“Brasil metalúrgico” ou confusão da confusão

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Iniciativa adotada por importantes setores da burocracia sindical e do sindicalismo pelego e patronal da Força Sindical recebe o apoio de esquerda golpista e a favor da prisão de Lula, evidenciando seu caráter confuso e distracionista

Rascunho automático 67

Mesmo com as atenções de todo o País e, particularmente da esquerda classista e de luta contra o golpe voltadas para o dia 13 de setembro, para Curitiba, quando o ex-presidente Luís Inácio Lula da Siva, maior liderança metalúrgica da história do País e principal liderança política da classe trabalhadora ha mais de três décadas, terá que depor diante do juizeco golpista Sérgio Moro que, junto com toda a direita, está preparando uma emboscada para prender Lula imediatamente ou avançar no processo de perseguição que lhe  impõem por meio da fraudulenta operação Lava Jato, a direção dos principais sindicatos de metalúrgicos do País resolveram – praticamente – ignorar tal acontecimento e propor um “dia de luta unificado”, em 14 de setembro.

A data recebeu o apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT) – que reune sindicatos decisivos como o dos Metalúrgicos do ABC – e de outras “centrais”, como a  CTB e UGT, da criação da Federação  das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), aForça Sindical, e até das ultra minoritárias e “esquerdistas”, Conlutas e Intersindical, as quais juntas criaram a frente “Brasil Metalúrgico”.

A quase coincidência de datas, serve para evidenciar o papel de tal iniciativa, ao servir de pretexto para deixar de fora da necessária mobilização à Curitiba – também deliberada pela CUT em seu recente Congresso Nacional – a categoria e o sindicato que foi berço sindical e poolítico do ex-presidente Lula, em um momento decisivo.

A data do depoimento já estava marcada há tempos, enquanto o “dia de luta unificado” dos metalúrgicos foi confirmado há poucas semanas e poderia ter sido – pelo menos – ter sido marcado para outra data, diante da gravidade da situação; uma vez que, nas últimas semanas e, mais ainda, nos últimos dias, ficaram evidentes o avanço da ofensiva contra  Lula, contra o PT e contra todo o movimento operário que o ex-presidente representa (independentemente da divergências que se possa ter com sua orientação política).

Apenas na última semana ocorreram: a) a delação sem provas e “sob encomenda” da direita, feita pelo ex-ministro petista Antônio Palocci; a denúncia contra os presidentes Lula e Dilma, também sem provas, por parte da Procuradoria Geral da República; o lançamento do filme farsa da operação lava jato para promover a operação criminosa de perseguição à Lula e ao PT, principalmente; a manipulação de O Globo, entre outros meios, divulgando fotos com malas de dinheiro de um dos caciques do PMDB, Gedel Vieira, sob uma manchete contra os ex-presidentes petistas.

Mesmo  assim, há poucas horas da manifestação que o PCO, a CUT e outros setores que lutam contra o golpe estão convocando para o dia 13, até mesmo no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, não havia – por exemplo – uma única linha no site da entidade  convocando a mobilização em Curitiba, como também em outros sindicatos cutistas.

Concessão à direita do movimento operário

Evidentemente que essa política de não defender a luta contra o golpe – de forma concreta e unitária, junto com os demais setores que lutam contra o golpe – serve “como uma luva” aos setores da direita e da esquerda pequeno burguesa do “brasil metalúrgico” que apoiaram o golpe, junto com Aécio Neves, Eduardo Cunha e cia. e que defendem a prisão de Lula, como a Força Sindical (do deputado golpista “Paulinho da Força”, do SD) e do PSTU-Conlutas (do “Fora Todos”).

Desta forma, setores que em geral têm uma posição mais conservadora dentro da CUT, em nome da “unidade”, estão se “juntando” aos setores mais conservadores do movimento sindical, não apenas dos metalúrgicos, deixando em segundo ou último plano a necessária unidade com os setores que lutam contra o golpe para defender Lula e tudo que ele representa neste momento e lutar contra sua prisão.

