“Lenine Morreu”
A morte de Lenin completa hoje 97 anos, de um dos maiores revolucionários e marxistas da história da humanidade. Conheça dois textos de Trótski sobre o caso.
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Trótski analisou a morte de Lênin por duas perspectivas, veja aqui. | Foto: Reprodução
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Trótski analisou a morte de Lênin por duas perspectivas, veja aqui. | Foto: Reprodução

No dia 21 de janeiro de 1924, morria Lênin, um dos maiores revolucionários e marxistas de todos os tempos. Principal liderança do Partido Comunista da União Soviética, tendo sido seu fundador, assim como do primeiro Estado operário da história.

Lênin, morreu pouco tempo após o término de uma brutal guerra civil, enfrentada com bravura pela classe operária soviética contra diversos países imperialistas. Seu falecimento, deu-se após seu terceiro acidente vascular cerebral, que incapacitando-o e posteriormente o colocando em coma.

Em seus dias finais, Lênin se deparou com o início da ascensão de uma burocracia na União Soviética, da qual passou a lutar até o fim de suas energias.

Aqui, disponibilizamos dois textos escritos pelo revolucionário, e um dos principais parceiros de Lênin durante a revolução, Leon Trótski. O primeiro texto foi escrito no dia seguinte a morte de Lênin, e o segundo foi escrito por Trótski já em seu exilo, em uma das mais famosas especulações sobre as causas que levaram a morte de Lênin.

Lenine Morreu

Lenine Morreu. Lenine já não existe. As leis obscuras que regulam o funcionamento da circulação arterial puseram termo a essa existência. A arte da medicina viu-se impotente para operar o milagre que dela se esperava apaixonadamente, que dela exigiam milhões de corações.

Quantos homens haverá entre nós que de boa vontade e sem hesitação teriam dado o sangue até à última gota para reanimar, para regenerar o organismo do grande chefe, de Lenine Ilitch, o único, o inimitável? Mas não havia milagre possível, aí onde a ciência era impotente. E Lenine morreu. Estas palavras caiem sobre a nossa consciência de uma maneira terrível, tal como o rochedo gigante cai no mar. Poderá acreditar-se? Poderá aceitar-se?

A consciência dos trabalhadores do mundo inteiro não vai querer admitir este facto, pois o inimigo dispõe ainda de uma força considerável; o caminho a percorrer é longo; a grande tarefa, a maior que jamais foi empreendida na História, não está terminada; pois Lenine é necessário à classe operária mundial, indispensável como talvez jamais alguém o tenha sido na história da humanidade.

O segundo ataque da sua doença, muito mais grave do que o primeiro, durou mais de dez meses. O sistema arterial, segundo a amarga expressão dos médicos, não cessou de “brincar” durante todo esse tempo. Terrível brincadeira em que se jogava a vida de Ilitch. Podíamos esperar uma melhoria e quase que uma cura absoluta, mas também podiamos esperar uma catástrofe. Estávamos todos à espera da convalescença, foi a catástrofe que se produziu. O regulador cerebral da respiração recusou-se a funcionar e apagou o órgão do genial pensamento.

Perdemos Ilitch. O Partido está órfão, a classe operária está órfã. É, acima de tudo, o sentimento que temos ao ouvir a notícia da morte do mestre, do chefe.

Como iremos prosseguir? Encontraremos o caminho? Não iremos perder-nos? Porque Lenine, camaradas, já não se encontra entre nós…

Lenine já não existe, mas temos o leninismo. O que havia de imortal em Lenine – os seus ensinamentos, o seu trabalho, os seus métodos, o seu exemplo – vive em nós, neste Partido que criou, neste primeiro Estado operário à cabeça do qual se encontrou e que ele dirigiu.

Neste momento, os nossos corações estão invadidos por esta dor tão profunda, porque todos nós fomos contemporâneos de Lenine, trabalhámos a seu lado, estudámos na sua escola. O nosso Partido é o leninismo em acção; o nosso Partido é o chefe colectivo dos trabalhadores. Em cada um de nós vive uma parcela de Lenine, o que constitui o melhor de cada um de nós.

Como avançaremos a partir de agora? Com o facho do leninismo na mão. Encontraremos o caminho? Sim, através do pensamento colectivo, da vontade colectiva do Partido, encontrá-lo-emos!

E amanhã, e depois de amanhã, daqui a oito dias, daqui a um mês, interrogar-nos-emos ainda: será possível que Lenine já não exista? Durante longo tempo esta morte parecer-nos-á um capricho da natureza, inverosímil, impossível, monstruoso.

