Hoje atacado por identitários
O Padre Vieira foi, em relação à sua época, uma figura progressista, defensora dos direitos dos povos indígenas e dos judeus, o que o tornou alvo da Inquisição da Igreja Católica
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estatua padre vieira - foto paulo lourenço jn
Estátua do Padre Vieira em Lisboa que recebeu banho de tinta. | Paulo Lourenço/JN

Na semana passada a vida do Padre António Vieira voltou a ser discutida em todo o mundo. A estátua de Vieira, localizada bem no centro de Lisboa, foi atacada, recebendo um banho de tinta vermelha e teve a palavra “descoloniza” escrita na sua base. Com isso a figura do Padre António Vieira se viu no centro de uma discussão que incluiu a reputação de outras figuras históricas como Cristovão Colombo, o rei belga Leopoldo 2º e o traficante de escravos Edward Colston, entre outros.

O que teria causado a ira dos manifestantes a ponto de atacar a estátua do Padre Vieira é que ele teria sido relativamente condescendente com a situação do trabalho forçado dos escravos africanos, a despeito de sua defesa dos direitos dos indígenas no Brasil.

Segundo Laurentino Gomes em um trecho do livro “Escravidão” de 2019 o padre Vieira “atribuia o comércio de escravos a um grande milagre de Nossa Senhora do Rosário porque, segundo ele, tirados da barbárie e do paganismo na África, os cativos teriam a graça de serem salvos pelo catolicismo no Brasil”. Segundo esse trecho, fica claro que embora haja a defesa da escravidão, sua apreciação se confunde com a ideologia predomimente na época.

A perseguição pela Inquisição

O que esses manifestantes desprezaram foi a verdade histórica de que o Padre António Vieira foi uma figura muito progressista em sua época, com seu veemente combate à escravidão dos povos indígenas e tambem pela sua defesa dos judeus, que na época eram perseguidos pela Inquisição da Igreja Católica. Por causa desta última causa chegou a ser intimado pelo Tribunal da Inquisição, o que ocorreu no dia 21 de junho de 1662. O religioso respondeu a um processo por “delito de heresia”. Sua resposta foi o texto “Resposta aos 25 Capítulos”.

A Inquisição exigiu que ele se retratasse de seus “crimes”, o que Vieira recusava terminantemente. Correu o risco de terminar na fogueira não fosse o empenho da Companhia de Jesus e da intervenção do papa Alexandre VII.

Por causa do processo, Vieira foi proibido de voltar ao Brasil e impedido de pregar. Após um longo processo foi definitivamente condenado em 1664. Como resultado Vieira ficou recluso em um colégio de jesuítas em Coimbra. Em 1667 foi transferido para a Casa do Noviciado dos jesuítas em Lisboa. Finalmente em 30 de junho de 1668 o Padre Vieira recebeu o perdão das penas por causa da mudança na situação política com a destituição de Dom Afonso e a subida ao trono de Portugal de D. Pedro II.

Biografia

António Vieira nasceu em Lisboa em 6 de fevereiro de 1608 e faleceu em Salvador em 18 de julho de 1697. Ele foi um filósofo, escritor, orador e religioso ligado à Companhia de Jesus, da Ordem dos Jesuítas. Padre António Vieira foi um precursor da literatura brasileira e um dos grandes escritores da língua portuguesa, tendo importância no Brasil e em Portugal. Com uma obra que abrange mais de 200 sermões, 700 cartas, além de vários outros escritos como poemas e romances. É considerado o responsável pelo desenvolvimento do movimento literário barroco no Brasil. Ele seguia a tradição clássica, sendo que seus sermões sempre começavam com uma citação da Bíblia, que servia como base para sua tese. Vieira acreditava que uma linguagem rebuscada era um obstáculo para o total entendimento de seus sermões. Por isso procurava transmitir suas idéias de maneira clara e simples.

O grande interesse do Padre Vieira era a catequese dos índios. Para esse fim ele aprendeu várias de suas línguas e percorreu por cinco anos aldeias indígenas da Bahia. Isso o fez defender os índios contra a escravidão, o que levantou a ira dos colonos, que queriam escravizá-los no trabalho da lavoura e minas.

Vieira era chamado de “Paiaçu” (Padre Grande) pelos índios. Em 1653 proferiu seu “Sermão da Primeira Dominga de Quaresma”, em São Luis do Maranhão onde tentou convencer os senhores de engenho a libertarem seus escravos indígenas. Ele sustentou esta luta pelos indigenas por muitos anos atuando em inúmeras localidades do Maranhão e Pará (que na época eram o Estado do Maranhão e Grão-Pará). Em 1680 usou de seu prestígio e influência para conseguir que Dom Pedro II promulgasse uma nova lei que conferia liberdade aos povos nativos e que proibia qualquer tipo de cativeiro.

A polêmica da derrubada das estátuas

Por estes fatos narrados acima fica insustentável qualquer defesa do ataque realizado contra a estátua do Padre António Vieira. Vieira foi uma figura progressista. Seu apoio à escravidão dos negros africanos era uma posição comum da sociedade do século XVII, um fato aceito pelo cidadão comum, por mais abominável que possa ser a escravidão. O erro consiste em julgar os fatos históricos pela regra de hoje e principalmente é resultado de uma análise unilateral da história e seus personagens, portanto, uma interpretação conservadora.

Em suma, Padre Vieira fora atacado pela Inquisição Católica no seu tempo e hoje é atacado pela “inquisição” identitária.

Este evento se encaixa na atual onda de movimentos organizados que pretende derrubar símbolos do passado com vinculações escravagistas e racistas e que começou após o trágico assassinato de George Floyd pelas forças da repressão nos Estados Unidos. O alvo do primeiro ataque foi a estátua de Edward Colston, situada em Bristol, Inglaterra. Coston foi um traficante de escravos do século XVII. Em seguida foi o caso da estátua do rei belga Leopoldo 2º, famoso pelas atrocidades que cometeu na então colonia belga do Congo.

Em Boston o alvo foi a estátua de Cristovão Colombo, que foi decapitada. Outras estátuas do navegador foram vandalizadas nas cidades de Houston, Miami e Richmond. No Brasil pessoas da esquerda ventilaram a idéia de atacar o Monumento às Bandeiras e a estátua de Borba Gato em São Paulo.

O Diário Causa Operária já havia discutido este problema em vários artigos, como este:

Derrubar Monumentos, ação desesperada e uma política identitária

Nestes termos reiteramos que a derrubada de estátuas de figuras do passado é apenas uma tática diversionista, muitas vezes apoiada pela direita, que esconde a luta contra os verdadeiros responsáveis pela opressão. Derrubar estátuas não acabará com o racismo, não mudará a sociedade e não terá efeito prático algum.

A verdadeira luta do povo é contra o governo central do presidente ilegítimo Bolsonaro. Apenas lutando nas ruas contra essa direita e extrema direita é que poderemos resolver o problema do racismo, do preconceito e especialmente da fome. É nisto que os partidos de esquerda, sindicatos e associações tem que colocar o seu foco.

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