“Manhã Cinzenta” : o filme que condenou um cineasta

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Na coluna desta semana irei falar do ótimo filme “Manhã Cinzenta”, documentário em curta-metragem dirigido pelo cineasta brasileiro Olney São Paulo. A propósito do tema “O Cinema e o Golpe Militar”. 

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Antes de entrarmos no tom premonitório do filme vamos à história. Trata-se de um roteiro baseado em conto homônimo de Olney São Paulo. É um documentário um pouco diferente. Mistura documentário, poesia, alegoria e até ficção-científica.  No filme aparecem atores encenando em meio a narração com imagens históricas.  Mostra a ditadura militar num país fictício da América Latina. A história é simples, um casal de estudantes que segue para uma passeata onde o rapaz, um militante, lidera um comício. Depois a polícia chega e eles são presos, levados à prisão e torturados. Ainda na prisão respondem a um inquérito comandado por um robô (!) e um cérebro eletrônico, uma espécie de super computador.

O filme foi gravado em 1968, nas ruas acompanhando algumas manifestações que aconteceram neste ano. Aparecem manifestações estudantis e de trabalhadores. Ele tem um formato bastante moderno para a época, com uma edição não linear, montagem ágil. enquadramentos pouco convencionais. Um filme brasileiro bem atípico.

Mas, “Manhã Cinzenta” tem uma história fora das telas que também chama a atenção. É como se o filme fosse uma premonição. 

Em 8 de outubro de 1969, a obra do cineasta foi exibida durante um voo sequestrado pela organização MR-8 que foi desviado para Cuba. Durante o sequestro a película foi apresentada para os passageiros como “um filme de um patriota brasileiro”. Soube-se depois que entre os sequestradores havia um cineclubista, na verdade era um membro da diretoria da Federação Carioca de Cineclubistas, a qual era presidida na época pelo cineasta Sílvio Tendler. A cópia que foi exibida a bordo do voo sequestrado foi adquirida em um desses cineclubes. 

"Manhã Cinzenta" : o filme que condenou um cineasta
Cena de “Manhã Cinzenta”

O fato chegou ao conhecimento da cúpula militar que por esse motivo fez com que Olney São Paulo fosse acusado de ligação com os revolucionários que sequestraram o avião. A ignorância típica dos militares resultou na prisão de Olney. Ele foi levado para local desconhecido e ficou incomunicável por quase duas semanas. Durante esse período foi violentamente torturado. Em 5 de dezembro de 1969 foi internado com suspeita de pneumonia dupla. Ainda em 25 de dezembro voltou ao hospital debilitado psíquica e fisicamente. 

Em 13 de janeiro de 1972, o Superior Tribunal Militar absolveu o cineasta das acusações de subversão relacionadas ao filme, mas as sequelas permaneceram.

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Cosme Alves Netto, o guardião do filme de Olney São Paulo

Com essa perseguição o filme foi censurado e as cópias de “Manhã Cinzenta” foram todas confiscadas e destruídas pelos militares. Mas por sorte uma dessas cópias foram guardadas por mais de 25 anos pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, pelo seu diretor, Cosme Alves Netto, um verdadeiro guardião de várias obras cinematográficas perseguidas durante a ditadura.

Há especulações de que “Manhã Cinzenta” seria uma parte de 3 de um projeto do diretor Olney São Paulo, mas com a censura e sua prisão ele desistiu da empreitada.

Mas apesar da proibição do filme no Brasil ele teve carreira internacional. Além de ser exibido em Cuba por causa do sequestro do avião, “Manhã Cinzenta” foi exibido no Festival de Pesaro, na Itália, no Festival Internacional de Cinema de Viña del Mar e até em Cannes, em 1970 na seção Quinzena de Realizadores. Ainda ganhou dois prêmios. Um no Festival de Cinema de Oberhausen na Alemanha, em 1972 e como melhor média-metragem na XIX Semana Internacional de Mannheim.

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Olney São Paulo, morto pela ditadura por fazer um filme

Olney era um baiano da cidade de Riachão do Jacuípe. Pai dos atores, Ilya e Irwing São Paulo, do poeta Olney São Paulo Jr e de Maria Pilar. Era casado com a cineasta Maria Augusta. As sequelas da tortura que sofreu fez com que Olney passasse anos doente. Ele morreu em 1978, muito jovem, aos 41 anos, em decorrência da tortura violentíssima que resultou num câncer no pulmão. 

A história por trás de “Manhã Cinzenta” gerou a produção de outros filmes, dois deles dirigidos pelo cineasta Henrique Dantas, fã confesso de Olney São Paulo.

Um deles é o curta-metragem,  “Sertão Cinzento”, que resgata a história de “Manhã Cinzenta” e recolhe depoimentos de pessoas que participaram da produção do filme e de conhecidos de Olney.

O outro filme de Henrique Dantas é o longa-metragem “Sinais de Cinza, a Peleja de Olney contra o Dragão da Maldade” que já é uma cinebiografia deste importante cineasta. 

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