Um pretexto para desarmar o povo

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O debate sobre o controle de armas andava meio adormecido nos Estados Unidos desde a eleição de Donald Trump como presidente do país. O estranho e mal explicado incidente do último domingo em Las Vegas quando um homem atirou em direção à plateia de um concerto de música “country” trouxe a discussão de novo à ordem do dia.

Rascunho automático 67

Ferrenho opositor do controle da posse de armas pela população, Trump, como já aconteceu várias vezes desde a sua posse, de repente mudou de opinião e agora passou-se para o lado que deseja eliminar o direito histórico dos cidadãos norte-americanos de possuir e portar armas e que com o incidente retomou a ofensiva.

Imbuídos de um instinto primitivo de imitação irrefletida de fazer inveja a um nativo de uma colônia do século XVI, os chamados formadores de opinião brasileiros, inclusive os da esquerda pequeno burguesa, imediatamente pularam no bonde de uma questão ligada fortemente a aspectos que variam de país para país e dentro deles de região para região. Necessidade e  cultura desempenham papel da maior importância nessa matéria.

Nos Estados Unidos o direito ao porte de armas é assegurado pela constituição do país e visa a defesa do cidadão não contra outro cidadão mas sim contra os que detém o poder. Sem pretender se aprofundar no verdadeiro caráter dos princípios que orientaram a fundação dos Estados Unidos, a verdade é que o senso comum consagrou o direito de rebelião do indivíduo contra a tirania. “A árvore da liberdade deve se regada de tempos em tempos com o sangue dos patriotas & tiranos.” (Carta de Thomas Jefferson a William Smith, 13 de novembro de 1787)

Tanto nos Estados Unidos quanto nesta colônia em rápido rebaixamento a entreposto comercial o verdadeiro sentido do consenso do desarmamento é manter a classe trabalhadora longe da possibilidade de exercer seu legítimo direito de defesa contra a violência estatal. Houvesse honestidade nos que pregam o desarmamento eles iniciariam sua campanha pelo desarme da polícia cujo aparato caríssimo e exagerado é utilizado preferencialmente como instrumento de extermínio da população pobre e como instrumento para assegurar que elas assim permaneçam através do esmagamento de qualquer manifestação de discordância com o sistema de espoliação da classe operária que no momento encontra-se em processo de agigantamento.

No Brasil a discussão sobre armas é tomada por um forte componente moral e é permeado pela velha ideia de que “o brasileiro não está preparado para isso”. Quanto ao aprofundamento de ações em direção às raízes da violência no país, isso passa pela cabeça de muitos poucos. Definitivamente pessoas que vivem em grandes cidades brasileiras no vigésimo andar de um prédio cercado por grades e câmeras e passam o dia apavorados com a possibilidade de serem desapossados de seus carros comprados em 60 prestações não estão em condições de contribuir para um debate sério sobre o assunto e suas manifestações só fazem reforçar a política imperialista.

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