Padilha: garoto propaganda do imperialismo

Por João Silva

A série golpista da Netflix “O Mecanismo” perdeu um pouco dos holofotes da imprensa nos últimos dias devido aos acontecimentos do golpe envolvendo o ex-presidente Lula que agora se encontra preso na “Bastilha” da PF de Curitiba.

Mas eu gostaria de voltar ao tema. Acho que a repulsa generalizada à série se deve, principalmente ao conteúdo da série, mas grande parte deve-se ao diretor, José Padilha. Sua então “credibilidade” foi bastante atacada também. A série abertamente golpista ajuda a desmistificar esse diretor que até pouco tempo era visto por boa parte do público de esquerda e apresentado como um “grande diretor” de cinema. A qualidade extremamente precária da série orquestrada por Padilha revelou para muitos o que já era evidente em trabalhos anteriores do diretor, mas que por obra da imprensa e em parte pelo sucesso de “Tropa de Elite” ele alimentava essa ilusão. Padilha não passa de um cineasta medíocre que produziu seu sucesso basicamente resumido na figura de uma pessoa, o ator Wagner Moura.

Sua carreira começou com o bem intencionado ¨Ônibus 174¨ (BRA 2002), um documentário sobre o sequestro de um ônibus na Zona Sul do Rio de Janeiro que ficou conhecido pela exploração da imprensa que televisionou o acontecido até o assassinato do jovem Sandro Barbosa do Nascimento pela polícia. Pasmen, mas neste filme Padilha mostra as origens humildes do garoto vítima da PM.

Mas o jovem cineasta com algum aspiração esquerdista foi rapidamente cooptado pela direita ao realiza seu maior sucesso os dois ¨Tropa de Elite¨ (2007 e 2010). A partir daí ele se tornou um mero garoto propaganda da direita nacional e internacional. Ambos os filmes fazem uma apologia desmedida exaltando a violência policial no suposto combate ao crime. Mas digamos que de maneira, mais hábil que a apresentada em ¨O Mecanismo¨, tanto que foi defendido e até premiado pela esquerda. A pegadinha está na crítica, já há muito manjada da corrupção da Polícia Militar. A partir daí  ele apresenta a ¨solução¨,  um verdadeiro herói incorruptível , salvador da pátria, um policial diferente, vindo de uma corporação diferente, o Capitão Nascimento, do Bope. No primeiro filme é defendido abertamente a tortura policial feita nas favelas como algo absolutamente normal, e necessário. E o capitão combate os traficantes como se fosse um ¨Batman¨ das favelas cariocas.

No segundo filme aparece o elemento da corrupção estatal, dos políticos, envolvidos nos esquemas do tráfico, mais um combate ao crime. Supostamente uma crítica esquerdista, mas que nos traz de novo o ângulo da direita fascista de que nada presta, a política e os políticos não servem para nada. Como o herói novamente o Capitão Nascimento, imbatível, revelando as falcatruas por trás do crime. É bom lembrar que o tal Capitão Nascimento é o ator Wagner Moura que se tornou a razão de ser dos dois filmes. Vale lembrar também que foi com esses filmes que o diretor institui a mania de usar a narração em off dos protagonistas para fazer o discurso da direita durante a história do filme.

Após estes sucessos de bilheteria, o cineasta golpista, foi para os EUA dirigir uma nova versão do clássico Robocop (EUA 2014). O filme foi um fracasso. Novamente o diretor tem como herói um policial, também incorruptível que investiga a corrupção policial. Como o filme é um remake do original de ¨Robocop – O Policial do Futuro¨(EUA 1987) do diretor alemão Paul Verhoven. A versão de Padilha, não emplacou, pois tirou, para variar nessas refilmagens, a essência do clássico da década de 1980, que tinha o seu charme, humor negro, sátira e até em certa medida uma crítica à privatização da segurança. Já no filme de Padilha o herói fica completamente sem graça. O filme sem ritmo, sem roteiro, sem direção, sem ação, nada de novo. O próprio Verhoven comentou sobre a refilmagem,“De alguma forma, eles parecem achar a leveza de ¨O Vingador do Futuro¨ e ¨Robocop¨ um obstáculo. Aí eles pegam essas histórias absurdas e as levam muito a sério. Eu acho isso um erro (…) Eu não acho que isso ajude o filme em nenhum aspecto. Isso se torna mais bobo e absurdo, mas da forma errada. Ambos os filmes precisaram do distanciamento da sátira ou da comédia para estabelecê-lo para os espectadores. Fazê-lo sóbrio, sem humor nenhum, é um problema, não uma melhora”. Humor, como vimos em ¨O Mecanismo¨,  é raridade nos filmes de Padilha.

A empreitada seguinte foi o início da parceria com a Netflix. O seriado ¨Narcos¨, novamente com um policial honesto do Departamento de Narcóticos dos EUA à caça do traficante Pablo Escobar. O policial almofadinha e chato foi ofuscado pelo traficante que roubou a cena da série e se tornou o verdadeiro “herói”. Novamente Wagner Moura entrou em ação e fez um Pablo Escobar que justificava acompanhar a série. “Narcos” é abertamente pró imperialista mostrando uma versão falsa dos EUA como defensores da lei e da ordem. E manipulando fatos e acontecimentos do que de fato aconteceu, como revelou o filho do traficante depois do lançamento da série. Mas o Pablo Escobar de Wagner Moura salvou a série de ser enfadonha.

Já com ¨O Mecanismo¨, Padilha mostrou de fato o que é. Um mercenário que faz o que mandarem, pagando bem claro. A total falta de traquejo da série em fazer propaganda golpista em favor da Operação Lava Jato, às vésperas das eleições presidenciais, com o objetivo claro de atacar Lula e alimentar a ilusão de luta contra a corrupção quando o que está acontecendo no Brasil é uma operação para entregar o país para a exploração imperialista sem limites.

O próprio Padilha não esconde suas preferências políticas. Ele defende abertamente o Bope, a Lava Jato, faz parte do Instituo Milenium que é um aparato imperialista instalado no Brasil para fazer campanha golpista. E ao responder as críticas feitas à série mostrou que é um verdadeiro representante da direita golpista brasileira ao responder Dilma a respeito de crítica que ela fez à série,“‘O Mecanismo’ é uma obra-comentário. Na abertura de cada capítulo está escrito que os fatos estão dramatizados, se a Dilma soubesse ler, não estaríamos com esse problema”.  Defendeu a tese dos golpistas ao dizer  ¨[a Operação Lava Jato] Não tem viés político nenhum. É uma operação policial, ponto.¨.

Mas vem aí mais um peça de propaganda imperialista do diretor. Seu último filme que deve estrear no Brasil ainda este mês, ¨7 dias em Entebbe¨, sobre o sequestro de um avião por um grupo guerrilheiro alemão para salvar prisioneiros palestinos vai comprovar a tese. Não dá pra se aprofundar sobre o filme, mas pelo que li da repercussão internacional mantém a linha do diretor. Do ponto de vista técnico nada interessante e do ponto de vista político, uma propaganda em favor de Israel, contra os palestinos. Um tema bem a calhar para os dias de hoje. Padilha novamente prestando serviço ao imperialismo.