Isso quando todos sabem que não se trata de trocar uma manifestação por outra ou de que elas estejam sendo encaminhadas como “complementares”, uma vez que um dia de luta dos metalúrgicos que incluísse entre seus eixos a luta contra a prisão de Lula e contra o golpe (juntamente com a luta contra as “reformas” feitas pelos golpistas poderia ser um marco importante na luta política que a classe operária precisa levar adiante contra o golpe que está fazendo retroceder como nunca se viu as suas condições de vida e de trabalho.

Como na maioria dos “dias de luta”  convocados nos últimos pelas “centrais”, o o que se prevê é uma verdadeira encenação, com a participação de algumas centenas de contratados de coletes laranjas,  da Força Sindical, cujo chefe e deputado votou a favor da terceirização sem limites, apoia a reforma da Previdência e defende publicamente o diálogo com o presidente golpista Michel Temer e toda a quadrilha que comanda o executivo e o legislativo e toda a ofensiva contra os metalúrgicos e todos os trabalhadores.

Um apoio que diz tudo

Além da própria composição reacionária do “Brasil Metalúrgico” e de sua política distracionista (porque desvia a atenção e estimula a confusão e divisão em um dos setores mais decisivos da classe operária), o dia 14 recebeu um “apoio” que mesmo não tendo nenhuma importância para a “mobilização”, serve para não deixar nenhuma dúvida do caráter confusionista (da parte de alguns) e reacionário (da parte de outros) deste evento que – se realizado em conformidade com a política meramente exibicionista (fingir que estão lutando) da direção da Força Sindical e Conlutas, por exemplo,  terá mais destaque nas telas da Globo do que a manifestação contra a prisão de Lula, no Paraná.

Trata-se do minúsculo grupo estudantil Movimento Negação da Negação (MNN) que publicou nota em seu site exaltando a data sob  o título “A frente ‘Brasil Metalúrgico’ e o ascenso proletário

Divulgada n final de agosto, a nota procura embelezar a iniciativa divisionista, destacando que a data seria precedida “a partir do fim agosto, de um ‘esquenta’ nas fábricas, com panfletagens, assembleias e paralisações”, do qual os operários de carne e osso, das quase totalidade das fábricas (principalmente de fora da CUT) não viram o menor sinal.

Refletindo uma certa opinião média de setores da esquerda pequeno burguesa que integram a Conlutas, o grupo apoia o dia que se opõe a uma mobilização unificada em defesa de Lula, buscando desacreditar os principais promotores do evento, afirmando que “nas últimas vezes que os trabalhadores foram convocados a lutar, foram largados pela grande maioria dos sindicatos” e mais especificamente a CUT e, nesse caso, a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, afirmando – indistintamente – que o problema foram “as centrais de maior peso, apesar dos grandes chamados à luta, deram importância às negociatas com o governo pelas costas dos trabalhadores, visando a garantir seus financiamentos pelo Estado (o “imposto sindical”)”.

Falsificando a realidade, em favor da ala direitista, o grupo oculta que a CUT não só não participou dessas “negociações”  como as denunciou.

Ao invés de criticar a sabotagem aberta da Força Sindical, que sabotou abertamente o último chamado à greve geral (junto com a UGT), bloqueando – por exemplo – a paralisação dos transportes em São Paulo, o MNN (como fazem vários setores da Conlutas e da Intersindical) ataca a CUT, os metalúrgicos do ABC, e a própria greve gera de 28 de abril, escrevendo que “as paralisações, na sua esmagadora maioria, foram dias de folga acordados com as empresas, com reposição posterior do trabalho”.

É claro que não faltam na matéria frases vazias que procuram aparentar um apoio a uma mobilização de tipo anárquica, espontânea e sem base na realidade, na qual apesar de toda a sabotagem de quase todos “os metalúrgicos e a classe operária em geral possuem ânimo redobrado de luta”.

