidade de Salvador na Bahia e foi protagonizado por negros de religião muçulmana como resposta às agruras sofridas no regime de escravidão.

O termo malê tem origem na palavra imalê, que na língua iorubá significa “muçulmano”. Também conhecidos como nagôs, os malês tinham o hábito de escrever sobre os acontecimentos, em geral em árabe. Este costume forneceu vasta documentação para explicar a revolta de 1835. O levante contou com a participação de mais de 600 escravos e libertos. Apesar de a maioria ser de origem islâmica, também contou com o apoio de oriundos do candomblé. A esmagadora maioria era de africanos e os nascido no Brasil praticamente não aderiram ao movimento.

Na década de 1830 o país passava por muita agitação política. Em 1831, Dom Pedro I, o “herói” da independência, abdicou do trono para assumir o coroa em Portugal, demonstrando que “morte” na famosa frase que marca nossa independência não passou de demagogia. Enfim, a saída do imperador causou desestabilização política e levou a uma luta por poder. Em decorrência, muitas revoltas eclodiram em todo o país.

À época, a população de Salvador orbitava em torno de 65.500 habitantes, dos quais 40% eram escravos. Do ponto de vista étnico, negros, mestiços e afrodescendentes representavam 78% da população, contrastando com apenas 22% de brancos. Entre a população escrava, 63% era nascida na África.

Sendo Salvador um grande centro urbano, os escravos contavam com uma certa liberdade de mobilidade, pois realizavam muitas tarefas para seus senhores pela cidade. Também havia muitos negros e mestiços libertos que desempenhavam ofícios de artesãos no centro da cidade. Estes fatores favoreceram a organização e planejamento da revolta. Apesar de haver algumas dúvidas entre os historiadores, acredita-se que a revolta pretendia criar uma rebelião escrava generalizada e instituir em Salvador um governo malê, liderado por muçulmanos. O plano incluía matar todos os brancos, pardos ou mulatos livres, bem como os escravos negros que se recusaram a participar da revolta.

O levante foi planejado para o dia 25 pela manhã, uma vez que a maioria da população iria para a Igreja de Nossa Senhora do Bonfim, deixando assim o centro livre. No entanto, a batalha teve inicio um dia antes, no dia 24, devido a uma denúncia anônima que chegou ao prefeito, este então ordenou que a polícia realizasse rondas em todos os distritos da cidade com patrulhas dobradas.

Ao chegar na região da Ladeira da Praça, a polícia se deparou com um grupos de 60 rebeldes e entraram em batalha. Após debelarem a patrulha, os rebeldes seguiram para a Câmara Municipal, com o objetivo de libertar um dos líderes malês, Pacifico Licutan, preso no subsolo do edifício. O ataque, porém, não obteve sucesso e o grupo rebelde foi surpreendido pelas forças oficiais.

Várias batalha ocorreram durante a noite e no dia seguinte, levando pânicos aos moradores. A última batalha acontece com o batalhão da cavalaria na região de Água de Meninos, marcando o momento final da revolta, quando os malês são derrotados.

Os rebeldes foram vencidos e levados a julgamento. A repressão foi brutal, alguns sobreviventes foram deportados para a África, outros condenados a açoite que variavam entre 300 até 1200 chicotadas, aplicadas em momentos distintos para evitar a morte do apenado, dezesseis foram condenados à morte, embora apenas quatro tenham sido de fato executadas pelo pelotão de fuzilamento no Campo da Pólvora, no dia 14 de maio de 1835.

Entre os líderes, sete foram identificados, destes pelo menos cinco eram nagôs, são eles:

  • Escravos: Ahuna, Pacifico Licutan, Sule ou Nicobé, Dassalu ou Damalu e Gustard, estes nagôs e Luís Sanim.
  • Libertos: Manoel Calafate, Elesbão do Carmo ou Dandará, este último de origem haussá.

Em consequência da revolta e seu caráter religioso, a repressão forçou muitos negros a aderirem ao catolicismo. Após os relatos da imprensa em todo o país, sobreveio uma crescente desconfiança, insegurança e medo, sobretudo em Salvador, o que levou os negros nagôs a serem vistos como ameaças para o sistema de escravidão e a estrutura social vigente.

Apesar de não ter alcançado os objetivos imediatos, a Revolta dos Malês somou-se a muitas outras revoltas populares que aos poucos foram enfraquecendo o Império e sua mais importante instituição, a escravidão, o que certamente contribuiu para sua derrocada. O episódio também põe por terra a errônea ideia de que o povo brasileiro é pacífico e indolente e não se revolta contra seus opressores.

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