Música e ativismo político
A poderosa música de Odetta era o reflexo da luta dos negros americanos contra a opressão e em busca de seus direitos básicos
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Odetta-mid-1950s foto Rondal Partridge
A cantora americana Odetta | Foto: Rondal Partridge

Algo que poucos sabem é que Bob Dylan não iniciou sua carreira como cantor folk. Seu início foi como guitarrista, tocando em bandas de rock’n’roll na cidade de Hibbing, Minnesota. Mas em 1958, Dylan foi a uma loja de discos e ouviu o LP “Odetta Sings Ballads And Blues”. Foi um momento chave para o artista que em seguida trocou sua guitarra e amplificador por um violão, marca Gibson e começou a sua exploração do universo da música folclórica americana.

Dylan foi apenas um dos inúmeros artistas que receberam o impacto da música e da presença da cantora negra Odetta. Odetta foi também uma importante figura do movimento dos Direitos Civis dos Negros norte-americanos. Sua voz trazia a mensagem dos negros oprimidos, daqueles que sofreram os abusos da segregação racial. Martin Luther King a chamou de a rainha da música folk americana e a ativista Rosa Parks se declarava sua fã número um.

Infância no Alabama

Odetta Holmes nasceu em 31 de dezembro de 1930 em Birmingham, no estado de Alabama nos Estados Unidos. Seus pais foram Reuben Holmes, um trabalhador da indústria metalúrgica e Flora Sanders. Flora era uma adolescente quando foi forçada pela família a se casar com Reuben, um homem na faixa dos 30 anos que já tinha um filho de dois anos. Flora passava os dias na casa criando o filho de Reuben e cuidando dos afazeres domésticos. Reuben, para se certificar que ela estivesse em casa quando ele voltasse do trabalho, a deixava trancada. Pouco tempo depois Flora já estava grávida de Odetta. Finalmente, com a ajuda de uma tia ela conseguiu escapar para nunca mais voltar. Flora foi morar com seu tio Bud, que nunca mais permitiu que Reuben chegasse perto de Flora e de sua filha.

Flora se casaria novamente em 1934 com um homem mais compatível, Zadock Felious. Para Odetta Zadock seria seu verdadeiro pai, adotando o seu sobrenome.

Odetta nasceu bem no início do período conhecido como A Grande Depressão, a crise do capitalismo que teve início com a Crise de 1929. Foi o pior e mais longo período de crise capitalista nos Estados Unidos no século XX. A cidade de Birmingham sofreu muito com a crise, fechando as indústrias metalúrgicas e deixando milhares de trabalhadores sem trabalho. Além disso o estado do Alabama era um dos estados do sul dos Estados Unidos que tinha leis de segregação racial, as chamadas leis Jim Crow. Eram comuns as manifestações da Ku Klux Klan. Por tudo isso a família Felious resolveu deixar Birmingham e se mudar para Los Angeles.

Em Los Angeles, 1937

Los Angeles, comparada com outros grandes centros, era uma cidade com muito menos violência racial e se tornou lar para muitas famílias de negros. Odetta começou a frequentar a escola Lockwood, predominantemente de brancos. Em 1940 a sua professora notou que Odetta tinha uma bela voz e a incentivou a desenvolver seu talento musical. Alguns anos depois ela começou a ter aulas de canto operático e apreciação de música clássica. Ao mesmo tempo Zadock costumava levar a filha para o Teatro Paramount onde se apresentavam as bandas de negros como Duke Ellington, Count Basie e o trio de Nat King Cole. Aos sábados ouviam no rádio as transmissões de música country que aconteciam ao vivo no teatro Grand Ole Opry. Essa diversidade de estilos musicais pautaria o futuro da música de Odetta. A cantora teve um grande choque quando seu pai morreu de tuberculose em 4 de janeiro de 1945. Flora não se casaria novamente.

Odetta teve aulas de canto avançado com a cantora contralto Janet Spencer, que foi muito famosa no começo do século. Odetta estudou canções alemãs e o repertório clássico para cantoras contralto. O desejo de Flora era que Odetta seguisse os passos de Marian Anderson, uma das mais famosas cantoras negras de ópera, outra figura importante do Movimento dos Direitos Civis dos Negros. Mas mesmo com todo o seu treinamento dentro da música clássica Odetta nutria poucas ilusões em conseguir fazer carreira no ramo.

Em 1944 ela estreou como uma das integrantes do Turnabout Puppet Theatre (Teatro de Marionetes), onde ficou por quatro anos e em 1949 se juntou ao coro do elenco do musical Finian’s Rainbow. Este musical foi a perfeita entrada na música para Odetta. O tema do musical, escrito por Yip Harburg, tratava do tema dos direitos civis para os negros, um espetáculo que foi considerado muito à frente de seu tempo.

Início da carreira

Foi nesta época que Odetta travou contato com a cena folk de San Francisco. Odetta pegou emprestado um violão de um vizinho e começou a dar seus primeiros passos no instrumento. Ao mesmo tempo mergulhou no estudo da história do negro nos Estados Unidos para melhor entender as músicas do folk e do blues e suas letras. Ela conheceu Frank Hamilton, um adolescente que era um virtuoso em vários instrumentos, incluindo o violão e o banjo. Hamilton ensinou várias técnicas de violão a Odetta, inclusive o estilo rítmico do cantor Josh White, que ela depois adaptou para o estilo que ficou conhecido como “dedilhado Odetta”.

