Trajetória Política de Mario Pedrosa

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A publicação de um livro sobre Mario Pedrosa e a Política é importante não somente para ressaltar a relevância de um personagem político, muitas vezes esquecido na história da esquerda brasileira, mas também como uma provocação para refletirmos sobre as alternativas políticas da esquerda num contexto de golpe de Estado.

Autor de livros sobre a história do PCB e do Trotskismo no Brasil, como a Luta subterrânea. O PCB em 1937-1938 e Na Contracorrente da História. Documentos do trotskismo brasileiro 1930-1940, este último em parceria com Fulvio Abramo , o pesquisador  Dainis karepovs,  lançou o livro Pas de Politique Mariô ! Mario Pedrosa e a Política, que trata do percurso político de um importante intelectual e militante político brasileiro, um dos fundadores do trotskismo no Brasil e na América Latina.

Um primeiro aspecto que chama atenção na obra é o fato que a biografia tem o mérito de ser bem documentada, com significativas referências a textos de Mario Pedrosa (enumerados no anexo do Livro), sendo que uma parte dos textos referidos comporia uma coletânea Escritos Políticos de Mario Pedrosa pela Editora Cosac Naiify, que estava sendo organizada pelo próprio Dainis karepovs e pela professora Isabel Loureiro, mas devido a falência da editora não foi publicada. O texto desenvolvido no livro Pas de Politique Mariô foi projetado inicialmente como a introdução da coletânea não publicada. Espera-se que no futuro próximo essa coletânea possa ser publicada por outra editora.

O livro é divido em duas partes.  Na primeira parte, Mario Pedrosa  e a Política é apresentada a trajetória  política e a segunda parte, Mario Pedrosa sob o olhar emocionado de seus companheiros, são expostos depoimentos.

Mario Pedrosa nasceu em 25 de abril de 1900 em Timbaúba, Pernambuco, filho Senador Federal Pedro de Cunha Pedrosa, apesar de formado em Direito, exerceu a profissão de jornalista, e crítico de arte, entrou no Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1925.

Na introdução do Livro, o autor Dainis karepovs apresenta uma síntese da trajetória de Mario Pedrosa, trecho que reproduzimos abaixo:

“Em 1927, foi enviado pelo partido para frequentar a Escola Leninista Internacional, em Moscou. Adoeceu em Berlim e, com as notícias das disputas entre Leon Trotsky e José Stalin, resolveu não seguir viagem. Aprofundando-se nos termos da disputa, pôs ao lado do primeiro e aderiu à oposição de Esquerda Internacional e retornou ao Brasil em 1929 para agrupar os camaradas dissidentes do PCB e criar a Oposição de Esquerda no Brasil. A parti daí, tem uma longa trajetória de militância política nas fileiras dos partidários brasileiros de Trotsky, que o levou ao exilio em 1938, na França. Aí participou, em setembro, do congresso de fundação da IV Internacional como único delegado da América Latina e foi eleito membro da direção da nova organização(…) Em 1940, rompeu com Trotsky por conta da caracterização da URSS como Estado Operário. (…) Com o fim da Segunda Guerra Mundial, retornou ao Brasil e fundou o jornal Vanguarda Socialista. Em 1946, criou a secção de artes plásticas do Correio da Manhã. Em 1948, ingressou no Partido Socialista Brasileiro, sendo dele expulso em 1956. (…). Logo após o golpe militar de 1964, escreveu duas obras, A opção Brasileira e A Oposição Imperialista. Em 1970, foi acusado pela ditadura de difamar o Brasil com denúncias de Tortura no exterior. Refugiou-se na embaixada do Chile e pediu asilo. Com o golpe de 1973, pediu asilo na embaixada do México. Em seguida, exilou-se na França, de onde retornou em 1977, com a revogação da ordem de prisão. Em 1978, participou do Congresso da Anistia, organizou exposições; lançou livros: participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, sendo o seu filiado número um, faleceu em 5 de novembro de 1981.” (karepovs,2017, P.30-31)

Trajetória Política de Mario Pedrosa

Os capítulos mais interessantes são os dois primeiros ( 1. O Militante Comunista e 2. Nas sendas de Leon Trotsky), que descrevem a fase mais lembrada da vida política de Mario Pedrosa, como iniciador do movimento trotskista no Brasil. São apresentados os momentos mais conhecidos da militância de Pedrosa, sendo que são descritos episódios mais relevantes no cenário nacional e internacional, abordando a crise dos anos 20, a irrupção da Revolução de 30 e seus desdobramentos, bem como a luta revolucionária a partir da Revolução Russa e seu impacto no Brasil, com a criação do PCB.

