Nego Dito, isca de polícia
Itamar Assumpção foi um dos artistas mais originais e ousados a surgir no início dos anos 80. Foi parte do movimento conhecido como Vanguarda Paulista
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itamar assumpção foto Marcos Penteado - CEDOC FPA
Itamar Assumpção | Foto: Marcos Penteado/CEDOC FPA

Itamar Assumpção, vulgo Beleléu, vulgo Nego Dito, foi um dos cantores e compositores mais ousados e inovadores a surgirem na cena musical brasileira nas últimas décadas. Sua música estava na vanguarda, uma imaculada mistura de rock, funk, samba, reggae, MPB e jazz, com letras ácidas, que comentavam a situação do povo negro e sua constante perseguição pela polícia. Tanto é que sua banda, nos primeiros discos, se chamava Isca de Polícia.

Itamar de Assumpção nasceu em 13 de setembro de 1949 em Tietê, município distante 130 quilômetros da capital São Paulo. Era bisneto de escravos de origem angolana. Cresceu ouvindo os batuques do terreiro de candomblé que ficava ao lado do quintal de sua casa. Aos 12 anos de idade a família se mudou para Arapongas no Paraná onde estudou contabilidade, abandonando o curso para atuar no teatro e fazer shows em Londrina. Na cidade conhece outro músico que também viria a se tornar famoso e com quem iria colaborar, Arrigo Barnabé.

Aprendeu sozinho a tocar o violão e sendo fã de Jimi Hendrix acabou se apaixonando pelo som do baixo. Em 1973, aos 24 anos, se muda para São Paulo para se dedicar à música. Em 1975 vence um festival de música em Campinas com sua composição “Luzia”. No mesmo ano participa do Festival da Feira da Vila, na Vila Madalena em São Paulo com outra composição, “Nego Dito”, ao lado de Arrigo Barnabé e da Banda Sabor de Veneno.

Em 1979 participa do Festival de Música Popular da extinta TV Tupi com a canção “Sabor de Veneno” ao lado de Arrigo Barnabé.

A Vanguarda Paulista

Por esta época Itamar, Arrigo Barnabé e outros músicos começam a formar um coletivo que iria dominar a música na cidade de São Paulo no início dos anos 80. Esse movimento ficou conhecido com o nome de Vanguarda Paulista. Além de Itamar e Arrigo o movimento tinha outros nomes como o Grupo Rumo (que fazia um trabalho de revitalização do samba paulista), o Premeditando o Breque (cujo trabalho era uma mistura de inúmeros estilos com uso de letras bem-humoradas), o Língua de Trapo (grupo que explora o humor) e o Patife Band (numa linha mais punk, liderado por Paulo Barnabé, irmão de Arrigo).

Todas essas bandas se apresentavam no Teatro Lira Paulistana, no bairro de Pinheiros. Em comum todas essas bandas tinham como mote a independência sobre o seu trabalho, lançando seus discos de maneira independente das grandes gravadoras.

Itamar Assumpção lançou o seu primeiro LP, “Beleléu, Leléu, Eu” em 1980, acompanhado pela banda Isca de Polícia. Este disco foi também a estreia da gravadora Lira Paulistana. Com a falta de interesse das gravadoras tradicionais no seu trabalho, Itamar decidiu lançar este disco de forma independente. Foi gravado em um estúdio em 16 canais, financiado pelas economias de dois funcionários do teatro Lira Paulistana. Itamar, sua banda e os financiadores do disco formam uma cooperativa, onde todos dividem os lucros. Foram duas mil cópias comercializadas nos shows da banda.

O disco é um trabalho conceitual que gira em torno da figura do anti-herói Beleléu, um marginal revoltado com a sua condição. É uma atualização da figura clássica do malandro, presente desde sempre no samba. É também o alter ego de Itamar, que em 1973 foi marginalizado por sua cor. Naquela ocasião a polícia o prendeu quando se preparava para viajar de Londrina a Arapongas. Carregava um gravador emprestado de um amigo. Como não podia provar que não o havia roubado acaba na delegacia, onde fica cinco dias preso. Algumas das músicas mais famosas de Itamar estão presentes neste disco como “Beijo Na Boca”, “Fico Louco” e “Nego Dito”.

No mesmo ano que Itamar lança “Beleléu, Leléu, Eu”, Arrigo Barnabé e a Banda Sabor de Veneno lançam o seu disco de estreia, o clássico “Clara Crocodilo”, que traz duas músicas arranjadas por Itamar.

Artista “maldito”

O trabalho inovador, rebelde e audaz de Itamar lhe rende, pela crítica especializada, o rótulo de “maldito”, coisa que ele detesta. Itamar se considerava um artista popular, de linguagem popular. O rótulo de “maldito” sempre esteve ligado, na música brasileira, aos artistas que não se conformavam com a roupagem imposta pelas grandes gravadoras. Neste caso Itamar se situaria ao lado de outros gênios como Sérgio Sampaio, Walter Franco e Jards Macalé, artistas que nunca fizeram música da maneira que a indústria fonográfica esperava.

O segundo disco de Itamar foi “Às Próprias Custas S.A.” de 1983. Foi gravado ao vivo em lançado em vinil de cor vermelha. Neste disco faz uma regravação do “maldito” Jards Macalé, a canção “Negra Melodia” e mais interpretações de composições de Adoniran Barbosa (“Vide Verso Meu Endereço”) e Roberto Carlos (“Noite de Terror”, composta por Getúlio Cortes), além de seis novas composições.

Seu terceiro disco, “Sampa Midnight – Isso Não Vai Ficar Assim”, é lançado em 1986 e é seu último disco independente. Em 1988 lança o seu único disco por uma grande gravadora, “Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!!”, onde continua sem fazer qualquer concessão ao gosto popular.

A partir de 1990 forma uma nova banda para acompanhá-lo, a Orquídeas do Brasil, composta exclusivamente por mulheres. Com essa banda lança uma série de três discos, entre 1993 e 1994, chamados de “Bicho de 7 Cabeças” pela gravadora independente Baratos Afins. Em 1995 lança o disco “Ataulfo Alves por Itamar Assumpção – Pra Sempre Agora”, onde todas as músicas são composições de Ataulfo Alves. Esse disco lhe rendeu um prêmio de melhor disco do ano concedido pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

O último trabalho de Itamar lançado ainda em vida foi “Preto Brás”, de 2002. Esse disco foi concebido como o primeiro de uma trilogia. Os discos seguintes da trilogia, “Preto Brás II” e “Preto Brás III” foram lançados em 2010, completados por vários músicos a partir do material deixado inacabado por Itamar.

Ele faleceu em 12 de junho de 2003 aos 53 anos de câncer no intestino, após quatro anos de luta contra a doença.

Em 2004 saiu o disco “Isso Vai Dar Repercussão”, um disco de Itamar em conjunto com o percussionista Naná Vasconcelos.

O legado de Itamar Assumpção foi levado em frente por suas duas filhas, as também cantoras e compositoras Anelis e Serena (que faleceu em 2016).

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