11/09/1973: golpe derruba Allende e instaura ditadura militar no Chile
3791ea84f6d51f9648c4cee4e7f4a3a6
11/09/1973: golpe derruba Allende e instaura ditadura militar no Chile
3791ea84f6d51f9648c4cee4e7f4a3a6

No dia 11 de setembro de 1973, um sangrento golpe militar, apoiado pela burguesia local em aliança com o imperialismo norte-americano, derrubou o governo da Unidade Popular (UP), encabeçado por Salvador Allende, e levou ao poder uma ditadura militar fascista, que perdurou por 17 anos no Chile, sob o comando de Augusto Pinochet.

A subida de Allende ao poder

A vitória de Allende nas eleições presidenciais de 1970 se deu em meio a um poderoso ascenso do movimento operário e popular chileno, que ameaçava se chocar frontalmente com o Estado burguês. Esse movimento ascendente era resultado da reação das massas ao governo democrata cristão de Eduardo Frei, um governo pró-imperialista, que endividou o país, provocou um desemprego massivo e uma colossal carestia de vida e, enfim, acentuou as tendências semicoloniais da economia chilena e o atraso material e cultural de seu povo.

A decomposição desse governo abriu a brecha para o avanço das massas no campo e nas cidades. A partir do final de 1967, a mobilização população deu um salto vertiginoso. Os camponeses deram início a uma série de ocupações de terras, e centenas de empreendimentos agrícolas entraram em greve. Os setores pequeno-burgueses e o movimento estudantil entraram em movimento, participando sobretudo das lutas em torno de reformas nas universidades. Além disso, não houve setor da classe operária que não tenha se mobilizado por suas reivindicações e contra a política entreguista do governo democrata cristão.

As eleições de 1970 se aproximavam, e o regime político burguês chileno estava em franca decomposição, fruto da ofensiva do movimento operário e camponês. A situação de crise impunha que os principais partidos de esquerda da época, o Partido Socialista (PS), de Allende, e o Partido Comunista (PC), dominado pelo stalinismo, ambos atuantes no seio do movimento operário, dessem uma resposta concreta ao problema do poder, que estava cada vez mais na ordem do dia com a proximidade das eleições.

A constituição da Unidade Popular foi a resposta política que as direções do movimento operário deram aos problemas trazidos pela luta em curso. Formada em dezembro de 1969, tratava-se de uma coalizão partidária entre o PS de Allende, o Partido Comunista, dissidentes da Democracia Cristã (DC) e o Partido Radical, tradicional partido da burguesia liberal chilena, além de outros agrupamentos políticos menores.

A UP chegou ao governo em 4 de novembro de 1970, derrotando o candidato Radomiro Tomic, concorrente pela DC, e Jorge Alessandri Rodríguez, representante da extrema-direita pelo Partido Nacional. Obtendo uma maioria estreita (36%) no primeiro turno, com uma diferença de apenas 30 mil votos em relação ao segundo colocado, Allende teve confirmada sua vitória em segundo turno, nos termos das regras vigentes à época, por eleição indireta via Congresso Nacional.

O Governo Allende

A Unidade Popular nasceu sobre a base de uma aliança entre os partidos dirigentes da classe operária  (PS e PC) e os partidos minúsculos e em crise da burguesia (Partido Radical, dissidentes da DC), formando uma típica Frente Popular. O governo de Salvador Allende, portanto, desde o seu primeiro dia, estava marcado por esta característica fundamental: não iria além dos limites do Estado burguês e da democracia parlamentar.

A própria ratificação da vitória de Allende pelo parlamento no segundo turno das eleições só foi garantida pelo acordo entre a UP e a DC, que resultou no chamado “Estatuto de Garantías Democráticas”. Similar à Carta ao Povo Brasileiro, firmada por Lula em 2002, o assinatura do Estatuto por Allende visava tranquilizar a burguesia e o imperialismo, na medida em que reconhecia a “liberdade de imprensa” (leia-se: o domínio do imperialismo sobre a imprensa), garantia apoio financeiro ao “ensino privado e gratuito” (leia-se: ensino religioso, levado adiante pela Igreja Católica), estabelecia as F.F.A.A. e os órgãos policiais como os constituintes exclusivos da força pública (leia-se: o Estado burguês detém o monopólio exclusivo das armas) e, como não poderia deixar de ser, prometia respeitar o sacrossanto direito de propriedade.