Mario Pedrosa foi um militante proeminente na constituição das primeiras organizações trotskistas no país, foi fundador junto com Aristides Lobo e Plínio Gomes de Mello do Grupo Comunista Lenin (GCL) que publicava o jornal Luta de Classes, posteriormente com outros dissidentes do PCB e militantes sindicais fundaram a Liga Comunista Internacionalista ( LCI) e depois do Partido Operário- leninista (POL). Entre os militantes trotskistas destacam-se Lívio Xavier, o poeta surrealista francês Benjamim Péret, jornalista Fúlvio Abramo, os líderes sindicais gráficos Manoel Medeiros e João da Costa Pimenta (mencionado por Dainis karepovs no Livro Contra-corrente da História)

Os Agrupamentos trotskistas, apesar de pequenos, tiveram papel destacado na divulgação do marxismo (com tradução de textos, especial dos clássicos Marx, Lenin e Trotsky). A Editora Unitas criada no período teve um desempenho saliente na introdução das obras marxistas e de Leon Trotsky no Brasil. A publicação em 1933, da obra Revolução e Contrarevolução na Alemanha, traduzida pelo Mario Pedrosa cumpriu um papel relevante no esclarecimento da importância da luta antifascista no Brasil.

Inclusive, uma das contribuições fundamentais do Trotskismo e de Mario Pedrosa em particular no Brasil foi exatamente colocar em relevo a importância da luta antifascista. Isso é importante de ser salientado, pois existe uma visão equivocada que o Trotskismo seria diversionista, na verdade a política adotada pelos militantes trotskistas era a constituição de uma frente única contra a direita, pressionando o PCB para aderir a essa luta conjunta. É importante assinalar, que a análise da luta pela Frente única é de extrema atualidade na luta contra os golpistas hoje no Brasil.

Na época, o exilado italiano, Goffredo Rosini criou o jornal o Homem Livre, para defender a unidade política das organizações populares e operárias contra o fascismo.  A criação da Frente única Antifascista( FUA), integrada pelas organizações políticas e sindicais foi uma expressão dessa política que tinha Mario Pedrosa e os trotskistas como fomentadores.

“ A Frente Única Antifascista começou a ser constituída no comício em memória do nono aniversário do assassinato de Giacomo Matteotti ( socialista italiano assassinado a mando de Mussolini), realizado em junho 1933 na sede da União dos Trabalhadores Gráficos de São Paulo. Aí, Aristides Lobo, em nome da Liga Comunista, propôs a formação da FUA” ( idem, p.59).

Essa luta antifascista teve um episódio marcante, que ficou conhecido como “ A revoada dos Galinhas Verdes” , quando os militantes da FUA botaram para correr literalmente os integralistas, fascistas brasileiros seguidores de Plínio Salgado, em um comício na Praça da Sé ( cidade de São Paulo) no dia 7 de outubro de 1934. Neste dia, Mario Pedrosa foi um dos principais organizadores, demonstrando que não somente era um intelectual engajado, mas um organizador militante. Para “narrar o estado de espírito de Pedrosa naquela ocasião” , Dainis karepovs cita um depoimento de Fluvio Abramo:

“ Na militância comum com Mario Pedrosa, sabia-o homem de pensamento e ação, numa conjunção de qualidades não muito frequentes. Mas Mario realmente surpreendia. O seu entusiasmo por estar na linha de frente da luta antifascista e por dar mais uma demonstração de que a condição de trotskistas era legítima expressão do espírito revolucionário transparecia no seu sorriso entre exultante e irônico “ ( idem, p63)

Um outro mérito do texto de Dainis karepovs é o fato de apresentar de maneira abrangente a atuação política Mario Pedrosa, não se limitando aos anos 1930.  Entretanto, ao expor o desenvolvimento político de Mario Pedrosa depois do rompimento com o trotskismo, o livro lança luz sobre como os deslocamentos políticos de Mario Pedrosa e de uma parcela da militância socialista, em especial dos ex- trotskistas levará a completa confusão política.

Nos capítulo 3 Vanguarda socialista: pelo socialismo democrático e no capitulo 4 O PSB: um socialismo imponente em uma Democracia Imatura, as posições políticas de Mario Pedrosa em nome da ” liberdade” contra o bonapartismo getulista levará ao extremo de apoiar os candidatos da direita em praticamente todas as eleições entre 1945 e 1964 ( Eduardo Gomes, Juarez Távora e Jânio Quadros).

