Retrospectiva
A implementação parcial do programa reacionário do bolsonarismo se deu não por alguma força do governo, mas pela incapacidade das direções da esquerda em organizar os trabalhadores
Brazil's President Jair Bolsonaro gestures during a review and modernization ceremony of occupational health and safety work at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil July 30, 2019. REUTERS/Adriano Machado
Presidente golpista, Bolsonaro teve um 1º de crise quase terminal: Adriano Machado/Reuters |

Retrospectiva 2019

Eleito pela fraude eleitoral, baseada na condenação, prisão e cassação fraudulentas de Lula. Não houve um único dia em 2019 que o governo Bolsonaro não tenha atacado duramente a população. Repressão, assassinatos pela polícia, agressão contra determinados grupos (imigrantes, população lgbt, negros, etc), ataque às organizações sindicais, estudantis, populares e a esquerda em geral.

Dentro da máquina estatal, as forças da extrema-direita se sentiram a vontade, ocuparam um grande espaço no regime político e promoveram milhares de ataques contra o povo. Impulsionada pelo bolsonarismo, orientação golpista mais agressiva que o governo golpista de Temer, a extrema direita se viu incentivada a aumentar seus ataques às organizações de esquerda. Invasão de assentamentos e de ocupações dos movimentos de luta pela terra e pela moradia. Pacote anticrime aumentando brutalmente o poder do aparato de repressão da burguesia. Indulto de natal para policiais assassinos, uma carta branca para que a polícia se sinta a vontade em matar as pessoas na rua. Do imenso roubo na reforma da previdência, passando pelo pacote anticrime e indo até as privatizações, o resultado foi a derrota da esquerda sob a política da “resistência”.

Golpe em crise

Com um programa de terra arrasada e pilhagem do patrimônio nacional e dos direitos do povo brasileiro, o governo enfrentou uma enorme resposta nas ruas no primeiro semestre. O regime chegou a ser colocado em xeque, quando a mobilização escalou e chegou a ter mais de 1 milhão de pessoas nas ruas em todo o país contra o governo Bolsonaro. Neste momento, a greve da Educação chamada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) agrupou estudantes, professores, trabalhadores de várias categorias e setores que até então não tinham aparecido na luta contra o golpe de Estado. O movimento se tornou uma mobilização de massa pelo fora Bolsonaro, à revelia das direções da esquerda.

Como revelou mais tarde o ministro capacho dos militares, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. Foi necessário, naquele momento de pico da tensão social, um pacto entre os (golpistas) 3 poderes, incluso aí as forças armadas, para a manutenção de Bolsonaro no poder. O risco de que o governo fosse derrubado pela mobilização popular e a burguesia ficasse numa situação ainda mais difícil era iminente, secundo as declarações do próprio ministro e do presidente da Câmara, o golpista Rodrigo Maia (DEM).

Capitulação da esquerda

Neste auge do acirramento da luta de classes as direções da esquerda demonstraram um enorme medo das suas próprias bases. Sem qualquer perspectiva de se desvencilharem de uma política focada em mobilizações de baixa intensidade e lobby parlamentar, essas direções da esquerda passaram a uma política de contenção da mobilização. Entrou em cena a política da “resistência” contra o governo Bolsonaro, que significava fazer críticas para desgastar o governo e os golpistas para as próximas eleições. Partidos sem programa e sindicatos sem boletins, para omitirem da população o que pensam, destacaram-se como verdadeiros freios de mão às mobilizações de rua. Essas lideranças fizeram o que puderam para não levantar a palavra de ordem de fora Bolsonaro. Para justificar essa capitulação gigantesca, passaram a propagar a ideia de que o povo teria escolhido propositalmente o pior candidato (Bolsonaro) por ter más intenções.

Daí essas direções tiraram a ideia de que não se poderia combater o governo Bolsonaro porque o povo que seria o verdadeiro culpado pela eleição do fascista. Um absurdo sem tamanho, uma vez que fez a esquerda acobertar todo o golpe de Estado e os crimes que a burguesia cometeu contra os trabalhadores neste processo. Fez inclusive a esquerda se colocar contra os 2 únicos atos expressivos que ocorreram no segundo semestre: o ato nacional de 14 de setembro pela liberdade de Lula e anulação da Lava Jato; e o ato nacional de 27 de outubro, dos 74 anos de Lula; ambos em Curitiba.

Com todo esse confusionismo, no entanto, Bolsonaro teve apenas 37% dos votos do eleitorado brasileiro (147 milhões de eleitores aproximadamente), mesmo sendo apoiado por todos os partidos burgueses e o bloco golpista! Incluindo o PDT do abutre Ciro Gomes. Este por si só é um dado concreto que destrói a tese da esquerda de que o povo teria apoiado Bolsonaro.

Ano de derrotas

Foi assim que a esquerda conseguiu conter os trabalhadores e permitir que, mesmo em crise, o governo tivesse sucesso num sem número de ataques contra o povo. Dando a ideia de que os ataques são uma fatalidade da qual só podemos “resistir”, fazendo demagogia eleitoral e parlamentar e esperando dias melhores. Portanto, se em 2019 o bolsonarismo conseguiu a implementação de parte do seu programa reacionário, foi mais por incapacidade das direções da esquerda em organizar os trabalhadores para tomar as ruas contra o regime, do que da direita em conter a tendência à mobilização.

Contudo, as condições objetivas, de deterioração da situação econômica e política, apesar da vacilação das direções, fará os trabalhadores, cedo ou tarde, a se enfrentarem frontalmente contra o governo golpista de Bolsonaro em 2020. Sob este aspecto, baseado nas reivindicações dos trabalhadores, é que a esquerda contra o golpe deve atuar.

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