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Se estivesse vivo, o cantor e compositor português José Afonso completaria hoje 90 anos de idade. Zeca Afonso – como era conhecido desde a infância – certamente foi o músico mais ativo politicamente na luta contra a ditadura fascista de Salazar. Não apenas nos versos de suas canções, mas também por sua atuação militante no apoio constante a atos políticos e às organizações populares que se levantaram na Revolução dos Cravos em Portugal em 25 de abril de 1974 pondo fim ao chamado Estado Novo, vigente desde 1933 – regime irmão de outras ditaduras fascistas como a de Franco na Espanha, a de Mussolini na Itália ou a de Hitler na Alemanha.

Azulejos em homenagem ao músico na casa onde morou em Coimbra.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu em Aveiro, Portugal, mudando-se aos quatro anos para Angola – ainda colônia portuguesa – e em seguida a Moçambique, retornando a Portugal em 1938, passando a viver em Coimbra a partir de 1940.
Na tradicional cidade universitária do mundo luso, integra-se ainda como “bicho” (estudante do Liceu) nas serenatas e na vida boêmia acompanhada dos fados tradicionais de Coimbra. Completa o Liceu em 1948, casando-se com Maria Amália de Oliveira – então uma costureira de origem humilde –, com quem teria dois filhos em 1953 e 1954. Ingressa no curso de Ciências Histórico-Filsóficas da Faculdade de Letras passando a excursionar com o Orfeão Académico da Universidade de Coimbra – incluindo novas passagens por Angola e Moçambique. Assoberbado pelo serviço militar obrigatório, a manutenção da família e sua carreira musical, Zeca Afonso só concluiria o curso de Coimbra em 1963, ano em que também se divorciaria, com a tese Implicações substancialistas na filosofia sartriana.

Seus dois primeiros discos, com Fados de Coimbra, haviam sido editados em 78 rotações já em 1953. O primeiro EP, dedicado ao mesmo gênero, seria lançado em 1956. Nos anos seguintes, passaria a alternar a atividade de professor à de músico, excursionando na França, Suíça, Alemanha e Suécia com outros notáveis músicos portugueses como a fadista lisboeta Esmeralda Amoedo.

Em 1962, participou da retomada do movimento estudantil a partir de uma crise provocada pela proibição do Dia do Estudante. Em 1964, atuaria na em Grândola, Distrito de Setúbal, na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. Mesmo tendo editado um EP e um LP em 1964, muda-se para Lourenço Marques, Moçambique, onde residiria até 1967 com seus filhos e a nova esposa, Zélia, chegando a musicar uma peça de Bertold Brecht. Retornando a Portugal, tem uma grave crise de saúde e é cassado de seu cargo docente pela ditadura.

Zeca Afonso intensifica significativamente sua militância política, passando a viver de palestras e concertos, militando junto ao movimento sindical e estudantil, integra-se informalmente à Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR), mantendo contatos ainda com o Partido Comunista Português, chegando a ser preso pela repressão em 1973. Em Paris, participa do I Econtro da Chanson Portugaise de Combat em 1969. Passa a lançar mais discos sempre premiados e com crescente popularidade. Frequentemente seus concertos eram proibidos pela polícia.

Monumento a Zeca Afonso em Grândola.

No disco Cantigas de maio, lançado em 1971, grava a canção Grândola, Vila Morena, homenagem à Fraternidade Operária Grandolense. Em 29 de março de 1974, diversos músicos de esquerda fariam um show no Coliseu de Lisboa, concluído com essa canção, executada por todos no palco acompanhados pela multidão, que cantava “o povo é que mais ordena, dentro de ti, ó cidade”. Militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) escolheriam-na como senha para a revolução que capitaneariam um mês depois, derrubando o regime salazarista.

