Escreveu 400 trilhas sonoras
Um dos grandes compositores de nosso tempo, Ennio Morricone será sempre lembrado pelas suas obras altamente melódicas e de caráter popular.
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ennio morricone foto alessandro garofalo
O compositor, regente e arranjador italiano Ennio Morricone | Foto: Alessandro Garofalo/Reuters

O maestro Ennio Morricone foi um dos maiores compositores de nossos tempos. Especialmente na área em que escolheu trabalhar: a música feita para o cinema. Lá se tornou um dos maiores responsável por elevar este tipo de música a um novo patamar, de verdadeira criação artística e não mais apenas como música para ambientar uma cena. A música de Morricone era altamente melódica e memorável, capaz de adicionar novas camadas emocionais e intelectuais aos filmes.

Morricone foi o responsável pelas trilhas sonoras de vários filmes de alto teor político como “A Batalha de Argel”, “Era Uma Vez Na América”, “Sacco e Vanzetti”, “Queimada!”, “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, “1900” e “A Chave”.

Algumas das trilhas mais conhecidas do maestro são aquelas onde ele trabalhou com o diretor italiano Sergio Leone, os chamados “spaghetti western”, filmes de faroeste filmados na Itália como “Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo” (1966, que no Brasil ficou conhecido pelo nome de “Três Homens Em Conflito” e nos Estados Unidos como “The Good, The Bad and The Ugly”) e “C’era una volta il West” (1968, no Brasil conhecido como “Era Uma Vez no Oeste”).

No total Morricone produziu mais de 400 trilhas sonoras e outras 100 obras diversas. É sintomático que a Academia de Cinema de Hollywood tenha desprezado a obra do maestro italiano durante tantas décadas só dando a ele um prêmio honorário em 2007 pelo conjunto de seus trabalhos.

Criança prodígio

Ennio Morricone nasceu em Roma, a 10 de novembro de 1928, em uma Itália tomada pelo regime fascista. Filho de Libera Ridolfi e de Mario Morricone, um trompetista profissional que tocava em orquestra, com seu pai aprendeu a ler música e a tocar vários instrumentos, especialmente o trompete. Especializou-se no instrumento estudando na Academia Nacional de Santa Cecilia, sob a direção de Umberto Semproni. Morricone escreveu suas primeiras composições quando tinha apenas seis anos de idade, encorajado pelo pai a desenvolver seu talento natural.

Morricone entrou no conservatório aos 12 anos e destacou-se fazendo em apenas seis meses, um curso de harmonia que deveria durar quatro anos. Estudou ainda composição, trompete e música coral com Goffredo Petrassi, a quem, no futuro, Ennio dedicaria várias obras. Terminando seus estudos em 1954, o músico passaria a escrever várias composições de caráter mais popular, mesclando-as a obras mais eruditas, mostrando enorme flexibilidade e ecletismo, traço marcante de toda sua obra.

Em 1954 começou a escrever e arranjar músicas como escritor-fantasma para filmes creditados a compositores famosos, ao mesmo tempo em que trabalhava para a rede de televisão RAI arranjando canções para orquestra.

Ligação com a vanguarda

Em 1956 começou a tocar em uma banda de jazz para sustentar a família. Dois anos depois, em 1958, Morricone foi à cidade alemã de Darmstadt fazer um curso de música contemporânea, com a participação de John Cage. Ele já tinha bastante conhecimento da música de vanguarda do século XX, tendo estudado as técnicas dos compositores da escola de Viena (chamada dodecafonia ou serialismo), aplicado por Alban Berg, Arnold Schoenberg e Anton Webern.

Em Darmstadt trocou ideias com outros compositores de vanguarda, fazendo improvisações com ruídos, vozes e instrumentos usados de forma não ortodoxa. Este episódio foi crucial para a formação do Gruppo d’Improvvisazione Nuova Consonanza, mais conhecido como O Grupo.

