Pioneiro do jazz de vanguarda
Se ainda estivesse vivo Sun Ra faria nesta data 106 anos. O pianista e compositor teve uma vasta e complexa obra, com mais de 1000 músicas gravadas.
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ANN ARBOR, MI - SEPTEMBER 23:  Sun Ra and his Sun Ra Archestra perform with a steel sculpture on September 23, 1978, at Hill Auditorium in Ann Arbor, Michigan. (Photo by Leni Sinclair/Getty Images)
Sun Ra e sua Arkestra, 23 de setembro de 1978. Foto: Leni Sinclair/Getty Images |

Sun Ra foi um dos maiores e tambem um dos menos conhecidos dos grandes artistas do jazz das últimas quatro décadas. Compositor, lider de orquestra, pianista, poeta e filósofo afrofuturista, ele fundou a “ Arkestra” sua big band, para levar o jazz a territórios não explorados, com uma filosofia que  abrangia desde o vaudeville, dança moderna, cosmologia egípcia, filosofias orientais, surrealismo, o kitsch e a Bíblia.

Teve uma obra extensa, lançando algo em torno de 100 albuns e dezenas de singles, muitos deles gravados em casa, vendidos como fitas cassetes copiadas por ele mesmo ou prensados em vinil, em infimas quantidades que eram vendidos nos seus shows. Esse número de discos lançados pode chegar a 200, já que muitas vezes o artista lançou discos sem capa ou sem título.

Foi um músico que não teve medo em explorar as infinitas possibilidades do uso da tecnologia desde o início dos anos 1950. Costumava experimentar com aparelhos eletronicos, sintetizadores primitivos e manipulação de gravadores de fita. Robert Moog, criador do sintetizador Moog, deu a ele um protótipo do Minimoog antes que fosse lançado no mercado.

Uma obra marcada pela extrema liberdade criativa

Poucos artistas tiveram uma obra tão eclética. Seus discos refletiam toda a história do jazz, do ragtime e o hot jazz de Nova Orleans ao swing, bebop, free jazz e fusion, incluindo suas próprias inovações como a introdução de teclados eletronicos no jazz e novos estilos que ele criou como o space jazz. Suas composições iam de peças solo de teclado a faixas com pequenos grupos e até orquestras de 30 músicos com uma larga seção de percussão e muitos vocalistas. Mas ao mesmo tempo em que incorporava os novos estilos que surgiam no jazz o seu trabalho era tão a frente de seu tempo, tão peculiar e atípico que não era dificil imaginar que isso era oriundo de outro planeta, afinal de contas ele parecia mesmo vir de outro mundo.

Suas apresentações eram verdadeiros happenings, frequentemente com a presença de dançarinas e todos os músicos vestidos com roupas elaboradas e futuristicas inspiradas por uma mistura de temas espaciais e do Egito antigo. Mas toda esta extravagancia musical e visual fez com que Sun Ra fosse muito pouco apreciado pelo público de jazz mais tradicional e como resultado alguns de seus maiores discos só seriam ouvidos por um pequeno número de pessoas.

Afrofuturismo

Outro aspecto importante é que Sun Ra se tornou um dos pioneiros do chamado afrofuturismo, uma estética cultural, filosófica e histórica que explora a intersecção entre as tradições da cultura africana com a tecnologia. O termo foi cunhado em 1993 e englobava os trabalhos de artistas visuais como Jean-Michel Basquiat, o funk psicodélico de George Clinton e seu Parliament/Funkadelic, Afrika Bambaata, Tricky e o herói dos quadrinhos, o Pantera Negra. O afrofuturismo visava a valorização da cultura negra e seu posicionamento como vanguarda cultural.

Infancia segregada

Sun Ra nasceu em Birmingham, Alabama em 22 de maio de 1914 com o nome de Herman Poole Blount. Se estivesse vivo hoje teria 106 anos. Ele costumava dizer a seus seguidores que ele teve uma visão que lhe revelou que ele não havia nascido na Terra; na realidade era um anjo de Saturno e tinha mais de 5000 anos de idade.

Birmingham adquiriu uma reputação como a cidade mais racista e segregada da América. Uma cidade tão separada que as lojas dos negros foram legalmente separadas em um gueto e onde as autoridades locais estabeleceram apenas um dia na semana onde os negros eram autorizados a fazerem compras. A segregação em Birmingham teve um profundo efeito em Sun Ra. Mas ele direcionou esta revolta para a cultura. Ele criou música como um meio de promover sua mensagem de uma vida digna para o povo negro.

A maior parte dos detalhes biográficos de Sun Ra permaneceram obscuros até a chegada da biografia “Space Is The Place” de John F. Szwed em 1998. Sun Ra escondeu muitas informações propositadamente enquanto criava a sua nova persona. Foi Szwed quem conseguiu descobrir sua data de nascimento e outras informações importantes.

Sun Ra começou a tocar piano ainda criança. Desde cedo havia ganhado o apelido de Sonny. Aos 11, 12 anos já compunha e era capaz de ler partituras. A cidade de Birmingham era um parada importante para músicos e ele pode assistir a muitos dos grandes como Fletcher Henderson e Duke Ellington.

Enquanto adolescente demonstrou um prodigioso talento musical: era capaz de assistir a um show de uma big band e depois transcrever partituras completas das músicas só de memória. Logo cedo estava tocando em big bands, grupos de r&b e tambem atuando como pianista solo. Era tambem um leitor voraz, frequentando uma loja maçonica local, um dos poucos locais onde negros podiam frequentar e ter acesso a livros.

