Os “bons” militares que sequestraram 500 bebês na Argentina

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A propósito do golpe militar iminente no Brasil, depois de inúmeras declarações de comandantes, generais e outros militares de alta patente do Exército, gostaria de refletir a respeito dos efeitos de um regime militar.

Para exemplificar falarei de um filme argentino chamado “Cautiva”, produção de 2005 do diretor Gaston Biraben. O tema do filme é o sequestro de bebês de militantes presos pelos militares.

A ditadura argentina é um bom exemplo de como os militares no poder podem arrasar um país. A ditadura no país durou de 1976 a 1983, a repressão militar deixou o desaparecimento ou morte de cerca de 30 mil pessoas. Era uma máquina de torturar e matar pessoas. Hoje já é de conhecimento que existiam no centro da capital Buenos Aires dezenas de casas que serviam como centros de detenção clandestina.

A dimensão de 30 mil pessoas é algo para se refletir. É o mesmo que a população de algumas cidades inteiras do interior de São Paulo como Serra Negra, Jaguariúna e Ilha Bela. 30 mil pessoas em sete anos de ditadura é o mesmo que 4.285  pessoas mortas por ano ou 12 pessoas por dia. Se a ditadura argentina durasse os mesmos 21 anos da ditadura brasileira teriam sido mortas mais de 90 mil pessoas, proporcionalmente. Vale ressaltar que não foram mortas em massa, por doença, ou todas de uma vez, mas mortas quase que de uma a uma.

Os militares prenderam milhares de pessoas nesses centros de detenção. Muitas mulheres estavam grávidas e foram torturadas nessas condições. Na prisão, as mulheres tiveram filhos e estes bebês foram entregues para família de militares e de policiais ligados ao regime. Hoje já foi provado que durante a ditadura argentina existia um grupo dedicado a roubar bebês e crianças de presos e militantes políticos e entregá-los a famílias ligadas aos militares. Existiam clínicas de parto clandestinas e os bebês recebiam registros falsos de adoção ou mesmo registro. Há relatos de enfermeiras que participaram dos partos que disseram que as mães ficavam muitas vezes amarradas e vendadas. Depois do parto recebiam injeção para cortar o leite materno. E muitas delas  após o nascimento dos bebês eram mortas. Muitos dos bebês foram parar em casas de militares torturadores dos pais da criança.

Um dado interessante é que o sequestro de bebês não aconteceu somente na ditadura argentina, mas nas ditaduras do Chile, Uruguai e também no Brasil. O caso argentino é o mais conhecido, pois há todo um movimento social na argentina que pressionou o governo para investigar os sequestros. O movimento das “Avós da praça de Maio” já constatou 500 bebês sequestrados durante a ditadura. Até hoje apenas 149 foram identificados. Muitos dos acusados de sequestro também foram condenados e presos. Este também é um fator importante que aconteceu na Argentina depois da ditadura. O julgamento dos fascistas e torturadores. Coisa que não houve no Brasil por causa da lei de Anistia e que permitiu que militares que participaram do regime militar integrassem governos após 1985.

O filme “Cautiva” conta uma história real de uma adolescente de 16 anos, chamada Cristina Quadri, que descobre que é filha de militantes políticos desaparecidos durante a ditadura argentina, nos anos 1970. Ela descobre de uma maneira bastante peculiar. Ela está na escola e é chamada para conversar com um juiz que revela a ela que seu verdadeiro nome é Sofia Lombardi e que o casal com quem mora desde bebê, um policial e sua esposa, não são seus verdadeiros pais.

À medida que Sofia descobre o ocorrido ela encontra outras pessoas na mesma situação e começa desvendar toda uma série de podres envolvendo os militares.  Pelo fato de ser um filme de ficção, muito bem feito por sinal, o drama em Cautiva é bem acentuado o que aproxima quem está assistindo da história.

Para quem desdenha das atrocidades que um regime militar possa cometer “Cautiva” pode ser bastante esclarecedor. Recomendo também, para quem tiver interesse em se aprofundar no tema tem o documentário “500 – Os Bebês Roubados pela Ditadura Argentina”.

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