O stalinismo defendia aliança com a burguesia nacional, em diversos países em nome da ” democracia ” e da ” Paz Mundial”.  No Brasil em 1945, o PCB estabeleceu  uma política de aliança com Getúlio, expresso na palavra de ordem ” constituinte com Getúlio”, posteriormente nos anos 50, os stalinistas adotaram a política sectária de igualar os getulistas com o imperialismo americano e combater Getúlio como eixo central. Enquanto os setores da classe média e grupos de socialistas democráticos tiveram uma evolução política confusa,  fretando com um setor supostamente “liberal” da direita. Em nome do combate contra o ” autoritarismo” varguista participaram inicialmente da criação da UDN( depois afastaram-se ). Nas eleições de 1945, Mario Pedrosa e todos estes setores da esquerda democrática formaram um bloco ” pelas liberdades democráticas”  com a direita em torno do candidato da UDN, Eduardo Gomes.

Essas posições de combate das forças nacionalistas como inimigo principal no Brasil, colidem com as posições defendidas por Leon Trotsky em relação ao nacionalismo em países atrasados. Nos anos 30, Trotsky apoiou a estatização do Petróleo realizado pelo governo Cardenas no México. Uma síntese da questão foi dada pela conhecida afirmação de que em caso de guerra entre a Inglaterra, o pais opressor imperialista ” democrata” contra o Brasil do fascista Getúlio Vargas,o  correto é em fazer frente única com o nacionalista autoritário de um pais atrasado contra as forças  ” democratas” de um pais imperialista. Isso porque o critério não era a ” democracia” versus o autoritarismo, mas adoção de um critério de classe, ou seja ficar ao lado do pais oprimido contra um pais imperialista.

Uma das principais contribuições teóricas de Mario Pedrosa foi a tentativa de uma interpretação não esquemática da realidade brasileira, utilizando o método marxista de maneira criativa para entender o Brasil e as tarefas colocadas para os revolucionários, inclusive um entendimento do significado contraditório da formação nacional e  da Revolução de 30. Assim, Textos como Esboço de uma análise da situação econômica e social do Brasil, escrita por Mario Pedrosa e Livio Xavier ; A situação brasileira e o trabalho para seu esclarecimento de Aristides Lobo e Projeto de Tese sobre a situação nacional. Estas análises são a  expressão  do esforço realizado por Pedrosa e os primeiros trotskistas brasileiros para conhecer e atuar no Brasil. ( os textos estão disponíveis no Livro Contracorrente da História).

O que é apresentada como a fase não dogmática de Mario Pedrosa , os anos 40 e 50 é justamente a repetição de uma cantilena por ” democracia ” e ” liberdade” apresentado com sendo um ” socialismo democrático” ou ” luxemburguismo”. Assim, ao negar o caráter operário da URSS, na controvérsia com Trotsky, levará Mario Pedrosa a identificar os conflitos entre EUA e URSS como a expressão de uma luta entre diferentes imperialismos. No caso brasileiro, o que antes era uma caracterização política ( Getulismo como bonapartismo) irá se transformar em uma acusação moral contra Getúlio. ( Não por acaso, durante esta fase  a imprensa de Carlos Lacerda e a família Mesquita tinham Mario Pedrosa como colunista permanente )

De qualquer forma, a análise da atuação política de Mario Pedrosa é sempre instrutiva. Assim, entender os equívocos conceituais e sobretudo políticos da fase Vanguarda Socialista e posteriormente do PSB de Mario Pedrosa serve para entender os descaminhos da esquerda nacional diante da complexidade de temas contraditórios como o nacionalismo em países atrasados, e no caso brasileiro como caracterizar e atuar diante do Getulismo.

A partir do golpe de 64, Mario Pedrosa atuou de maneira corajosa, apesar da idade avançada,foi destacado opositor da ditadura militar, sendo obrigado a partir para o exílio. No final dos anos 70, ao retornar ao Brasil teve uma atuação marcante no movimento pela Anistia e no processo que levará a criação do PT. Pedrosa liderou a aproximação de intelectuais ilustres como Antonio Cândido, Sergio Buarque de Holanda, entre outros com o projeto de criação de um Partido dos Trabalhadores.

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No depoimento de Luis Inácio Lula da Silva sobre Mario Pedrosa, publicado na coletânea Mario Pedrosa e o Brasil (Perseu Abramo, 2001) é destacado a importância dos textos e da intervenção de Pedrosa nos debates em defesa da criação do PT. A celebre carta de Mario Pedrosa a Lula em 1978 (carta a um líder operário) teve impacto como elemento de legitimação política da importância da criação de um partido de trabalhadores pelos próprios trabalhadores.

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