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11 de julho de 2000 – “Marcia”, do “Sendero Luminoso”, é condenada
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11 de julho de 2000 – “Marcia”, do “Sendero Luminoso”, é condenada
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Num domingo, 26 de dezembro de 1999, o ditador tardio do Peru, Alberto Fujimori, anunciava a prisão da militante revolucionária Ernestina Hinostroza Canchari – a Camarada Marcia, capturada em sua casa em Lima na madrugada anterior. Ernestina era uma das dirigentes do grupo Sendero Luminoso (Caminho Iluminado).Seu julgamento foi rápido, e em 11 de julho de 2000, há 19 anos, a guerrilheira tinha sua prisão perpétua decretada por um tribunal militar.

A prisão e condenação da Camarada Marcia era uma vitória da brutal política direitista de repressão e aniquilação dos movimentos camponeses operada pelo empresário nipo-peruano Alberto Fujimori desde sua ascensão ao poder em 1990.

O Sendero Luminoso, fundado no final da década de 1960 por Abimael Guzmán, atuara junto ao movimento estudantil na década seguinte, durante a ditadura implementada desde um golpe perpetrado pelo general Juan Velasco Alvarado em 1968, que à diferença das demais ditaduras de então na América Latina, teria um caráter nacionalista burguês, de esquerda.

O regime seria derrotado nas ruas por meio de uma ampla greve dos operários organizada Confederación General de Trabajadores del Perú (CGTP) em 1977, forçando o regime a chamar eleições e colocar no poder o mesmo Fernando Belaúnde Terry – fundador da Acción Popular – deposto 12 anos antes. O Sendero Luminoso optou por boicotar a eleição, fomentando a insurreição popular sobretudo no campo por meio de focos guerrilheiros. A luta armada foi bem-sucedida, e o grupo chegou a ocupar mais da metade do território peruano – sobretudo a área central.

Como se sabe, a ascensão do governo neoliberal de Fujimori seria mais bem-sucedida para o Imperialismo que as tentativas com Collor, no Brasil, e Menem, na Argentina. De natureza fascista, Fujimori operaria um golpe de Estado em 1992 – um autogolpe – dissolvendo o parlamento, e ocupando as ruas com o Exército. Em seus 10 anos no poder, até 2000, cerca de 60 mil pessoas seriam assassinadas no Peru, sobretudo por milícias e verdadeiros esquadrões da morte como o famoso Grupo Colina, encarregado sobretudo de exterminar os militantes do Sendero Luminoso. O grupo sofreria uma drástica redução, persistente até os dias de hoje.

Enxergando o ocaso de seu regime no final da década, Fujimori intensificaria suas ações repressivas ao grupo de esquerda com vistas a aumentar sua popularidade junto à direita. Nesse contexto, Ernestina seria presa e condenada, assim como seu parceiro, Oscar Ramírez Durand – conhecido por Feliciano. Considerada uma presa de “pouca importância” pela direita, a dirigente teria sido entregada por seu próprio consorte.

Enfermeira de formação, na Universidad Nacional San Cristóbal de Huamanga, Ayacucho, Ernestina e outros presos políticos parecem não ter qualquer perspectiva de libertação até os dias de hoje. Aparentemente sem qualquer mobilização popular em seu favor, assim como outros dirigentes do Sendero Luminoso como o próprio Abimael Guzmán – a ex-combatente chegou a publicar um poema numa coletânea em 2007, de onde se pode extrair o seguinte fecho melancólico.

Balada de una cautivaResultado de imagem para ernestina hinostroza canchari foto
A quién contarle
que la tristeza anida en mi pecho,
la noche y mis sueños no tienen compañía.
Se escapan mis latidos de las manos
tu cariño huye cual gaviotas mar adentro,
que sólo tengo
el breve recuerdo de tu aroma
y la fragancia de tu sonrisa.