Sem qualquer apoio na realidade, sem qualquer trabalho no interior da categoria e responsabilizando indistintamente todas as direções, as que apoiaram o golpe e as que se opuseram a ele, as que apoiam Temer e as que lhe fazem oposição etc., o “Negação” propõe “uma campanha salarial, organizada a partir dos locais de trabalho”, ao mesmo temp em que apoia a manifestação farsa em unidade com os traidores da Força Sindical.

Sem apresentar nenhum eixo de luta política, em uma reacionária posição de tip anarco-sindicalista, com 100 anos de atraso, o grupo que se reivindica (sem qualquer fundamento) como marxista e até como trotskista enxerga um “ascenso do proletariado brasileiro, desde 2013”, ou seja, em período marcado por um violento retrocesso das condições de vida e trabalho, crescimento do desemprego, retrocesso na lesgislação trabalhista, aumento da repressão contra os trabalhadores, suas organizações e seus dirigentes etc., simplesmente por se basear em um suposto “aumento do número de choques entre trabalhadores e patrões nos locais de trabalho”, sem levar em consideração nenhum fator relevante destes “choques”, cm amplitude, resultados, comparações com momentos anteriores de efetivo ascenso (com a o final da década de 70 e a primeira parte dos anos 80) e desconsiderando a situação política de conjunto. A classe operária estaria em ascenso, mesmo com o violento retrocesso político evidenciado pelo golpe de estado, que para o “Negação”, não existiu.

Nessas condições, o MNN se propõe a apresentar as “tarefas do proletariado frente à crise”, destacando que a tarefa central seria apenas a luta em defesa do emprego. Nada de luta contra o golpe.

O ascenso seria marcado por “lutar nesta campanha salarial para segurar o que resta aos trabalhadores. Lutar pela manutenção das convenções coletivas, que limitam o aumento do grau de exploração da força de trabalho pelos patrões, e pela manutenção do nível salarial”, afirmam. Estranhamente, em uma etapa de suposto ascenso, a vitória seria não perder mais do que já se perdeu. Coisa de quem, nem de longe, conhece o que é um ascenso, que não viu, não viveu e nem sequer estudou o que aconteceu nos verdadeiros períodos de ascenso da luta da classe operária.

Com base nesta inversão da realidade, na qual o refluxo vira ascenso, o golpe de Estado vira revolução, os traidores e pelegos são absolvidos de qualquer responsabilidade pelo fracasso da mobilização etc., o MNN apresenta que a “vaguarda” desta luta metalúrgica seria justamente as direções do “bloco formado pelos sindicatos dos metalúrgicos de Campinas, Limeira, São José dos Campos e Baixada Santista – dirigidos pela CSP Conlutas e pela Intersindical-Instrumento (Vermelha)”, justamente os setores que comungam da maior parte da sua política de divisão, confusão e acobertamento dos pelegos da direita golpista. Bloco no qual se encontram elementos que apoiam a operação Lava jato (como setores do PSOL) ou que fazem campanha pela prisão de Lula (como o PSTU).

Da necessidade de combater o aumento da exploração da força de trabalho, decorre a reivindicação do bloco de aumento salarial equivalente ao aumento da extração de valor da força de trabalho; ou seja, se os patrões aumentam 6,99% a produtividade do setor, e este aumento decorre de mais valor agregado pelo trabalho dos operários, tal aumento deve ser proporcionalmente indexado aos salários: aumento de 6,99% acima da inflação.

A busca por um índice de reajuste que esteja baseado na produtividade é um artifício inteligente dos companheiros, que buscam uma forma móvel – escalonada – para seu índice, uma forma que oscile de acordo com a produção. Trata-se, conscientemente, de uma busca por um programa “mínimo” que se afaste da forma tradicional como a burocracia sindical (CUT e Força, sobretudo) luta por salário. A forma com que a burocracia sindical tradicionalmente luta por salário faz com que essa luta se encerre em si, sem ampliar contradições com o capital. Contra isso, os companheiros buscam uma forma que seja mais escalonada e que amplie contradições com o capital. Todavia, a fórmula que encontram os companheiros é um tanto irracional, por misturar (apenas somar) um índice de aumento de produtividade e um índice de inflação.

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