Morricone participou do grupo desde seu início em 1965 até 1980. Esse projeto foi iniciado pelo amigo, Franco Evangelisti e teve participação de outros nomes notáveis como Egisto Macchi, Roland Kayn, Walter Branchi e Mario Bertoncini. Nesse período o Grupo lançou sete álbuns onde combinaram o jazz com a música serial, música concreta e outras técnicas da vanguarda como o uso de ruídos, fitas magnéticas e piano preparado. O Grupo tornaria-se uma enorme influência para as gerações seguintes, para grupos como o Sonic Youth e compositores como John Zorn e Evan Parker, além de servir como inspiração para o Grupo de Experimentación Sonora do ICAIC, um grupo de compositores cubanos do movimento nueva trova, formado em 1969, que reuniu nomes como Pablo Milanés, Silvio Rodriguez e Noel Nicola.

Morricone utilizou o Grupo para várias de suas trilhas sonoras, além de aproveitar várias de suas técnicas radicais para suas obras eruditas. O Grupo está presente em trilhas de filmes como o terror giallo “Momentos de Desespero” (1971, dirigido por Enzo Castellari) e “Um Lugar Tranquilo no Campo” (1968, terror dirigido por Elio Petri).

Primeiras trilhas sonoras

A primeira trilha sonora de Morricone foi para o filme de 1961 “Il Federale” (O Fascista), dirigido por Luciano Salce. Foi o início de uma longa colaboração com o diretor.

Seguiram-se trilhas para filmes dos mais diversos gêneros, de comédias a dramas, romances, filmes de terror, filmes de conteúdo político e históricos.

Mas foi o gênero que ficou conhecido como “spaghetti western” é que trouxe a fama para Morricone em 1964, mesmo ano em que ele viu nascer sua terceira criança, Andrea Morricone, futura compositora de trilhas sonoras também.

O primeiro filme de faroeste espaguete (ou bang bang à italiana) que Morricone musicou foi “Por Um Punhado de Dólares” (“Per Um Pugno di Dollari” ou “A Fistful Of Dollars”). Este filme, que tinha Clint Eastwood em seu primeiro papel principal, era uma refilmagem não oficial do clássico “Yojimbo” de Akira Kurosawa de 1961.

Como o orçamento para “Por Um Punhado de Dólares” era muito pequeno para contratar uma orquestra Morricone fez uso de vários efeitos sonoros, como sons de chicotes, assobios, tiros e especialmente da então nova guitarra elétrica Fender.

Para este fim Morricone começou uma longa colaboração com outro compositor, seu amigo de infância Alessandro Alessandroni e seu grupo vocal, I Cantori Moderni. Alessandroni é o responsável pelo assobio do tema principal, além de tocar inúmeros instrumentos como a guitarra, bandolim, cítara, acordeão e piano.

Depois do sucesso deste filme Morricone e Leone colaboraram em outros dois faroestes espaguete, “Por Uns Dólares A Mais” (Per qualche dollaro in più”, 1965) e “Três Homens Em Conflito” (1966), que juntos são conhecidos como a Trilogia dos Dólares.

Esta trilogia foi uma perfeita simbiose entre cinema e música. Morricone explicou que algumas das músicas haviam sido compostas antes dos filmes e que Sergio Leone considerava a música uma parte fundamental deles. Leone deliberadamente manteve várias cenas mais compridas porque ele não queria interromper o fluxo musical. Segundo Morricone, por isso estes filmes são tão lentos.

A Trilogia dos Dólares subverteram os arquétipos do faroeste americano. Foram realizados bem no meio dos anos 60, uma época frenética de turbulência política, de luta pelos direitos e contra o racismo. Estes filmes trazem uma mensagem de crítica aos Estados Unidos e sua política imperialista, especialmente sobre a Guerra do Vietnã.

Morricone trabalhou ainda com Leone em “Era Uma Vez No Oeste” (1968), “Quando Explode a Vingança” (1971) e “Era Uma Vez Na América” (1984), que juntos formam a Trilogia Era Uma Vez. Além dos filmes de Sergio Leone Morricone também compôs dezenas de trilhas para faroeste espaguete de diretores como Sergio Corbucci, Sergio Solima, Giulio Petroni e muitos outros.

Morricone trabalhava com muita rapidez, chegando a assinar 20 trilhas compostas apenas no ano de 1968. Em 1966 ele compôs a trilha do importante filme “A Batalha de Argel”.

Trilhas para filmes de caráter político

“A Batalha de Argel” é um drama histórico dirigido por Gillo Pontecorvo. O filme retrata os eventos ocorridos na Guerra da Argélia quando os argelinos lutavam contra a ocupação colonialista francesa no país. Passando-se na capital da Argélia, Argel, entre novembro de 1954 e dezembro de 1960, a obra narra os confrontos entre as tropas paramilitares dos franceses liderados pelo General Massu e o Coronel Bigeard e os argelinos da FLN, Frente de Libertação Nacional.