A subida da UP ao poder, contudo, não arrefeceu a mobilização das massas. As greves e ocupações de fábricas e terras não só não diminuíram como aumentaram. O governo, que era, em larga medida, produto das mobilizações, tratou de entregar algumas das concessões prometidas. Entre as suas principais medidas econômicas estavam a continuidade da limitada reforma agrária implantada ainda no governo Frei, o aumento real dos salários e a nacionalização de alguns setores da economia, sobretudo do complexo mineiro de cobre.

A política de concessões do governo, por seu turno, atingia parcialmente os interesses da burguesia local e, em especial, do imperialismo. O governo norte-americano não demorou para submeter o Chile a um bloqueio econômico informal, que impedia o Chile de obter empréstimos internacionais ou bons preços para o cobre, o seu principal produto de exportação. Os EUA adotaram a estratégia de sufocar gradualmente a economia chilena, com vistas a criar um cenário de crise social e econômica, propício para a queda do governo. Edward Korry, o embaixador estadunidense em Santiago, dizia: “não permitiremos que nenhuma porca e nenhum parafuso (americanos) cheguem ao Chile de Allende”. O Chile, tradicionalmente dependente de importações dos Estados Unidos, passou a ver suas indústrias e suas frotas de caminhões, tratores, ônibus e táxis serem progressivamente paralisadas por falta de peças de reposição.

A ação imperialista, além da sabotagem e do bloqueio econômicos, também investiu no apoio e no financiamento de movimentos e grupos oposicionistas. O ponto alto desse empreendimento foi o “paro patronal” de outubro de 1972, iniciado pelos caminhoneiros chilenos e financiado pela CIA. O lockout dos caminhoneiros foi declarado pela Confederação Nacional do Transporte, então presidida por León Vilarín, um dos líderes do grupo fascista paramilitar Patria y Libertad, também sustentado e apoiado pelo imperialismo ianque. A paralisação dos caminhoneiros foi seguida pela paralisação de outros setores patronais e afetou gravemente o sistema produtivo e de abastecimento do país (prejudicou, por exemplo, toda a safra agrícola de 1972/73).

Para quem quer ter uma imagem mais concreta do que acontecia no Chile à época, basta olhar para o golpismo em curso na Venezuela de hoje, sacudida por sabotagens econômicas e bloqueios, muita propaganda da imprensa burguesa e vultosos financiamentos à oposição de direita.

Enquanto o governo Allende não respondia à ofensiva da direita e do imperialismo com a resolução necessária, as forças populares, especialmente as operárias, apostavam na sua ação independente. O sindicato dos ferroviários, por exemplo, fez o possível para manter as comunicações funcionando. Formaram-se Comitês de Proteção das indústrias, que tinham como tarefa assegurar a provisão e distribuição da produção. Tarefa semelhante coube aos “Cordones Industriales”, ou seja, aos agrupamentos territoriais de sindicatos por fábricas de diversos ramos da produção, que se generalizaram após a paralisação patronal de outubro e atuavam nas tarefas de manutenção da produção sob o controle dos trabalhadores. A classe operária, de modo geral, tendia a desenvolver suas inclinações revolucionárias para fazer frente à direita e à passividade da UP.

O governo de frente popular, todavia, por sua própria natureza, trabalhava para conter as tendências revolucionárias das massas. Além de apelos para que os trabalhadores se limitassem a trabalhar, ir para casa, e não saíssem dos marcos do Estado burguês, o governo Allende começou a adotar medidas flagrantemente contrarrevolucionárias, que pavimentariam no futuro próximo o caminho de sua queda, levando as massas chilenas a uma derrota histórica.

O descolamento entre o governo Allende e as massas populares em ascensão se refletia na presença crescente dos militares em postos do gabinete governamental. Para conter a mobilização independente das massas chilenas, Allende cedia cada vez mais espaço aos militares. A agudização da luta de classes levou mesmo o governo a redigir uma lei que concedia às Forças Armadas o poder para controlar o armamento da população civil. Essa lei autorizava o Exército a invadir qualquer casa ou fábrica, a deter e aprisionar qualquer cidadão, havendo denúncia ou não, sob a simples suspeita da existência de armas. O governo procedia assim ao desarmamentos das organizações operárias e populares, fornecendo às forças contrarrevolucionárias um de seus principais instrumentos na preparação do golpe militar que estava por vir.

