22 de Novembro de 1910: inicia a Revolta da Chibata com o “Almirante Negro”, João Cândido

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Neste dia 22 de novembro de 2018 completam-se 96 anos da Revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro e que colocou em cheque todo o regime político da chamada Republica Velha. A frente da Revolta estava o Almirante Negro, o marinheiro João Cândido, negro, principal liderança do levante dos marinheiros.

Dentre os muitos aspectos da Revolta da Chibata, o primeiro  que se destaca e o fato do levante dos marinheiros se inserir em um contexto histórico de intensa crise politica nacional e internacional.  No Brasil, a partir do fim do Segundo Império em 1889, com a derrubada do governo monárquico de Dom Pedro II pelas mãos dos militares, com a proclamação da Republica, abre-se um período de crise política de características revolucionárias no interior do regime político nacional. Um exemplo desse fato e Revolta de Canudos, a qual e duramente reprimida pelo regime em 1897.

Durante a primeira Republica a crise se estende ao longo dos governos das oligarquias, a chamada política do Cafe com Leite. A tentativa dos setores centrais da burguesia de tentar estabilizar o regime a favor das oligarquias paulistas e mineiras e marcada pelas inúmeras crises e disputas envolvendo outros setores da burguesia nacional, os quais eram mais afetadospela hiperinflação e pela crise da política do café com leite.

Exemplo disso e o governo de Hermes da Fonseca, representante da burguesia sulista e ligado aos militares. Seu governo representa uma ala dissidente da burguesia nacional que se encontrava em profunda crise devida a politica levada a cabo anteriormente pelos setores centrais da direita nacional. E durante o governo de Hermes da Fonseca em 1910, ou seja durante um período de aprofundamento da crise no interior das classes dominantes do pais, que eclode a revolta da Chibata.

Tendo a frente João Cândido, a Revolta, de um ponto de vista específico, exige, dentre outros pontos, o fim dos castigos contra os marinheiros promovidos pelos oficiais, as chibatadas. Os setores mais afetados por tais praticas no interior da marinha eram, evidentemente os negros. De um ponto de vista geral, no entanto, a perícia, a determinação e a luta dos marinheiros, sob liderança de João Cândido, coloca de joelhos todo o regime político nacional. A capacidade e a liderança do Almirante Negro tornou possível, por exemplo, que a esquadra rebelde. por meio de uma serie de manobras, colocasse a sede do Governo no Rio de Janeiro sob a mira dos canhões dos navios, o que forcou a burguesia nacional a atender todas as suas reivindicações.

A Revolta se insere também em uma época de importantes levantes de marinheiros em todo mundo. Haja vista a revolta dos marinheiros russos em 1905, o famoso episódio do Encouraçado Potemkin, revolta esta dirigida por um militante do partido bolchevique. A revolta dos marinheiros alemães em 1918, que deu inicio a revolução na Alemanha, e a revolta da Marinha Francesa em 1917, no mar Báltico, dirigida por um membro do Partido Comunista Francês,  que ocorreu devido a recusa dos marinheiros franceses de seguirem as ordens do alto comando de atacar a Revolução Russa.

Não e por acaso que tais revoltas ocorreram na Marinha. Um marinheiro, diferentemente de um soldado que atuadiretamente nos conflitos, e um operário. Muito mais do que a função militar, sua função e operar o navio, o qual funciona como uma fábrica. Dentro de um navio existem uma série de funções técnicas que são funções fabris, alimentação das caldeiras, operação das máquinas, manutenção, limpeza, condução do navio, é essencialmente um trabalho mais técnico do que militar.

Nesse sentido, a Revolta da Chibata, assim como as demais, foram revoltas também de um setor da classe operaria. Não e a toa que o levante dos marinheiros foi o prenúncio da Greve Geral no Brasil de 1917.

Do ponto de vista da luta dos negros, a revolta e de extrema importância. Dirigida e levada adiante por marinheiros negros, a revolta colocou abaixo as teorias da classe dominante que classificavam e ainda classificam os negros como seres inferiores, incapazes, acéfalos, perante a suposta supremacia dos brancos. Na revolta quem toma a frente e João Cândido, um homem negro, um homem simples, um operário, promove uma revolta, mata a maioria dos oficiais que se opõe ao levante, controla toda a esquadra brasileira e comanda as operações da frota inteira como se fosse um almirante que tivesse participado da Primeira e Segunda Guerra Mundiais.

Nesse sentido, a Revolta soma-se a outros episódios históricos e de fundamental importância para a luta dos negros, como a luta no Quilombo dos Palmares no seculo XVII, dirigida e organizada por Zumbi, a Revolução Haitiana no final do seculo XVIII, uma revolução negra em plena América Central contra o domínio colonial, a Revolta dos Males na Bahia em 1835, dentre outros episódios. Tais eventos históricos também colocam abaixo a tese do negro como um ser pacato e submisso frente a condição de escravo a que era submetido. Fato e que durante todo esse período o negro sempre procurou se rebelar contra a  extrema opressão a que era submetido, o que demonstrou e demonstra o carácter revolucionário de sua luta.

No caso da revolta da Chibata, entrou para a história a figura de João Cândido. Sua grande capacidade de liderança e direcção politica o colocam  na história dentre os principais nomes na luta em defesa do povo negro e da população pobre e trabalhadora de um modo geral.