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Antônio Carlos Silva

Samba de São Paulo

110 anos de Adoniran Barbosa, cantor da classe operária paulista

Uma homenagem a um dos maiores compositores da música popular

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No dia 6 de julho de 1010 nascia, em Valinhos (então pertencente ao município de Campinas), interior de São Paulo, João Rubinato, que anos mais tarde o Brasil conheceria como Adoniran Brabosa.

Filho caçula, entre sete irmãos, de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil 1895, João Rubinato teve uma infância típica das famílias operárias do início do século XX. Em 1918, a família muda-se para Jundiaí. Francesco Rubinato, seu pai, trabalhava como operário na construção da ferrovia São Paulo Railway. Ainda criança, João Rubinato ajudava seu pai na construção da ferrovia. Mais tarde, seu primeiro emprego era de entregador de marmitas no hotel da cidade. Depois disso, trabalhou como varredor na Fábrica de tecelagem Japir.

Mudando-se para Santo André em 1924, João Rubinato trabalhou como vendedor, tecelão, pintor, metalúrgco, serralheiro, encanador e garçom. A maior parte desses empregos, ainda na adolescência.

Segundo contam seus biógrafos, ainda em Jundiaí, João Rubinato começou a ter contato com as novas formações nas cidades, produto da industrialização nascente no estado de São Paulo, que conviviam com aspectos rurais da vida interiorana. Nesse sentido, é possível afirmar que a formação da personalidade do futuro artista está diretamente relacionada com esse processo pelo qual passou São Paulo.

Uma sociedade até então baseada na economia rural que entre em conflito com um surto de industrialização que dará origem ao maior centro industrial da América Latina e um dos maiores do mundo.

Em 1932, a família Rubinato muda-se então para a capital paulista. Seu primeiro emprego aí foi de metalúrgico no Liceu de Artes e Ofícios, emprego que durou pouco por conta dos efeitos do esmerilhamento de ferro fundido em seus pulmões. Depois, João Rubinato foi pintor, mascate, vendedor e entregador. Como ele mesmo afirmou depois de velho: “eu fiz tudo na vida. Só não roubei”.

Segundo ele mesmo contava em suas entrevistas posteriores, o batuque o acompanhava nos empregos, o que lhe rendia pouco tempo em cada um deles. Foi assim que João Rubinato decidiu se tornar artista de rádio.

Iniciou sua carreira como ator de rádio e humorista, lançando vários personagens para os programas. Foi também ator de cinema.

Mas foi como compositor e sambista que João Rubinato ganharia fama, mas não apenas isso. Foi como cantor da vida cotidiana da São Paulo em desenvolvimento rápido, que deixava para trás o passado rural, que João Rubinato se tornaria um dos maiores nomes da cultura popular nacional.

Melhor dizendo, João Rubinato não, Adoniran Barbosa. Segundo ele mesmo justificaria mais tarde, sempre em tom humorístico que lhe era marcante, “cantar samba com nome italiano não dá”.

Adoniran talvez fosse para ser mais um dos personagens do multi artista João Rubinato, mas acabou se tornando o próprio artista.

Foi em 1935 que Adoniran estreia em disco como compositor. Sua primeira composição gravada foi a marcha, em parceria com J Aimberê, “Dona Boa”, segundo ele “uma porcaria de marcha”. A música venceu um concurso de músicas carnavalescas promovido pela prefeitura de São Paulo.

A partir de 1936 lança três discos como interprete, que não “decolam”. Já no ano 40, João Rubinato se dedica ao trabalho como radioator, com personagens como Charutinho, Zé Conversa, Jean Rubinet e outros.

Até os anos 60, para o grande público, Adoniran era um ator de rádio. Seu trabalho como compositor, embora não tenha sido interrompido, fica em segundo plano. Adoniran chegou à certa fama como ator, a ponto de que a imprensa da época apresentava com grande espanto que o artista também fazia sambas.

Com o tempo, já na década de 70, a coisa se inverte. Tamanha foi a importância das composições de Adoniran e de suas interpretações como sambista que a partir daí e até hoje as pessoas se impressionam ao descobrir que ele fora um grande ator e humorista.

