A piada do “militar honesto”

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Diante da ameaça de golpe militar, é necessário esclarecer algumas questões relacionadas ao regime militar, geralmente discutidas na sociedade. Uma delas é o argumento de que os militares são “contra a corrupção”. Isso é uma mentira absurda. Os militares, sobretudo o oficialato dirigente, sempre foram capachos das classes dominantes, e como é habitual nesse meio, é óbvio para qualquer ser inteligente que as trocas de favores ilegais (corrupção) são muitas.

Rascunho automático 67

Na verdade, durante a ditadura militar, a corrupção correu solta nas instituições e empresas brasileiras, com um detalhe que ninguém denunciava, não tinha notícias nos jornais, não por falta de provas, mas porque era imposto à força, se alguém denunciasse iria imediatamente para o pau de arara. Por mais que a luta contra a corrupção seja uma idiotice – pois se trata da essência do sistema capitalista e da burguesia – é necessário desmistificar o mito do “militar honesto”.

Segundo o historiador Pedro Henrique Campos, o pagamento de propinas se consolidou durante a ditadura militar:

A Odebrecht ganha as obras justamente por sua inserção na Petrobras e pelo fato da Petrobras ser uma empresa controlada por uma direção em boa medida militar, antes e durante a ditadura.

O presidente da Petrobras no período Médici (general que presidiu o Brasil de 1969 a 1974) era o Ernesto Geisel (general que após presidir a estatal sucedeu Médici no comando do país, de 1974 a 1979).

Geisel é uma figura que detém poder político na ditadura muito forte, e parece ter uma relação de confiança com a Odebrecht muito intensa.” (BBC Brasil)

Segundo a revista Época, “Entre maio de 2009 e março de 2010, a conta-corrente do coronel do Exército Odilson Riquelme, no Banco do Brasil, recebeu dois cheques no valor total de R$ 37.373. Os depósitos se repetiram nos meses seguintes. Os cheques foram emitidos pela empresa Sequipe, prestadora de serviços de quimioterapia ao Hospital Militar de Área de Recife (HMAR), onde Riquelme cuidava dos contratos. Os valores equivaliam a 10% dos pagamentos feitos à Sequipe pelos contratos com o hospital. Os investigadores do Ministério Público Militar (MPM) descobriram o esquema após denúncia de um ex-funcionário. Confirmou-se que o dinheiro – R$ 205 mil no total – havia sido pedido à empresa pelo então diretor do HMAR, coronel Francisco Monteiro. Ele alegou que seriam “doações” para o hospital. Mas cheques obtidos pelos investigadores mostraram que o dinheiro acabou em contas-correntes dos militares e de pessoas ligadas a eles, não no caixa do hospital.” (Época, A corrupção de Farda)

“São 255 processos pelo crime de peculato (desvio de dinheiro público em proveito próprio) e 60 por corrupção ativa ou passiva – todos abertos nos últimos cinco anos.” (Idem.) Todas denúncias recentes, em plena “democracia”. Imagine o que não foi desviado para cofres particulares durante os 21 anos de ditadura militar onde a censura a jornais, a repressão, tortura eram impostas para que nenhum opositor pudesse abrir a boca?

A fama de “honestos” é fruto de uma demagogia difundida pelos próprios militares. Na verdade, a grande maioria são tão corruptos ou mais que qualquer outro político burguês. Uma matéria de 2015, divulgada no portal Uol, apresentou 10 escândalos de corrupção efetuados pela ditadura militar. Entre outros:

  1. Contrabando na Polícia do Exército
    A ligação da polícia com o contrabando (tráfico) é antigo. Hoje em dia, todos sabem do relacionamento entre a polícia e o tráfico de drogas e armas, sobretudo no RJ. “O capitão Aílton Guimarães Jorge, que já havia recebido a honra da Medalha do Pacificador pelo combate à guerrilha, era um dos integrantes da quadrilha que comercializava ilegalmente caixas de uísques, perfumes e roupas de luxo, inclusive roubando a carga de outros contrabandistas.”

  2. Delegado Fleury
    O grande capacho da ditadura, delegado Sérgio Fleury, foi acusado de ser dirigente do tráfico de drogas e políticas de extermínios, relacionados ao Esquadrão da Morte e o traficante José Iglesias (“Juca”). Mesmo assim, os militares lhe deram a “Medalha do pacificador”.

  3. Governadores de Estado
    Governadores de Estado, indicados pelos militares também eram corruptos. Haroldo Leon Peres, do Paraná, extorquiu 1 milhão de reais de um empreiteiro; e “na Bahia, Antônio Carlos Magalhães, em seu primeiro mandato no Estado, foi acusado em 1972 de beneficiar a Magnesita, da qual seria acionista, abatendo em 50% as dívidas da empresa.”

Isso apenas para citar alguns casos. A grande maioria dos políticos de confiança do regime militar são renomados corruptos, como Paulo Maluf, José Sarney, Delfim Netto, Ernane Galvêas e assim por diante. Na verdade, o regime político brasileiro pouco mudou desde a ditadura; têm nos cargos políticos as mesmas famílias e mesmos esquemas de relação que existiam na época da ditadura. Com um pequeno detalhe que hoje a denúncia, mesmo que tímida existe.

O caso da Rede Globo, nesse sentido, é esclarecedor. O grupo monopolista é extremamente corrupto. Teve sua ascensão no auge do governo militar por apoiar incondicionalmente os militares por meio do Jornal O Globo. O dono da Globo, Roberto Marinho, era “amigo” e “conselheiro” dos generais de plantão. 

A idéia do “militar honesto” é uma mentira facilmente desmentida; fazem parte do mesmo esquema dos políticos burgueses profissionais.

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