Início da carreira profissional

Em 1934 iniciou sua carreira de músico profissional se juntando a uma big band. Na época as big bands tinham muito prestígio não só na comunidade negra como tambem para os brancos. Muitas vezes eles se apresentavam em shows exclusivos para a elite branca, apesar de serem proibidos de se misturarem à platéia. No final dos anos 1930 montou sua própria banda, a Sonny Blount Orchestra.

Sun Ra se mudou para Chicago em 1945 onde fez sua estréia fonográfica lançando dois singles em 1946: “Dig This Boogie” e “My Baby’s Barrelhouse”. Nesta época tocou com vários músicos famosos como Fletcher Henderson e Coleman Hawkins. Em 1952 mudou legalmente de nome. Tornou-se Le Sony’r Ra. Ele declarou que seu sobrenome, Blount, era um incomodo porque era um nome de escravo, de uma família que não sua de verdade.

A Arkestra

Foi por esta época que incorporou a seu grupo os músicos John Gilmore (sax tenor) e Marshall Allen (sax alto), que no futuro herdariam a sua Arkestra. Em 1957 lançou o seu primeiro album, “Jazz By Sun Ra”. No mesmo ano Sun Ra e seu amigo e empresário Alton Abraham fundaram sua gravadora independente, a El Saturn Records, inicialmente focado em lançar singles de Sun Ra e de outros artistas que eles conheciam. A maior parte desses singles eram de canções r&b e doo-wop onde Sun Ra e a Arkestra serviam de banda de apoio.

No final dos anos 1950 Sun Ra e seu músicos começaram a usar as suas roupas características de motivos egípcios. Essas roupas trouxeram uma nova identidade ao grupo, pontuando a fascinação do músico com o Egito antigo, alem de trazer um alívio comico. Sun Ra era da opinião que os músicos de vanguarda tipicamente se levavam muito a sério.

A partir de 1961 Sun Ra e seus músicos se mudaram para Nova York onde viviam em uma casa comunitária. Desse modo podiam ensaiar quando e quanto quisessem. Foi nesta época que lançaram o importante album “The Futuristic Sound Of Sun Ra”, produzido por Tom Wilson, que no futuro se tornaria famoso por trabalhar com artistas como o Velvet Underground e Frank Zappa. Esse album foi lançado pelo selo Savoy, gravadora que lançou discos importantes de Miles Davis, Charlie Parker e Dexter Gordon. Nesse disco Sun Ra se concentrou apenas no piano acústico e se tornou um de seus trabalhos mais acessíveis para o público comum.

Os anos 1960

Durante meados dos anos 1960 a reputação da Arkestra atingiu seu auge, agradando a um público novo, fãs da geração beat e tambem dos seguidores do flower power e das bandas psicodélicas. Sun Ra continuou dividindo as opiniões dos críticos. Mas os maiores elogios vieram dos grandes arquitetos do bebop como o trompetista Dizzy Gillespie e o pianista Thelonius Monk.

Infelizmente o custo de morar em Nova York ficou inviável e a Arkestra foi obrigada a se mudar para a Philadelphia em 1968. No final desse ano eles fizeram sua primeira turnê pela costa oeste, casa das maiores bandas de rock psicodélico da época. Os hippies estavam acostumados com as longas improvisações de grupos como o Moby Grape e o Grateful Dead, mas o impacto da Arkestra foi muito maior. Na época o grupo já havia se transformado em uma big band de 20 a 30 pessoas, incluindo dançarinas, cantores, comedores de fogo, alem de shows com efeitos de iluminação inéditos até então. Tudo isso demonstrava que Sun Ra acreditava que a música não era apenas música, era um evento em si, um evento social em vários sentidos, não apenas como entretenimento, mas como uma oportunidade de elevação do espírito e de conscientização e insurgencia política.

Nos anos seguintes lançam uma série enorme de discos de estúdio, muitas vezes quatro em um único ano, alem de muitos ao vivo.

A obra influente de Sun Ra

A influencia da obra de Sun Ra se espalha por artistas de todos os generos, assim como ele fez durante toda a sua vida. Desde o afrofuturismo de Janelle Monáe, Parliament/Funkadelic e Kanye West ao rock psicodélico do Hawkwind, o funk de Isaak Hayes e o rap de Dr. Octagon. A cantora do Arkestra Verta Mae Grosvenor disse que ela criou o “space walk”, aquele que depois Michael Jackson tornaria famoso com o nome de “moon walk”. Um dos protegidos de Sun Ra era o saxofonista tenor Farrell Sanders, que ele batizou de Pharoah Sanders.

Sun Ra teve um ataque cardíaco em 1990, mas continuou atuando, compondo e liderando a Arkestra. Chegou a abrir shows do Sonic Youth, declarados fãs. Quando estava muito doente delegou a tarefa a seu fiel braço direito, John Gilmore. Gilmore morreu de enfisema em 1995. Daí em diante a tarefa foi para Marshall Allen, que continua à frente da Arkestra, aos 95 anos de idade. Inclusive foi com a liderança de Allen que a Arkestra se apresentou pela primeira vez no Brasil em 2019.

Sun Ra faleceu em um hospital em Birmingham em 30 de maio de 1993 por problemas cardíacos.

Em 1980 foi lançado um documentário, “Sun Ra: A Joyful Noise”, que traz uma apresentação da Arkestra, alem de entrevistas. Veja no YouTube:

Sun Ra: A Joyful Noise

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