Que este sofrimento cruel que sentimos, que cada um de nós sente no coração ao lembrar-se que Lenine já não existe, seja para nós um aviso diário: lembremo-nos que a nossa responsabilidade é agora muito maior. Sejamos dignos do chefe que nos instruiu!

No sofrimento e no luto, cerremos fileiras, aproximemos os nossos corações, agrupemo-nos mais estreitamente para as novas batalhas!

Camaradas, irmãos, Lenine já não está entre nós. Adeus Ilitch! Adeus, chefe!…

Estação de Tiflis, 22 de Janeiro de 1924.

Stalin Matou Lenin?

Por Leon Trotski

Durante os dez anos do meu presente exílio, os agentes literários do Kremlin têm sistematicamente aliviado a si mesmos da necessidade de responder de forma pertinente tudo que eu escrevo sobre a União Soviética aludindo ao meu “ódio” por Stalin –mesmo que Stalin e eu estejamos separados por acontecimentos tão ardentes que consumiram em chamas e reduziram a cinzas qualquer coisa pessoal. Stalin é meu inimigo. Mas Hitler também é, assim como Mussolini e muitos outros. Hoje permanece em mim tão pouco sentimento por Stalin quanto pelo general Franco ou o Mikado (imperador japonês).

Apresento neste artigo fatos chocantes sobre como um revolucionário provinciano se tornou o ditador de um grande país. Cada fato que menciono, cada referência e citação pode ser provada tanto por publicações oficiais soviéticas quanto por documentos preservados em meus arquivos.

O ultimo período da vida de Lenin foi de intenso conflito com Stalin, que culminou em uma total ruptura entre eles. Como sempre, não havia nada pessoal na hostilidade de Lenin em relação a Stalin. Mas, à medida que o tempo passava, Stalin foi tirando vantagem das oportunidades que seu posto lhe dava para vingar-se de seus oponentes. Pouco a pouco, Lenin foi se convencendo de que algumas características de Stalin eram hostis ao partido. Daí partiu sua decisão de reduzir Stalin a um membro ordinário do Comitê Central.

A saúde de Lenin ficou ruim de uma hora para outra no final de 1921. O primeiro derrame aconteceu em maio de 1922. Por dois meses ele ficou impossibilitado de se mover, falar ou escrever. Em julho, ele começou lentamente a convalescer. Em outubro, retornou do campo para o Kremlin e retomou seu trabalho. Em dezembro, ele abriu fogo contra as perseguições de Stalin. Confrontou Stalin na questão do monopólio do comércio exterior e começou a preparar, para o próximo congresso do partido, uma declaração que seria “uma bomba contra Stalin”.

“Vamos falar francamente”, escreveu Lenin em 2 de março. “O Comissariado de Inspeção não goza hoje da menor autoridade… Não há pior instituição entre nós que o Comissariado do Povo para a Inspeção”. Stalin era o chefe da Inspeção. Ele entendeu bem as implicações de tais palavras.

Em meados de dezembro de 1922, a saúde de Lenin o obrigou a se ausentar do congresso. Stalin, por sua vez, ocultou de Lenin muita informação. Medidas de bloqueio foram instituídas contra pessoas próximas a Lenin. Lenin estava inflamado com alarme e indignação. Sua principal fonte de preocupação era Stalin, cujo comportamento se tornava mais ousado à medida que os relatórios médicos de Lenin ficavam menos favoráveis. Nestes dias, Stalin estava taciturno, rosnando, seu cachimbo firmemente preso entre os dentes, um brilho sinistro nos olhos amarelados. Seu destino estava em jogo.

Várias linhas ditadas por Lenin em 5 de março de 1923, para um estenógrafo de confiança, anunciava secamente o rompimento de “qualquer relação pessoal e de camaradagem com Stalin”. A nota é o último documento de Lenin em vida. Na noite seguinte ele perdeu de novo o poder da fala.

O chamado “testamento” de Lenin foi escrito em duas instâncias durante sua segunda enfermidade: em 25 de dezembro de 1922 e em 4 de janeiro de 1923. “Stalin, desde que se tornou secretário-geral”, declara o testamento, “tem concentrado um enorme poder em suas mãos, e eu não estou seguro de que ele sempre sabe como utilizar este poder com a prudência necessária”. Dez dias depois, Lenin acrescentou: “Proponho aos camaradas que achem uma maneira de destituir Stalin e substituí-lo por outro homem”, que seria “mais leal, menos caprichoso” etc.

Quando Stalin leu o texto, disparou palavras furiosas contra Lenin. O testamento não só falhou em acabar com a briga interna, que era o que Lenin desejava, mas ampliou-a em um nível febril. Stalin já não tinha dúvidas de que o retorno de Lenin à ativa seria sua morte política. Somente a morte de Lenin poderia limpar o caminho para ele.