Zeca envolveu-se então mais diretamente no Processo Revolucionário em Curso (Prec), que conduziu o processo político após o 25 de abril “rumo ao socialismo” até a promulgação da Constituição Portuguesa em abril de 1976. Mantém sua colaboração com o LUAR, que chega a editar o single Viva o Poder Popular. Na Itália lança o disco República, editado pelas organizações revolucionárias Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria, gravado em Roma, que se inicia com a canção Para não dizer que não falei de flores de Geraldo Vandré – destinado a recolher fundos para organizações de trabalhadores. Em 1976, apoiaria a candidatura à Presidência de Otelo Saraiva de Carvalho, um dos líderes da Revolução dos Cravos.

Zeca iniciaria sua chamada Fase Cronista, lançando o álbum Com as minhas Tamanquinhas em 1976 e Enquanto há força em 1978, fortemente politizado, anticolonial e anti-imperialista. Trabalha ainda musicando peças de teatro, reunidas no LP Fura Fura, de 1979. Em 1979, retornaria a suas origens lançando Fados de Coimbra e outras canções em 1981, a que se seguiria um disco ao vivo em 1983, ano em que lançaria ainda o disco Como se fora seu filho, considerado seu “testamento político”. No ano anterior, Zeca passara a sofrer os sintomas de uma esclerose lateral amiotrófica, de que terminaria por falecer em 1987, após um período de relativo isolamento em Vila Nogueira de Azeitão, nas imediações de Setúbal, de onde ainda conseguiria lançar o disco Galinhas do mato em 1985.

No dia de hoje, 2 de agosto de 2019, aniversário do músico, a Associação José Afonso entregará ao Ministério da Cultura português uma petição com mais de 11 mil assinaturas demandando o tombamento de sua obra como patrimônio cultural nacional. Zeca Afonso foi seguramente o maior cantor da música de intervenção como os portugueses chamam a música de protesto, reforçando o ramo português de um riquíssimo movimento cultural ibero-americano de importantíssimo papel na luta contra as ditaduras promovidas pelo Imperialismo, legando-nos a obra de uma Mercedes Sosa, um Victor Jara ou um Chico Buarque.



Assista Maior que o pensamento série documental da RTP sobre José Afonso em três partes

Título Original: Maior que o Pensamento (Zeca Afonso)
Realização: Joaquim Vieira
Produção: Nanook
Autoria: Joaquim Vieira
Ano: 2011
Postado no canal de Mário Lima.

https://www.youtube.com/watch?v=RjbQgfrOe0g

Este primeiro episódio aborda as raízes de José Afonso, nascido em Aveiro em 1929, a sua infância em África com os pais e os irmãos, os seus estudos secundários em Coimbra, enquanto os pais estavam detidos pelas tropas japonesas que ocuparam Timor-Leste durante a II Guerra Mundial, o início da sua carreira artística como intérprete de fados de Coimbra, ao mesmo tempo que ingressava na universidade desta cidade, a sua experiência como professor do ensino secundário, a evolução do seu estilo musical para a balada e a criação das duas canções consideradas pioneiras do movimento da música de intervenção em Portugal: “Os vampiros” e “Menino do bairro negro”.

https://www.youtube.com/watch?v=g67YbzWRQOc

Este segundo episódio foca a estada de José Afonso em Moçambique como professor, a sua mudança para Setúbal, onde é expulso do ensino oficial, passando a dedicar mais tempo à música, a edição dos seus discos mais marcantes, entre eles “Cantigas do Maio” (que contém “Grândola, vila morena”), a participação em sessões de animação musical um pouco por todo o país, a ligação a Espanha (e em particular à Galiza), o seu encarceramento pela PIDE na prisão de Caxias e a escolha de “Grândola…” como senha radiofónica do 25 de Abril.

https://www.youtube.com/watch?v=4tsYEsDRfHg

Este último episódio retrata o percurso do artista no Portugal democrático que emerge da revolução de 25 de Abril, a influência da nova situação na sua obra, o seu envolvimento na acção política e os seus compromissos ideológicos, o seu método criativo, a sua concepção do espectáculo musical e por fim o aparecimento da doença que leva à sua morte prematura, em 1987, evocando-se, através de quem esteve presente, o seu emotivo concerto de despedida, quatro anos antes, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

 

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