Os militares reforçavam de maneira progressiva suas posições no regime político, e o governo de esquerda se chocava crescentemente com as mobilizações do povo. No entanto, as eleições parlamentares de março de 1973 reforçaram a vontade das massas de combater os intentos da burguesia e do imperialismo. Apesar da passividade da UP e das suas concessões à reação (lei de armas), os partido da UP conquistaram 44% dos votos, isto é, 8% mais que nas eleições de 1970. A pretensão de derrotar as massas chilenas pela via eleitoral mostrou-se mais uma vez inviável, e o golpe militar surgia no horizonte como a única alternativa.

O Golpe de 11 de setembro

A primeira intentona golpista se produziu em fins de junho. Um setor do Exército colocou os tanques na rua, mas a coesão insuficiente das forças golpistas determinou que as demais unidades militares não aderissem à ação, redundando no seu fracasso.

A intentona golpista encontrou uma grande resistência por parte dos trabalhadores. Inúmeras fábricas foram ocupadas pelos operários por iniciativa dos “Cordones Industriales” que, a partir daí, aumentaram sua influência na organização e mobilização dos trabalhadores.

Allende, porém, ao invés de se apoiar na mobilização autônoma do proletariado chileno, buscou impedir o desenvolvimento da intervenção combativa dos operários e hipotecou sua sorte na aliança com os setores “constitucionalistas” das F.F.A.A.

Pouco a pouco, os militares foram impondo seus interesses sobre o governo: luz verde para a repressão, controle sobre o aparato econômico e retrocesso na política de nacionalizações. A lei de armas permitiu ao Exército desencadear uma verdadeira caçada aos trabalhadores e, principalmente, às fábricas ocupadas. Allende, pressionado pelos democratas cristãos, acedeu no recuo às nacionalizações. Em agosto, o presidente chileno anuncia um novo gabinete, transferindo os ministérios da Fazenda, de Terras e Colonização, de Obras Públicas e de Transporte para as mãos dos militares. Em outras palavras, no momento em que a classe operária e os trabalhadores em geral davam mostras de grande resistência e de vontade de combater o seu inimigo de classe, o governo Allende entregava o controle do país aos autores do golpe de Estado de 11 de setembro.

A conspiração no interior das F.F.A.A. atinge um ritmo mais acelerado, e os setores golpistas começam a expurgar os setores suspeitos de tendências legalistas. A pressão contra o Comandante em Chefe de Allende, o general Carlos Prats, que se recusa a participar do golpe, leva-o a renunciar. Em seu lugar assume o general-chefe do Exército, Augusto Pinochet, membro do gabinete militar de Allende e até então considerado um militar leal à constituição e apolítico.

Com a classe operária desarmada, desorganizada e desmoralizada pelas traições de suas próprias direções política, o golpe militar, agora, era só questão de tempo.

A ação das forças militares golpistas iniciou-se em Valparaíso com um levante da Marinha na madrugada de 11 de setembro e recebeu a adesão, na capital, das três armas e do Corpo de Cabineiros, numa operação comandada por Pinochet. Os confrontos nas ruas foram caracterizados pelo massacre nos bairros operários e fábricas ocupadas, responsável por cerca de 10 mil mortos e milhares de prisões. O ataque ao Palácio de La Moneda, para onde Allende se dirigiu e acabou assassinado, completou a vitória da burguesia e do imperialismo sobre as forças operárias e populares chilenas.

O golpe militar de 11 de setembro de 1973 inaugurou a era da ditadura de Augusto Pinochet. Por meio dos métodos da guerra civil, essa ditadura empreendeu a repressão mais selvagem contra o proletariado, as massas chilenas e suas organizações de classe, e adquiriu na essência traços abertamente fascistas: execuções sumárias em massa; uso da tortura em grande escala; perseguição implacável a dirigentes operários e a membros do governo Allende; dissolução dos sindicatos e revogação de todos os direitos sindicais; dissolução dos partidos operários, seguida pela do conjunto dos partidos políticos; censura à imprensa; militarização das universidades; aplicação de uma voraz política econômica neoliberal, marcada por uma avalanche de privatizações, ataques aos direitos trabalhistas e concessões ao capital estrangeiro; entre outras medidas.

As lições do golpe de Estado no Chile são absolutamente atuais para o Brasil. Admirador declarado da ditadura Pinochet, Bolsonaro e seu governo fascista ameaçam submeter o Brasil a uma ditadura com as mesmíssimas características daquela. Para a esquerda que luta contra o golpe de Estado e contra o bolsonarismo, é mais do que necessário não repetir a experiência fracassada da frente popular chilena.