Crise no Acre
Alguns desastres são previsíveis e inevitáveis. Existem os naturais, os econômicos e os sociais. No Acre que se vive são todos estes neste momento porém todos evitáveis.
Mulher leva água potável à criança em bairro alagado no Acre.
Mulher leva água potável para criança em bairro alagado em cidade no Acre | Foto: reprodução
Mulher leva água potável à criança em bairro alagado no Acre.
Mulher leva água potável para criança em bairro alagado em cidade no Acre | Foto: reprodução

O estado do Acre, localizado no extremo oeste da região amazônica se encontra em estado de calamidade. Com uma população estimada em 894.470 pessoas, segundo o IBGE, a estimativa é que 130 mil delas estejam neste momento atingidas pelas cheias dos rios da região, ou seja, 14,53% da população do estado.

Dos 22 municípios existentes, 10 estão alagados, sendo as situações mais alarmantes  as de Cruzeiro do Sul com 38.048 mil pessoas atingidas, o que representa quase 43% da população,Tarauacá com 90% de seu território submerso, desabrigando 28 mil pessoas, Sena Madureira com 17.376 e Rio Branco com 25 mil pessoas. Alguns municípios já se encontram isolados, com as rodovias submersas e já se espera o fechamento da BR 364 no trecho que liga o Acre ao restante do país.

As enchentes são sazonais na Amazônia devido ao intenso período chuvoso característico do inverno amazônico. O transbordamento dos principais rios e afluentes é algo esperado a cada ano. O agravante do momento e que se soma aos problemas crônicos das cidades da região, é a epidemia de Coronavírus e Dengue que também atingem o estado . Segundo informações 80% dos atendimentos em unidades de saúde são de doentes por Dengue.

O governo estadual decretou estado de emergência antes mesmo da chamada “alagação” pela população local [, colocando o estado em faixa vermelha para risco de Coronavírus com restrição de circulação de pessoas. Com variações de ocupação de leitos por COVID-19, a capital Rio Branco é a que concentra maior número de casos e, portanto, a que tem a situação mais grave em termos de disponibilidade de tratamento. No momento as UTIs estão com mais de 90% de ocupação somente com casos de COVID-19, os leitos de enfermaria em algumas unidades atingem 100%.

Outra questão preocupante é que em meio à inundação, epidemia de Coronavírus e dengue, centenas de pessoas se acumulam sobre a ponte de divisa com o Peru, na cidade de Assis Brasil, tentando sair do país.

São principalmente imigrantes Haitianos e africanos que estavam no Brasil desde 2010, na primeira onda migratória, e em 2015, na segunda onda, fugindo da fome e miséria em seus países. Na época o Brasil era um local de esperança e recomeço para muitos. Diante da situação de desemprego imposta pela política neoliberal de destruição da economia nacional, estes imigrantes fogem da fome novamente e buscam o caminho por onde entraram, agora tentando outros países que os acolham.

O problema é que as fronteiras estão fechadas e a estas pessoas só restam o concreto do chão das ruas e o relento à espera das benesses do poder público. Um poder público que não consegue garantir o mínimo de proteção à sua própria população, o que dirá aos imigrantes que se amontoam na fronteira.

As cheias sazonais são inerentes à região, embora inevitáveis, previsíveis. Os desabrigados em sua maioria são a população mais pobre que se alojam historicamente na beira dos rios que atravessam as cidades. Populações que há muito deveriam ser transferidas locais não alagadiços.

O governo golpista, Gladson Cameli (PP), decreta estado de emergência e convoca a população à solidariedade. É papel do estado oferecer moradia segura, emprego e saúde. O que se vê no momento no Acre é uma amostra do que acontece no restante do Brasil. Moradia precária, assistência médica insuficiente, desemprego e fome. Esse são os efeitos do teto dos gastos que não permite investir em serviços públicos como infraestrutura.

Com apenas 39,4% da população em idade economicamente ativa ocupada em trabalhos formais, a renda média per capita é de R$ 890 reais no Acre. Dependendo da cidade, a renda chega à metade disto. O estado ocupa a 23ª posição em relação às demais unidades da federação em renda, um dos mais pobres do país. Isso se levarmos como sérios e verdadeiros os dados do IBGE.

Com o fim do miserável auxílio emergencial significa dizer que 60% da população em idade de trabalhar não tem rendimento e tornou-se cena comum famílias à beira das ruas pedindo ou vendendo qualquer coisa nos semáforos.

Outra prática que não se via no estado era a perseguição aos ambulantes e aos trabalhadores informais. Com a desculpa da pandemia as cenas das grandes capitais são comuns na cidade de Rio Branco.

Alguns desastres são previsíveis e inevitáveis. Os naturais, os econômicos e os sociais. Nos confins da Amazônia o que se vive são todos estes e ao mesmo tempo, apenas com uma importantes diferença: seriam todos evitáveis se não fosse o descaso e incompetência tanto do governo golpista federal como do estadual que é apoiador do governo Bolsonaro. Vale lembrar que Gladson Cameli foi o primeiro governador a impor a reforma previdenciária, antes mesmo que esta fosse uma obrigatoriedade aos estados.

Isso é apenas o começo, o que se espera é dias piores que somente poder ser evitados com a mobilização popular nas ruas. Fora Bolsonaro e todos golpistas genocidas do país!

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