Os sons têm um papel muito importante no filme. A música foi feita por Morricone em colaboração com o diretor Pontecorvo. Foram usados os sons de metralhadoras, helicópteros e tanques para simbolizar os métodos de batalha dos franceses enquanto sons de explosões de bombas, gritos e lamentos são representações dos métodos dos argelinos.

O tema principal da trilha, “Algiers November 1, 1954” foi anos mais tarde reutilizada na trilha sonora do filme “Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino.

Outro filme importante com trilha de Morricone é “Queimada!”, novamente dirigido por Gillo Pontecorvo. Este filme foi lançado em 1969 e tinha Marlon Brando no papel principal. A história é ficcional, ambientada em uma república no Caribe, mas é claramente inspirada nos eventos da Revolução Haitiana, que trouxe a independência da ilha do domínio francês e a eliminação da escravidão.

“Sacco e Vanzetti”, drama de 1971 dirigido por Giuliano Montaldo trouxe outro acontecimento histórico importante. Sacco e Vanzetti eram dois anarquistas de origem italiana que moravam nos Estados Unidos e que foram condenados à morte pela acusação de homicídio de um guarda e um funcionário durante um roubo à mão armada em 15 de abril de 1920 em uma fábrica de sapatos. Foi um processo farsesco que acabou executando dois inocentes, parte de uma perseguição do governo americano contra grupos socialistas e anarquistas.

A trilha sonora, toda escrita por Morricone, trouxe duas faixas cantadas pela cantora folk americana Joan Baez, “Here’s To You” e “The Ballad Of Sacco & Vanzetti” (dividida em três partes).

Em 1975 Morricone criou a trilha sonora para o polêmico “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, filme do italiano Pier Paolo Pasolini, uma obra ambientada na República fascista de Salò, abordando temas como a corrupção, niilismo, moralidade, sadismo e fascismo.

“1900”, filme de Bernardo Bertolucci, também teve uma trilha sonora importante de Morricone, que usou várias melodias tiradas das óperas escritas por Giuseppe Verdi. A obra de Bertolucci trata da luta de classes travada na Itália desde a data da morte de Verdi até o fim do fascismo.

Livre trânsito no mundo da música pop

Ao longo de sua carreira Morricone compôs canções para inúmeros artistas pop como Gianni Morandi (“Go Kart Twist”, 1962), Rita Pavone, Françoise Hardy (“Je Changerais d’avis”, 1966), Mireille Mathieu, Milva, Paul Anka, Demis Roussos, Zucchero, Pet Shop Boys, k.d. Lang, Andrea Bocelli, Sting e muitos mais.

Trabalhou como arranjador em centenas de discos, desde 1959 quando arranjou as músicas do disco “Mario!” de Mario Lanza, passando por Domenico Modugno, Achille Millo, Ornella Vanoni, Dino, Catherine Spaak e Sergio Endrigo.

A partir dos anos 70 Morricone começa a trabalhar com cineastas americanos, como foi o caso de John Boorman (“Exorcist II: The Heretic”, 1977, continuação de “O Exorcista” de 1973), Terrence Malik (“Cinzas No Paraíso”, 1978), Brian De Palma (“Os Intocáveis”, 1987, “Pecados de Guerra”, 1989 e Missão: Marte”, 2000) e Roland Joffé (“A Missão”, 1986).

“A Missão” se tornou uma das obras mais populares de Morricone, sendo que a música “Gabriel’s Oboe” foi regravada por vários artistas em todo o mundo. Esta trilha foi considerada a melhor de todos os tempos em uma pesquisa feita entre 40 compositores de cinema que incluiu Michael Giacchino e Carter Burwell.

Ao longo de toda sua carreira Morricone ainda encontrava tempo para a regência e costumava se apresentar por todo o planeta. Apenas em 2001 fez mais de 250 concertos.

Em 6 de julho de 2020 o maestro veio a falecer em Roma, alguns dias após sofrer uma queda onde quebrou o fêmur. Morricone deixou uma vastíssima obra que merece ser conhecida, repleta de preciosidades.

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