Acompanhei o decorrer da segunda enfermidade de Lenin dia a dia, através do médico que tínhamos em comum, Dr. Gaitier.

“É possível, Fedor Alexandrovich, que seja o fim?”, minha esposa e eu lhe perguntamos várias vezes.

“Não se pode dizer isso de maneira alguma. Vladimir Ilyich vai ficar em pé novamente. Ele tem um organismo forte.”

“E suas faculdades mentais?”

“Basicamente permanecerão intactas. Não tudo, talvez, irá manter sua pureza inicial, mas o virtuoso permanecerá virtuoso.”

No entanto, em um encontro entre os membros do Politburo, Zinoviev, Kamenev e eu, Stalin nos informou, após a saída do secretário, que Lenin tinha subitamente o chamado e pedido por veneno. Lenin estava perdendo novamente a faculdade da fala, considerava sua situação incurável, temia sofrer um novo derrame e não acreditava nos médicos. Sua mente estava perfeitamente clara e o sofrimento era insuportável.

Lembro o quão extraordinário, enigmática e em desacordo com as circunstâncias me pareceu o rosto de Stalin então. Um sorriso doentio estava fixo em sua face, como uma mascara. Vejo diante de mim um pálido e silencioso Kamenev, que amava Lenin sinceramente, e um Zinoviev perplexo, como em todos os momentos difíceis. Eles sabiam sobre o pedido de Lenin? Ou Stalin soltou isso como uma surpresa a seus aliados no triunvirato assim como para mim?

“Mas é claro que nós não podemos nem sequer considerar este pedido!”, exclamei. “Gaitier não perdeu a esperança. Lenin ainda pode se recuperar.”

“Eu falei tudo isso a ele”, Stalin respondeu, não sem um sinal de irritação. “Mas ele não ouviria a razão. O velho está sofrendo. Ele disse que quer ter o veneno à mão. Ele o usará quando estiver convencido de que sua condição é irremediável.”

“O velho está sofrendo”, Stalin repetiu, olhando vagamente para nós. Nenhum voto foi tomado, já que não era um encontro formal, mas nos despedimos com o entendimento implícito de que não poderíamos nem sequer considerar enviar veneno a Lenin.

“De qualquer maneira é fora de questão”, insisti. “Ele poderia sucumbir diante a um estado de espírito passageiro e tomar uma decisão sem volta.”

Apenas poucos dias antes, Lenin havia escrito seu posfácio impiedoso ao testamento. Alguns dias depois ele rompeu todas as relações pessoais com Stalin. Por que faria a Stalin, entre tanta gente, este pedido trágico? A resposta é simples: ele viu em Stalin o único homem que poderia fazê-lo, já que estava diretamente interessado nisso. Ao mesmo tempo, é possível que quisesse testar Stalin: quão afoitamente Stalin aproveitaria esta oportunidade? Naqueles dias, Lenin pensava não somente na morte, mas no destino do partido.

Mas Lenin realmente pediu veneno a Stalin? Ou a versão foi totalmente inventada por Stalin para preparar seu álibi? Ele não teria razões para temer uma verificação, porque ninguém poderia questionar o enfermo Lenin.

Mais de dez anos antes dos infames julgamentos de Moscou, Stalin confessou a Kamenev e Dzerjinski, seus aliados então, que um de seus maiores prazeres na vida era manter um olho afiado sobre um inimigo, preparar tudo meticulosamente, vingar-se sem piedade, e depois ir dormir.

Durante seu último grande julgamento, que teve lugar em março de 1938, um lugar especial no banco dos réus era ocupado por Henry Yagoda. Algum segredo unia Stalin a Yagoda, que tinha trabalhado na Cheka e na GPU (polícia secreta) por 16 anos, primeiro como chefe-assistente, depois como diretor, e todo o tempo como o assessor de maior confiança de Stalin contra a oposição. O sistema de confissões de crimes que nunca tinham sido cometidos eram obra de Yagoda. Em 1933, Stalin condecorou Yagoda com a Ordem de Lenin, e em 1935 o promoveu ao cargo de Comissário Geral de Defesa do Estado –isto é, Marechal da Polícia Política. Na pessoa de Yagoda foi elevada uma nulidade, olhada com desprezo por todos. Os velhos revolucionários trocaram olhares de indignação.

Nos tempos da grande “purga”, Stalin decidiu liquidar seu companheiro que sabia demais. Em abril de 1937, Yagoda foi preso e em seguida executado.

