A suspensão da greve nacional e a crise da esquerda e do movimento sindical

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Poucas  horas depois do anúncio feito pelo governo e a Câmara dos Deputados golpistas de que adiariam a votação da famigerada reforma da Previdência prevista inicialmente para esta semana e, no dia seguinte à reunião com o presidente golpista da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a CUT e demais “centrais” legalizadas anunciaram a suspensão da greve nacional convocada para esta terça, dia 5.

Como anunciou o site da Força Sindical, “participaram do encontro [com Maia] presidentes de centrais aliadas ao governo, como a Força Sindical, e oposicionistas, como a CUT (Central Única dos Trabalhadores)” . Sindicalistas mais reacionários procuraram apresentar o adiamento da votação como resultado da sua pressão sobre o deputado do DEM e o governo. Segundo Paulinho da Força (SD-SP), presidente da Força Sindical, “colocamos ao Rodrigo Maia que a votação da reforma da Previdência vai trazer radicalização do povo brasileiro contra o Congresso Nacional”.

Vitória?

O próprio presidente golpista da Câmara admitiu que o governo está sem votos suficientes para aprovar a reforma da Previdência. A imprensa golpista anunciou que Maia sequer sabe se será possível prever uma data para a votação da reforma, já que não colocará a matéria até que fique claro que o governo golpista já tem os 308 votos necessários para a aprovação. A cada semana, o governo Temer anuncia novas articulações, para colocar em votação o fim das aposentadorias, mas se vê seguidamente obrigado a recuar diante da crescente rejeição do governo Temer e de suas “reformas”. Isso levou, por exemplo, o PSDB a recuar do apoio integral à “reforma” diante da esmagadora rejeição popular.

Alguns sindicalistas de esquerda procuram apresentar que o recuo foi uma “vitória” e resultado da “pressão do movimento sindical”. No entanto era visível que as direções sindicais, na quase totalidade dos casos, estavam organizando não um enfrentamento com a reforma, mas uma espécie de velório das aposentadorias, da mesma forma como foi feito com a entrada em vigor da reforma trabalhista, no dia 11 de novembro, quando foram convocados atos minoritários, de ativistas e dirigentes – e contratados das centrais “aliadas do governo” – que ajudaram a aprovar a reforma, para a véspera, para aparentar que havia uma luta real contra o maior ataque contra as leis trabalhistas de todos os tempos.

O adiamento mostrou, obviamente, um recuo temporário dos golpistas, mas que, de forma alguma, deixa o problema resolvido; como destacou o secretário-Geral da CUT, Sérgio Nobre, “eles podem colocar a proposta em votação já na semana de 11 a 15 de dezembro e temos de estar preparados para isso”. Para se tornar definitivo precisaria ser enfrentado com uma mobilização real da classe operária e  de suas organizações, contra o golpe de Estado e suas “reformas”. E o adiamento em nada ajuda neste sentido, uma vez que se conteve uma mobilização que estava avançando, com paralisações sendo aprovadas em diversas categorias importantes como os metroviários de São Paulo. Mesmo com os chamados a manter a “pressão”, como o realizado pela presidente da CUT Vagner Freitas: “vamos continuar mobilizados, pressionando os parlamentares e preparando os trabalhadores e as trabalhadoras para a greve. A luta continua”.

Sem luta contra o golpe não há luta contra as “reformas”

As experiências recentes dos trabalhadores, como as derrotas na luta contra a PEC 55, que congelou gastos públicos por 20 anos, a destruidora “reforma” do ensino médio, a aprovação da terceirização e da “reforma” trabalhista,  comprovaram na base da exaustão que não há possibilidade de derrotar os golpistas em lutas parciais e isoladas. Que é preciso uma luta geral unificada que tenha como eixo a luta contra o golpe, para colocar abaixo o regime reacionário e antioperário estabelecido após a derrubada da presidenta Dilma Rousseff.

O que há por trás da dificuldade de se aprovar a reforma é justamente seu caráter antipopular. Temer não consegue coesão para aprovar a medida porque sua base responde a interesses regionais específicos que a todo o momento estão em contradição entre si. A proximidade das eleições só deve agravar esse problema.

O recuo, ao menos temporário, do governo golpista é fruto, portanto, da pressão popular, da qual as milhares de atividades realizadas pelos sindicatos, pincipalmente, cutistas. A extrema impopularidade do governo golpista e de suas medidas estão colocando não apenas o próprio governo, mas todo o regime político que se formou com o golpe, em uma profunda crise.

Essa situação reflete a falência do governo golpista de Temer, que tem como razão de existência a imposição destas e de outras medidas de destruição das condições de vida e de trabalho da imensa maioria da população e da economia nacional. E  é um dos motivos pelos quais o golpe militar é uma das alternativas cada dia mais possível e provável. A impopularidade do governo é tão grande que dificulta ou até impossibilita que qualquer um dos planos dos golpistas seja colocado em prática.

O quadro se agrava ainda mais com as reais chances de Lula de vencer as eleições, como candidato que expressa a rejeição ao golpe e às suas “reformas”; o que torna necessário para direita impedir sua candidatura e, se necessário, as eleições.

Parar se for votar

O recuo, defendido desde sempre pelas “centrais” aliadas do governo, gerou uma crise real no interior da CUT, onde havia uma mobilização limitada, mas real em várias categorias, como também motivou a que setores da esquerda que comungam da política de “unidade” com os pelegos da Força Sindical e outros “aliados do governo”, fura-greves e sabotadores profissionais.

A CTB – dirigida pelo PCdoB e PSB -, depois de assinar a nota conjunta das “centrais” cancelando a “greve nacional”, publicou nota afirmando que “sempre defendeu e defenderá a unidade das centrais sindicais”, mas que “discordamos profundamente” da “posição adotada pela maioria das Centrais”.

“Centrais” minúsculas também buscaram aparecer como críticos da suspensão. A Intersindical – do PSOL -, informou em Nota, “que não participou da decisão de cancelamento da greve geral”. Já a Conlutas – do PSTU -, em sua Nota Oficial, seguiu um caminho semelhante, anunciando que “fomos surpreendidos com a desmarcação da Greve Nacional”, para – ao final – endossar a política anterior que justificou o adiamento, ao afirmar que “se quiserem votar, o Brasil vai parar!”, ou seja, defendendo que só haja greve, se houver votação. Tal e qual destacado ao final da nota da CUT “se marcar a votação, o Brasil vai parar”, diz o dirigente.

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