Em pouco tempo Odetta começou a se apresentar em reuniões de música folk. O repertório de Odetta se concentrava em canções ligadas à história dos negros na América, canções de trabalho, canções de escravos, além de canções folclóricas da região dos Apalaches, blues e spirituals. Muitas das canções que ela interpretou eram expressão de sua revolta, resultado do seu passado de opressão e que encontraram ressonância em toda a comunidade negra de Los Angeles e depois de todo o país. Assim ela explicou em uma entrevista:

“Nós vivíamos em uma época em que eu não podia dizer que eu me odiava, que eu odeio você e que eu odeio. Mas eu estava frustrada. Me disseram que eu não valia nada, me disseram que eu era uma idiota. Hollywood me disse isso. A escola me disse isso. O povo branco também, a sociedade me disse isso…[…] então eu podia me liberar me tornando furiosa”.

Em 1954 Odetta gravou o seu primeiro LP, “The Tin Angel Presents Odetta And Larry”, com Odetta cantando e tocando violão, ao lado de Larry Mohr, que era branco, um cantor e tocador de banjo. A dupla fazia muito sucesso frente às plateias mais progressistas. A maior parte das músicas foi gravada ao vivo no clube noturno Tin Angel em São Francisco onde costumavam se apresentar. O repertório do disco incluiu composições tradicionais, como canções de trabalho escravo como “John Henry” e “No More Cane On The Brazos”, spirituals (“Children, Go Where I Send Thee”) e composições de Leadbelly e Woody Guthrie. O disco teve um impacto modesto comparado com os trabalhos posteriores de Odetta.

Outra coisa que chamou a atenção do público é que Odetta aparecia com seu cabelo curto e não alisado. Na época negros eram praticamente obrigados a aparecerem com o cabelo alisado. A atitude de Odetta mostrava que ela começava a se rebelar contra as convenções impostas aos negros.

O auge

Em 1957 Odetta lança o seu primeiro LP solo, “Odetta Sings Ballads And Blues”, mais uma vez composto por canções tradicionais e blues. A peça central do disco é um medley de três músicas chamado “Freedom Trilogy”. Nesta peça ela passa pelo lamento de escravos “Oh Freedom” pelo despertar de “Come And Go With Me” e pela promessa de “I’m On My Way”, que muitos apontaram como um claro chamado pela luta do povo negro.

O disco apontou Odetta como a herdeira de uma tradição de música folk que vinha de Ma Rainey e Bessie Smith, e que a colocava ao lado de outro cantor de grande expressão, o cantor jamaicano-americano Harry Belafonte. No mesmo ano Odetta lança seu segundo álbum, “At The Gate Of Horn”, onde tem o acompanhamento do baixista Bill Lee. A partir daí Odetta começa também a aparecer em vários programas de televisão e a ser chamada para fazer papéis ocasionais em filmes de Hollywood. Um desses filmes é “Sanctuary” (Santuário, 1961), onde ela faz um papeis principais ao lado de Yves Montand e Lee Remick. O filme é uma adaptação do livro homônimo de William Faulkner.

Em 1959 Odetta aparece no programa de televisão de Harry Belafonte, onde canta a música “Water Boy”, uma canção tradicional sobre os trabalhos dos negros nos campos de algodão. Esta apresentação foi depois incluída por Martin Scorsese no documentário de Bob Dylan, “No Direction Home” de 2005. A interpretação de Odetta remete ao passado dos escravos, com uma fúria e violência sem igual. O vídeo pode ser visto neste endereço:

Odetta interpretando “Water Boy”

Em 1963 Odetta participou da Marcha Sobre Washington, liderada por Martin Luther King, um evento que reuniu 250.000 pessoas. Lá ela cantou “O Freedom”. Lá ela se colocou como “apenas um dos soldados de um enorme exército”.

Esta foi a época do renascimento do interesse do público americano pela música folk, com o estouro de novos nomes como Bob Dylan. Um dos discos mais bem sucedidos de Odetta foi “Odetta Sings Folk Songs” de 1963 onde ela interpreta a canção de Dylan, “Blowin’ In The Wind”. Em alguns dos discos seguintes da cantora ela adota uma sonoridade mais jazz como em “Odetta And The Blues” (1962) e “Odetta” (1967).

A admiração de Odetta por Dylan se traduziu em seu grande disco de 1965, “Odetta Sings Dylan”, onde interpretou clássicos como “With God On Our Side”, “Masters Of War”, “Don’t Think Twice It’s All Right” e “The Times They Are A-Changin’”.

Depois de lançar “Odetta Sings” em 1970 ela fica 17 anos sem lançar discos. Assim como aconteceu como muitos artistas daquela época Odetta continua se apresentando em shows, mas sua presença em discos diminuiu drasticamente.

Os últimos anos de Odetta viram a sua saúde entrar em rápido declínio. Em 2006 ela continuou se fazendo shows sentada em uma cadeira de rodas. Odetta veio a falecer em 2 de dezembro de 2008 por problemas cardíacos na cidade de Nova York.

A importância de Odetta na música popular foi imensa. Dentre seus inúmeros fãs estão Janis Joplin, que passou sua adolescência inteira ouvindo seus discos e tentando imitar o seu estilo, Carly Simon, Joan Baez, Peter Paul & Mary, Tracy Chapman, Jewel, Joan Armatrading e muitos outros. Odetta observou uma vez numa entrevista: “eu não sou uma cantora folk de verdade. Eu não ligo que as pessoas me chamem desse modo, mas na verdade eu sou uma historiadora musical”.

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