Se Auschwitz fosse administrado por mulheres, Mídia Ninja apoiaria?

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A representatividade é uma armadilha tradicional da política burguesa. Começando pelo próprio voto nos regimes chamados de “democráticos”. Cada pessoa tem direito a colocar seu voto na urna no dia das eleições, participando da escolha de quem vai exercer cargos legislativos e executivos, o que garantiria a participação popular no Estado burguês por meio da “representação”. Segundo a burguesia, o voto representaria a vontade popular.

Rascunho automático 67

Na mitologia burguesa do Estado, em última instância é o próprio povo que exerce o poder e o Estado pertence ao conjunto da população. Trata-se, claro, de uma completa farsa. O povo não decide nada, a burguesia controla as eleições usando o dinheiro, e se o resultado eleitoral escapa demais ao controle, o governo eleito toma um golpe e cai.

O dinheiro é usado também para distorcer a “representação” em outros terrenos. Como no caso de setores oprimidos da população, por exemplo os negros e as mulheres. A burguesia faz a propaganda de que mais deputadas burguesas transformariam a sociedade favoravelmente às mulheres.

Infelizmente, as amostras dessa política na prática não são particularmente animadoras. Sob o Estado burguês, “representantes” mulheres não são necessariamente defensoras dos direitos das mulheres em geral. Na França, a extrema-direita é liderada por uma mulher, Marine Le Pen. Na Alemanha, um dos principais quadros da AfD no Parlamento é uma banqueira lésbica, Alice Weidel. Nos dois casos, a política desses partidos é contrária aos interesses das mulheres, dos setores oprimidos em geral e dos trabalhadores.

Um exemplo um pouco mais antigo e mais contundente é o de Margaret Thatcher, pioneira do neoliberalismo nos países imperialistas, depois do “laboratório” da ditadura de Pinochet no Chile. A política neoliberal de Thatcher não beneficiava as mulheres, e o fato de que ela era mulher não tornava o programa neoliberal implementado durante seu governo mais representativo das mulheres ou dos interesses das mulheres. Pelo contrário, era um governo mais ferrenhamente comprometido com os interesses de uma pequena minoria de ricos.

Portanto, a mera “representatividade” pode ser uma completa farsa, como é o próprio voto nas eleições. Essa representatividade pode ser fabricada por meio do dinheiro. Seja na política do Estado burguês, seja em outras instituições da burguesia. Esse é o caso também do próximo Fórum Econômico Mundial. Todo ano, em Davos, na Suíça, os capitalistas, por meio de seus governos e bancos, discutem como vão conduzir a economia global. Na edição de janeiro do ano que vem, a discussão sobre como esfolar os trabalhadores mundialmente de forma mais eficiente diante da crise será conduzida por mulheres.

De novo, isso não quer dizer que o Fórum Econômico Mundial defenderá os interesses das mulheres em geral. Em Davos, os abutres capitalistas se reúnem para decidir como esmagar a classe operária e atacar suas condições de vida. A natureza do Fórum de Davos, no entanto, não impediu a Mídia Ninja de comemorar a novidade de que mulheres vão conduzir o debate em sua página no Facebook. A postagem posteriormente foi apagada, mas internautas salvaram em imagem a publicação. Segundo a Mídia Ninja, “mesmo com o viés liberal” de Davos, a presença de mulheres conduzindo os debates seria “um importante avanço do papel da mulher no planeta e na economia mundial”.

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A ideia de que Davos poderia trazer algum progresso para as mulheres, defendida na postagem apagada pela Mídia Ninja, é totalmente falsa. É fruto da crença de que a representação fabricada pela burguesia de fato representa alguém. O programa político de Davos é um programa de miséria para a esmagadora maioria das pessoas em todo o mundo, com consequências piores ainda para as mulheres, em benefício das grandes multinacionais e dos países imperialistas.

Embora o Fórum agora esteja em crise por causa da vitória de Trump nos EUA, ele sempre representou o neoliberalismo e a abertura dos mercados dos países atrasados. É nesse Fórum que a Mídia Ninja procurou jogar uma luz positiva. O Fórum planeja como saquear países inteiros e esmagar os trabalhadores? Não tem problema, porque o Fórum tem “representatividade feminina”.

Essa ideia de representatividade é muito conveniente para a burguesia. Sem a defesa de um programa concreto, mas apenas da “representatividade”, o caminho está livre para os capitalistas comprarem e cooptarem seus próprios “representantes” de setores oprimidos, como fazem no Parlamento e em outros âmbitos. Uma Rede Globo, por exemplo, pode defender a polícia racista por meio de um apresentador negro atrás da bancada do jornal. Um  Fórum de Davos pode definir políticas que vão penalizar mulheres no mundo todo, em especial nos países pobres, com mulheres conduzindo a melhor forma de fazer isso e a melhor forma de apresentar essa política demagogicamente.

No fim das contas, a “representatividade” serve para defender qualquer política em nome de setores oprimidos. O Estado burguês levaria adiante a política do conjunto da população, definida nas eleições. Instituições administradas por mulheres seriam representativas dos interesses das mulheres. O governo Thatcher teria sido um progresso para as mulheres.

Até a participação de guardas femininas nos campos de concentração nazistas seriam um progresso para a mulher. Afinal, é “representativo”. Figuras como Irma Grese, guarda da SS que se notabilizou por sua crueldade nos campos de concentração nazistas, seriam um progresso. Se os campos fossem administrados pelas mulheres, talvez ganhassem até elogios da Mídia Ninja.

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