12 de junho de 2014: #TeveCopa

Copa do Mundo 2014 - Brasil x Croácia

Há cinco anos, iniciava-se a 20ª Copa do Mundo de futebol. Era o segundo Mundial realizado no Brasil – o primeiro fora em 1950. Entre um torneio e outro, a Seleção Brasileira conquistara nada menos que cinco títulos em Copas. O Brasil se tornara a pátria de chuteiras. Mais que um simples torneio esportivo, a Copa no Brasil de 2014 era um movimento de massas gigantesco. A festa maior do esporte mais popular do mundo.

Três milhões e meio de pessoas acorreram às 64 partidas realizadas em um mês envolvendo 32 países participantes – centenas de milhares deles eram estrangeiros – gerando um retorno da ordem de R$ 25 bilhões (em valores da época). Além do gasto direto do público, os investimentos totais de empresas teriam gerado R$ 142 bilhões na economia nacional, segundo a Fundação de Estudos e Pesquisas Econômicas (Fipe).

É um negócio gigantesco e, mais que isso, um negócio que envolve a milhões de pessoas. Como não poderia deixar de ser, a Copa tornou-se o pivô de um dos muitos braços de atuação do golpe de estado que já estava em curso. Convém lembrar que as célebres manifestações de junho de 2013 se deram justamente quando da inauguração de vários estádios construídos para o mundial, na Copa das Confederações.

Foi então que os coxinhas, vestidos com camisa amarela da CBF para torcer pela Seleção, se tornaram manifestantes de direita. Naqueles atos, surgiram grupos fascistas como o Movimento Brasil Livre (MBL), o Vem pra Rua ou o Revoltados Online. Naquele momento também diversos grupos de esquerda se uniram à direita num movimento decididamente golpista, o Não vai ter copa – também popularizado pela hashtag #NãoVaiTerCopa. A ideia era simples: inviabilizar a Copa do Mundo brasileira, conquistada durante o governo Lula em 2006, para inviabilizar o governo do PT nas eleições de outubro daquele ano. Se o Brasil perdesse a Copa, Dilma Rousseff perderia as eleições.

Militantes do Psol, Rede, PSTU e, diz-se, do PCB uniram-se a bate-paus do PSDB em atos de confronto direto com a população que visavam nada menos que sabotar diretamente as obras da Copa, o acesso do público aos estádios, dentre outras barbaridades só compreensíveis em movimentos que se dizem populares se analisados à luz de um profundo sectarismo, segundo o qual os esportes teriam tomado o lugar da religião como ópio do povo. Ou seja: uma versão esquerdista do mesmo espírito excludente que permeia a cultura burguesa: se é algo popular, é culturalmente inferior.

Tais grupos assumiram para si toda a cantilena moralista e demagógica própria de um direitista empedernido: “menos estádios e mais hospitais e escolas”, ou “menos Copa e mais habitação”, como se o aquecimento do mercado não gerasse um efeito multiplicador na economia capaz de gerar empregos e de baratear o próprio custo de obras de construção civil, por exemplo, por simples aumento de oferta.

Em certa medida, o movimento golpista foi bem-sucedido. Num resultado evidentemente manipulado, um escrete germânico medíocre viria a golear uma Seleção Brasileira visivelmente abilolada em campo por sete gols a um, acabando com o sonho do hexacampeonato tupiniquim. Tal cartolagem porém foi um remédio para o absoluto fracasso da política impopular da esquerda pequeno-burguesa como movimento de massas. Uma das pontas de lança dessa tentativa canhestra foi a instrumentalização do MTST – Movimento dos Trabalhadores sem Teto – pelo Não vai ter Copa operado por ninguém menos que Guilherme Boulos. Às vésperas da abertura da Copa, por exemplo, Boulos liderou um grupo que visava a impedir a realização de um amistoso da Seleção, bravateando: “se até sexta-feira não tivermos respostas sobre nossas reivindicações, eu não sei se a torcida vai conseguir chegar nesse jogo do Morumbi”.

Na prática, essa militância esquerdista só jogou água no moinho da direita e do golpe. E assim segue fazendo até hoje. Boulos ajudou a criar uma Frente Povo sem Medo para dividir a luta contra o golpe, desdobrado num movimento meramente programático chamado Vamos, Boulos foi colunista do jornal golpista Folha de S. Paulo por anos, Boulos foi candidato de primeira hora à Presidência da República nas eleições fraudadas que tiveram como base a prisão de Lula. Boulos apressou-se em legitimar o mandato fraudulento de Bolsonaro, afirmando que faria “oposição democrática” a seu governo – talvez uma das CPIs que se pretende fazer no Congresso Nacional golpistas a essas alturas, em que os fascistas já mostraram a que vieram e em que o grito de Fora Bolsonaro já está na boca do povo.

Ao fim e ao cabo, em 2014 #TeveCopa no Brasil. Em que pese o futebol duro e medíocre de muitas das superpotências europeias, foi um torneio com muitos gols, e com uma população realizada por ver gente como eles próprios – pobres e oprimidos de nascença – que encontraram no futebol a oportunidade de ser algo no mundo.