Morte do ex-presidente
Tabaré Vázquez morreu no último domingo, sua Frente Ampla levou adiante a política mais acabada de conciliação de classes no continente
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O ex-presidente morreu aos 80 anos | Arquivo
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O ex-presidente morreu aos 80 anos | Arquivo

O ex-presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez morreu aos 80 anos no último domingo, dia 6, de complicações decorrentes de um câncer no pulmão descoberto em 2019.

Vásquez era o líder da Frente Ampla uruguaia, que chegou à presidência da República em 2005, quebrando 175 anos ininterruptos de dominação do bipartidarismo entre o Partido Colorado e o Partido Nacional. A subida da frente ampla à presidência foi expressão da necessidade da burguesia de conter uma tendência à mobilização dos trabalhadores.

A Frente Ampla apresentava uma política bastante acabada de colaboração de classes, que inclusive ganhou a confiança da burguesia uruguaia.

A Frente Ampla uruguaia funciona como uma espécie de partido, mas que na realidade é uma coalizão eleitoral de partidos e organizações sociais.

O primeiro mandato de Tabaré Vázquez foi marcado por políticas bem direitistas, principalmente se comparadas às mesmas moderadas políticas dos governos nacionalistas de esquerda que assumiram quase a totalidade dos países latino-americanos.

Em entrevista ao portal Diário Liberdade, em 2015, quando da eleição para o segundo mandato de Vázquez, o comentarista da Causa Operária TV, o jornalista uruguaio Juan Carlos Vecino, afirmava que

“Ele [Tabaré Vázquez] pode aprofundar o assistencialismo, mas também, sem dúvidas, vai aprofundar a terra nas mãos de estrangeiros, as contaminações ambientais produzidas pelas multinacionais da soja, da celulose, da mineração, dos cultivos transgênicos. E, como foi feito no seu governo anterior, terá ralações carnais com os Estados Unidos (ele convidou o criminoso George W. Bush a comer um churrasco na chácara presidencial em 2007, quando Bush mandava matar inocentes no Iraque) e aprofundará a dependência com o FMI que, com certeza, acarretará em mais e mais pobreza para o sofrido povo uruguaio.”

E foi exatamente o que aconteceu. Fica claro que os três mandatos da Frente Ampla no Uruguai (dois de Vázquez e um de Pepe Mujica) representaram um aprofundamento não apenas da política de colaboração, mas de uma política direitista de colaboração de classes. Diferente do que apresentaram os demais governos nacionalistas que, embora também tenham uma política de conciliação, acabaram se conflitando com o imperialismo.

A própria constituição política e social da Frente Ampla permitia que o governo colocasse em prática uma política privatista e estreitando laços com o imperialismo. Seu sucessor, Pepe Mujica, também da Frente Ampla, aprofundou essa política de colaboração.

Com a Frente Ampla, o Uruguai se tornou uma espécie de porta-voz do imperialismo entre os governos nacionalistas da América Latina. Inclusive com ataques contra o governo venezuelano, fazendo coro com a direita golpista do continente que agredia o país bolivariano.

Por exemplo, o atual secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro, era membro da Frente Ampla e foi ministro das Relações Exteriores de Mujica. À frente da OEA, Almagro encabeça a maior campanha golpista de desestabilização da Venezuela que já se viu, sendo o principal instrumento diplomático do imperialismo contra o governo de Nicolás Maduro, o qual acusa de “ditador”. Da mesma forma, Almagro vem tramando há anos para derrubar o governo nacionalista da Nicarágua e o estado operário cubano, bem como foi fundamental no golpe do ano passado na Bolívia.

Devido a essa posição política da Frente Ampla, Mujica ganhou certa promoção do próprio imperialismo como um representante esquerdista no continente, o que na realidade servia como um instrumento do imperialismo que em determinado momento passou a levar adiante a política golpista no continente.

Diante dessa promoção, Mujica e a Frente Ampla ganharam certa notabilidade entre a esquerda pequeno-burguesa, se tornando exemplos de esquerdismo. Nada mais era do que propaganda imperialista, já que a Frente Ampla representava a ala mais direitista de todos os governos nacionalistas e por isso se tornou de confiança da burguesia.

Mujica se aposentou recentemente e agora com a morte de Tabaré Vázquez fica a dúvida do que será a Frente Ampla, que sofreu uma derrota nas últimas eleições para o elemento do Partido Nacional, que contou com o apoio da extrema-direita, Luis Lacalle Pou.

A política de conciliação com a burguesia levou à derrota da Frente Ampla. A política do imperialismo já não era mais a da conciliação, mas a do golpe. Os elementos da Frente Ampla não foram capazes de enfrentar a direita golpista.

A derrota no Uruguai serve de lição inclusive para a esquerda brasileira que procura imitar a Frente Ampla uruguaia. Há uma diferença, no entanto. O caso uruguaio constitui uma frente entre partidos e organizações de esquerda, que visa por meio da colaboração de classes, galgar resultados eleitorais. O caso brasileiro já nasce como um frente entre setores da direita nacional e da esquerda cuja função é colocar esta a reboque da direita.

A frente ampla brasileira, em certo sentido, é já a fase mais direitista da Frente Ampla uruguaia, quando esta, no governo levou adiante de maneira mais acabada a política de conciliação de classes. Já no caso brasileiro, a frente ampla já nasce como um frente com a direita nacional.

O legado de Tabaré Vázquez e de sua Frente Ampla, por maior que seja a propaganda esquerdista, foi o da conciliação de classes. Uma Frente que na realidade funciona como um grande partido, que é a síntese do que quer fazer a esquerda brasileira da frente ampla: colocar a esquerda a reboque da direita para dar sustentação ao regime político burguês e no caso do Brasil, mais especificamente, ao regime político do golpe de Estado.

O destino da política da frente ampla tanto no Uruguai como no Brasil vai depender do desenvolvimento da luta de classes no continente. Como será a política do imperialismo e como será a política adotada pela frente ampla diante da evolução do golpe.

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