A contradição tristeza-alegria no samba de Adoniran

A primeira impressão que atinge os sentidos de um ouvinte iniciante de Adoniran Brabosa talvez seja a sua capacidade de dar um tom humorístico para seus sambas. Sua maneira de escrever e cantar, trazendo à tona uma linguagem coloquial representativa da população paulista, reforça o tom descontraído da maioria de seus sambas.

Nesse sentido, sem dar ao fato nenhuma caraterística banal, Adoniran é capaz de contar a trágica história da demolição de um prédio e a consequência social para aqueles moradores dando certo ar humorístico à situação. Em “Saudosa Maloca”, os três amigos procuram se consolar e conformar diante da cena trágica.

O mesmo clima nos passa a canção “Guenta a mão, João” em que as já comuns cenas de alagamento em São Paulo são contadas de maneira tragicômica.

Essa contradição entre a tristeza contada pelo poeta em sua letra e a melodia exaltada do samba é uma marca de boa parte das obras de Adoniran, mas está longe de ser algo específico do compositor paulista.

Muitos estudiosos do samba chama a atenção para essa característica bastante genuína do gênero: cantar histórias tristes com uma melodia e um ritmo alegres. O samba é o lamento do povo, traduzido em desilusões amorosas ou fatos trágicos da vida cotidiana do povo pobre. Mas esse lamento é cantado em geral da maneira mais alegre, com o sorriso no rosto dos passistas, dos foliões do carnaval. Alegria que é produto principalmente da força dos batuques.

Os sambas de Adoniran, portanto, conseguem atingir o mais alto grau dessa contradição.

Um cronista da classe operária paulista

Conforme afirmamos acima, a própria formação da personalidade de Adoniran se confunde com o rápido desenvolvimento econômico do estado de São Paulo e as novas formações sociais decorrentes dele.

Mas Adoniran não apenas foi um espectador dessas profundas transformações, como as viveu diretamente sendo ele mesmo um elemento oriundo da classe operária em rápido crescimento.

O maior mérito dos sambas de Adoniran Barbosa e sua maior riqueza estão justamente na tradução desse processo histórico. Adoniran é o cantor da São Paulo que enfrenta o progresso que deixa para trás de maneira violenta as velhas formações rurais. Mas a substituição de uma sociedade rural em uma das mais industrializadas do mundo não pode ocorrer sem que haja uma convivência e portanto um conflito entre esses “dois mundos”.

Em São Paulo, no entanto,, esse conflito é ainda mais marcante dada a velocidade com que a industrialização atingiu o estado. A própria industrialização é um resultado do enormes excedente de capitais provindos da especulação do café. Ou seja, o próprio desenvolvimento industrial de São Paulo está ligado com a atividade rural.

É esse ambiente que é retratado por Adoniran e por outros importantes nomes do samba de São Paulo como Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro, Paulo Vanzolini.

Há muito de urbano nos sambas de Adoniran, mas ele vem influenciado pelo interior, pelas fazendas, o café, a música caipira.

Adoniran canta a metrópole em plena formação com seu progresso técnico e a vida da população mais pobre. Adoniran canta, como ninguém a vida da classe operária, seus problemas, suas dificuldades, as injustiças contra os mais desfavorecidos.

Poucos sambistas conseguiram falar sob tantos pontos de vista sobre a vida da classe operária. Falou dos despejos, das enchentes, da exploração nos canteiros de obra, do trabalho nas fábricas. E isso só pode ser explicado pelas condições de sua época. Adoniran retratou aquilo que via.

Nesse sentido também, Adoniran é um modernista. Ele procura desenvolver uma linguagem própria, utilizando as gírias dessa classe operária. Seu “Samba Italiano”, por exemplo, lembra as poesias de Juó Bananère, que escrevia seus poemas em “italianês” paulista.

Ele foi também a síntese, no samba, da formação da classe operária paulista e brasileira, composta pelos negros em primeiro lugar e também pelos imigrantes italianos.

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