Foi revelado naquele julgamento que Yagoda, um ex-farmacêutico, possuía um armário próprio para venenos, do qual retirava frascos para dar a seus agentes. Tinha à sua disposição vários toxicologistas, para quem ele organizou um laboratório especial, dotando-o de todos os meios, sem limite e sem controle. Naturalmente, é impensável que Yagoda tenha feito tudo isso para suas próprias necessidades.

Suspeitas de que Stalin de alguma maneira ajudou a destrutiva força da natureza no caso de Máximo Gorki pipocaram imediatamente após a morte do grande escritor. O julgamento de Yagoda também serviu para livrar Stalin de qualquer suspeita. Por isso as repetidas declarações de Yagoda, dos médicos e de outros acusados de que Gorki era “um amigo próximo de Stalin”, “uma pessoa confiável”, um “stalinista” entusiástico. Se só a metade disso fosse verdade, Yagoda não teria tomado para si a tarefa de matar Gorki, e muito menos confiado a trama a um médico do Kremlin, que poderia tê-lo destruído simplesmente telefonando a Stalin.

Durante os dias do julgamento, as acusações, como as confissões, me pareceram fantasmagóricas. Informação subseqüente e análises me forçaram a alterar aquela percepção. Nem tudo ali era uma mentira. Nem todos os envenenadores estavam sentados no banco dos réus. O chefe deles estava conduzindo o julgamento pelo telefone. Somente Yagoda tinha desaparecido; seu armário de venenos permaneceu.

No julgamento de 1938, Stalin acusou Bukharin de ter preparado, em 1918, um atentado contra a vida de Lenin. O naïf e apaixonado Bukharin venerava Lenin, o adorava, não podia ter ambições pessoais. Todas as acusações dos julgamentos de Moscou tinham um mesmo padrão. Stalin via a melhor maneira de dissipar suspeitas contra ele mesmo atribuindo o crime a seu adversário e forçando-o a “confessar”.

Lenin pediu o veneno –se é que o fez– no final de fevereiro de 1923. No começo de março, ele estava de novo paralisado. Mas seu organismo poderoso, apoiado em sua vontade inflexível, reafirmou-se. Ao longo do inverno ele começou a se recuperar lentamente, a se mover mais livremente; ouvia leituras e lia ele mesmo; sua faculdade de fala começou a voltar. As opiniões dos médicos se tornaram cada vez mais esperançosas.

Stalin estava em busca do poder, de todo o poder, não importa como. Ele já tinha um firme controle sobre isso. Seu objetivo estava próximo, mas o perigo emanando de Lenin continuava ali. Ao seu lado estava o farmacêutico Yagoda.

A notícia da morte de Lenin me pegou e a minha esposa no caminho para o Cáucaso, para onde eu tinha ido me curar de uma infecção cuja natureza permanece uma incógnita para meus médicos. Imediatamente telegrafei para o Kremlin: “Acho necessário voltar a Moscou. Quando é o funeral?” A resposta veio depois de mais ou menos uma hora: “O funeral será no sábado. Você não conseguirá voltar a tempo. O Politburo considera que por causa do seu estado de saúde você deve seguir para Sukhum. Stalin”. Por que a pressa? Por que precisamente sábado? Mas eu não achei que deveria pedir o adiamento do funeral apenas por minha causa. Somente quando cheguei a Sukhum soube que tinham mudado para domingo.

Era mais seguro sob todos os aspectos me manter afastado até que o corpo tivesse sido embalsamado e as vísceras cremadas.

Quando perguntei aos médicos em Moscou sobre a causa mortis de Lenin, que eles não esperavam, ficaram perdidos em responder. A autópsia foi feita com todos os ritos necessários: Stalin pessoalmente tomou conta de tudo. Mas os cirurgiões não procuraram por veneno. Eles entenderam que a política está acima da medicina.

Não retomei as relações pessoais com Zinoviev e Kamenev até dois anos depois, quando eles romperam com Stalin. Eles evitaram qualquer discussão sobre a morte de Lenin. Só Bukharin fez, aqui e ali, tête-à-tête, alusões inesperadas e estranhas. “Oh, você não conhece Koba (Stalin)”, disse com seu sorriso trêmulo. “Koba é capaz de qualquer coisa.”

Quando o telhado desaba e as portas e janelas caem, fica difícil viver numa casa. Hoje, rajadas de vento sopram ao redor de nosso planeta inteiro. Todos os tradicionais princípios de moralidade estão cada vez piores, e não apenas aqueles que emanam de Stalin. Mas uma explicação histórica não é uma justificativa. Nero também foi um produto de sua época. Após sua queda, porém, suas estátuas foram derrubadas e seu nome varrido de tudo. A vingança da história é mais terrível que a vingança do mais poderoso secretário-geral.

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