15 de agosto de 1954 – começa a ditadura de Stroessner no Paraguai

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Há 65 anos, iniciava-se no Paraguai a ditadura do general Alfredo Stroessner. Apoiada por generais e pelo Imperialismo norte-americano, foi resultado de um dos primeiros golpes de Estado aplicados com essa finalidade na América do Sul do pós-guerra, a que se seguiriam os do Brasil, Chile, Argentina. O regime duraria 35 anos, extinguindo-se pelas mãos da burguesia nacional e seu Partido Colorado que o mantivera no poder. Tão bárbara quanto longeva, a ditadura militar paraguaia perseguiria, prenderia e mataria dezenas de milhares de pessoas.

Enquanto a Europa mergulhava no fascismo e o Brasil na Era Vargas, o Paraguai se veria envolvido Guerra do Chaco entre 1932 e 1935 – disputa territorial pela área central do Cone Sul rica em petróleo que resultaria na morte de 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios. Vencedor no conflito, o Paraguai passaria a lidar com 20 anos de instabilidade do regime político envolvendo a presença constante das Forças Armadas, fortalecidas após a guerra, cuja cúpula era especialmente envolvida com o governo Norte-Americano, e cuja base se politizara especialmente com a experiência de combate.

Já em 1936 a Revolución Febrerista colocaria no poder uma frente ampla liderada por Rafael Franco – incluindo a burguesia nacionalista, socialistas, militares e anarquistas, que cumpriria o típico programa nacionalista burguês da época, destinados não apenas a conter as insurreições decorrentes da crise do capitalismo como também a prover a organização de mão-de-obra necessária para o avanço industrial: reforma administrativa, reestruturação da legislação trabalhista, início da reforma agrária, criação do patrimônio nacional, reestruturação da rede de transportes. Seria derrubada por um golpe do grupo liberal com menos de um ano de existência. Outros diversos golpes se sucederiam, evidenciando as contradições da própria burguesia até a chamada Primavera Democrática de 1946, em que os Febreristas retornariam ao poder por alguns meses inclusive com participação do Partido Comunista Paraguayo. O Partido Colorado, da burguesia, logo retomaria o poder com Higino Moríngio, que fecharia o Congresso Nacional em 1947, incendiando uma breve guerra civil, concluída com a vitória do regime ditatorial.

Os demais partidos seriam extintos, assegurando a hegemonia do Partido Colorado, levando Federico Chaves à presidência em 1949. Persistindo a instabilidade, acentuaram-se as diferenças entre os setores mais nacionalistas, representados pelo próprio presidente, e um grupo ligado ao Imperialismo, liderado pelo presidente do Banco Central, Epifanio Méndez Fleitas, apoiado pelo alto oficialato do exército. Tal conjuntura facilitaria a ascensão política de Alfredo Stroessner Matiauda, de 42 anos, Comandante das Forças Armadas desde 1951. Chaves tentaria em vão equipar a polícia com armamentos pesados para fazer frente à ameaça de golpe militar.

Em 4 de maio de 1954, o quartel da polícia de Assunção seria atacado pelo exército, culminando na morte do chefe de polícia, Roberto Pettit. Em 5 de maio, o presidente tentou ainda substituir o comando do Exército, mas sem qualquer apoio popular ou assistência armada. O resultado seria inverso: Stroessner forçaria a renúncia de Chaves, chamaria eleições para 11 de julho – somente com o Partido Colorado no páreo – das quais o general sairia “eleito” em evidente fraude com 99% dos votos.

Em 15 de agosto, Stroessner assumiria a presidência do Paraguai. A princípio seria uma solução provisória – já que o militar carecia de base política real dentro do próprio Partido Colorado. Não tardou porém para que a burguesia nacional seguisse o comando imperialista representado por Stroessner e se acomodasse em seus cargos, enquanto os representantes de setores não adaptados – como o próprio Chaves – teriam seu exílio decretado.

As cifras da repressão da ditadura militar de Stroessner são astronômicas, dado o tamanho do país. Como foram dizimados grupos inteiros e suas famílias, desapareceram também os próprios registros de sua existência e desaparecimento. Contam-se as mortes em algum ponto indeterminado entre 20 mil e 50 mil pessoas, além de outras dezenas de milhares de perseguidos políticos, presos e torturados. Com as ditaduras da Argentina, do Equador, do Uruguai, do Chile, da Bolívia e do Brasil, o regime paraguaio participou ativamente da Operação Condor, destinada a coordenar em âmbito continental a perseguição e morte de líderes populares. Em 1975, descobriu-se que o próprio Stroessner mantinha presas cerca de 15 meninas de 8 e 9 anos de idade numa casa onde as estuprava.

Com a dissolução da União Soviética – e portanto o fim temporário da “ameaça comunista” que ela representava, o governo de Ronald Reagan retirou o apoio Sroessner, que seria derrubado após uma tentativa de nomear a seu filho Gustavo como seu sucessor.

Reinstalada uma democracia em termos – como no Brasil de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, o ex-ditador seria exilado em 1992, instalando-se em Brasília, onde morreria em julho de 2006. Como no Brasil, a impunidade do ditador parece haver facilitado o golpe de 2012 que destituiria o governo de Fernando Lugo – origem do golpe de 2016 no Brasil.  O povo da América Latina não poder agir com a mesma parcimônia quando da derrubada dos aprendizes de ditadores que estão ascendendo ao poder com os golpes de Estado hoje em curso em todo o continente. Figuras como Jair Bolsonaro, Lenín Moreno, Federico Franco, devem ser duramente punidos quando destituídos, a exemplo do ocorrido com Mussolini na Itália.