Na Argentina também foi golpe

Compartilhar:

Em novembro de 2015, Mauricio Macri venceu as eleições presidenciais argentinas. A direita tomou o poder por meio do voto enquanto no resto do continente governos nacionalistas burgueses sofriam tentativas de golpe da direita a serviço do imperialismo. O caminho da direita até o poder na Argentina parecia ter sido diferente do que seria, por exemplo, no Brasil. Teria sido uma vitória democrática, uma simples e ordinária vitória eleitoral, por dentro das regras.

No entanto, o que houve na Argentina também foi um golpe. A vitória eleitoral de Macri veio como resultado de uma intensa e contínua campanha do conjunto da imprensa burguesa contra o governo de Cristina Kirchner, campanha que acabou enfraquecendo a candidatura de seu sucessor, Daniel Scioli. Antes disso, a direita agiu nos bastidores para rachar a base de apoio do governo. Sergio Massa, que ficou com 21% dos votos no primeiro turno naquelas eleições, até 2009 era parte do governo. Além disso, a Frente de Esquerda, que terminou o primeiro turno com mais de 800 mil votos, chamou o voto nulo no segundo turno, que acabou com uma diferença apertada de menos de 700 mil votos em favor de Macri.

Com todas essas manobras organizadas pela direita e coordenadas pelo imperialismo, a direita acabou vencendo as eleições por uma margem apertada. Kirchner era vítima da mesma campanha que o PT no Brasil, com uma chuva de acusações de corrupção repercutidas diariamente pelo jornais de maior tiragem no país, canais de TV e de rádio. Aliada à campanha “contra a corrupção” da imprensa, a direita montou também uma operação de perseguição contra o governo kirchnerista dentro do Judiciário.

Da mesma forma que em Honduras, Paraguai, Brasil, Venezuela, Equador e Bolívia, o imperialismo precisa se livrar do nacionalismo burguês na Argentina para conseguir implementar um programa neoliberal. Um programa mais drástico do que já foi implementado na década de 90.

O nacionalismo burguês, que se apoia nos trabalhadores e na burguesia nacional e procura uma conciliação com o imperialismo nos países atrasados, tornou-se um obstáculo para a política do imperialismo. Não é possível nenhuma conciliação diante do aprofundamento da crise do capitalismo. O programa que pretendem impor aos países atrasados no mundo inteiro é de completa liquidação do patrimônio público, fim dos gastos públicos, dos direitos trabalhistas, diminuição dos salários, ataques às organizações operárias e aos movimentos sociais. As medidas do governo golpista de Michel Temer tomadas até agora dão um pequeno vislumbre da desgraça que a direita está organizando para os trabalhadores.

É esse programa, inviável eleitoralmente contra o nacionalismo burguês, que está por trás dos golpes planejados pelo imperialismo no conjunto dos países atrasados. Um programa que não pode conviver com eleições normais, por isso a oposição precisa ser perseguida e destruída. Um programa que enfrentará inevitavelmente resistência popular. Por isso as organizações operárias serão atacadas, e a oposição parlamentar, reformista, moderada, será perseguida e destruída.

Os acontecimentos dessa semana na Argentina demonstram mais uma vez a contradição entre imperialismo e nacionalismo burguês no continente, e o golpe em curso para controlar a América Latina. Cristina Kirchner é a candidata mais forte para as eleições presidenciais de 2019, contra Macri. Quinta-feira (7) um juiz federal pediu a prisão da ex-presidente. Claudio Bonadio, o Moro argentino, acusa Kirchner de “traição à pátria”. Um crime que só poderia ser praticado se o país estivesse em guerra.

Para fabricar essa acusação, Bonadio considerou os atentados contra a embaixada israelense em Buenos Aires, em 1992, e à AMIA, em 1994, como “atos de guerra”. Com isso, considera um crime o acordo assinado entre Irã e Argentina em 2013, um Memorando de Entendimento, estabelecido como uma cooperação para concluir as investigações relativas aos atentados da década de 90.

Argentina e Irã não estão em guerra. Bonadio considerou os atentados, do começo da década de 90, “atos de guerra” para acusar Kirchner de “traição à pátria” por uma política de Estado aprovada pelo Congresso em 2013, proposta por um governo eleito. A arbitrariedade é completa e lembra a República de Curitiba.

Tanto no Brasil como na Argentina, o regime político, controlado pela direita e pelo imperialismo, precisa expurgar a classe trabalhadora de qualquer participação política. A massa dos trabalhadores reconhece hoje o nacionalismo burguês como seu representante parlamentar. O regime não pode mais conviver com essa escolha eleitoral. Para concluir o golpe, a direita, depois de tomar o governo, está perseguindo a oposição e pretende esmagá-la.

Rascunho automático 67

Esse é o sentido da perseguição contra Lula no Brasil, e contra Kirchner na Argentina. Querem colocar na cadeia os candidatos em quem o povo quer votar. Junto com eles, é a própria vontade popular que será colocada atrás das grades se a direita golpista não for derrotada.

artigo Anterior

Campanha salarial traída nos Correios ainda gera desconto nos salários

Próximo artigo

Mulher é presa por falar o que pensa nas redes sociais

Leia mais

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: