Neoliberais são mais direitistas que Hitler

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Um pitoresco “debate” empolgou alguns círculos de internautas na semana passada. A “discussão” se deu em torno da seguinte rematada besteira: “o nazismo era de esquerda”. A ideia é completamente idiota mas não é nova. Ela é pelo menos tão velha quanto um artigo de Friedrich Hayek de 1933. Hayek é o grande guru da Escola Austríaca, e do neoliberalismo.

Rascunho automático 67

Hoje os adeptos dessa corrente de “pensamento” são responsáveis pela produção em massa de lixo na internet para consumo próprio, emporcalhando sessões de comentários de páginas por toda parte e alimentando sítios eletrônicos exóticos. Outro guru da Escola Austríaca é Ludwig von Mises.

Sob o sugestivo título “nazi-socialismo”, Hayek procura argumentar em seu artigo que o nazismo é um “genuíno” movimento socialista. O tema seria desenvolvido depois em seu livro mais famoso, “O caminho da servidão”. A tentativa de demonstrar tal coisa, obviamente, só poderia terminar em um fracasso. Vejamos de que forma.

Capitalistas são socialistas

Um dos problemas para a tese de Hayek era o fato de que, naquele momento, logo depois da ascensão do nazismo ao poder sobre a base da perseguição aos comunistas e ao movimento operário, todos sabiam que os nazistas tinham o apoio do grande capital.

O guru dos neoliberais contorna o problema da seguinte maneira: alegando que os capitalistas estavam, por um lado, enganados sobre a natureza do movimento que eles financiaram e tornaram uma realidade política, e, por outro lado, que esses mesmos capitalistas estavam “eles mesmos fortemente influenciados por ideias socialistas”.

Ou seja, os capitalistas financiaram Hitler para esmagar o comunismo na Alemanha porque eles estavam influenciados pelo socialismo. Segundo seus seguidores, Hayek era uma mente brilhante.

Luta da classe operária leva ao nazismo

Enquanto os capitalistas, segundo Hayek, eram quase “socialistas”, os trabalhadores, por sua vez, levaram ao desenvolvimento do nazismo. Diz Hayek: “O nazismo é um genuíno movimento socialista, cujas principais ideias são fruto das tendências anti-liberais que ganharam terreno de forma constante na Alemanha desde a parte final da era bismarckiana, e que levaram a maior parte da intelligentsia alemã primeiro para o ‘socialismo de cátedra’ e mais tarde para o marxismo em sua forma social-democrata ou comunista”.

Ou seja, o nazismo seria resultado da luta dos trabalhadores, apesar de o papel do nazismo ter sido justamente esmagar a luta dos trabalhadores. Os capitalistas, segundo Hayek “fortemente influenciados pelas ideias socialistas”, financiaram o nazismo para esmagar os trabalhadores porque a luta da classe trabalhadora os levou a adotar ideias “anti-liberais”. E os trabalhadores, seus partidos e suas organizações, foram esmagados pelo nazismo por consequência dessa mesma luta, e não por uma reação dos capitalistas. Curiosamente, Mises, o outro guru neoliberal, que odiava os sindicatos, saudou o nazismo durante os anos 30 como salvação da civilização justamente por seu combate ao comunismo.

Apesar de acusar o movimento operário pela ascensão do nazismo, em outra parte do texto Hayek admite que se trata de um movimento da pequena burguesia. O que está correto, o nazismo era um movimento da pequena burguesia financiado por capitalistas para esmagar o movimento operário.

Propriedade privada

Além de argumentar que os capitalistas ignoravam a natureza do movimento que eles financiaram e impulsionaram e que estavam sob influência do socialismo, Hayek também diz, entre outras coisas, que a propriedade privada seria atacada pelos nazistas. O artigo é de 1933, e Hayek arrisca essa previsão.

A propriedade privada, no entanto, obviamente não foi atacada, porque os capitalistas estavam no controle. Como mostra um artigo acadêmico assinado por Christoph Buchheim e Jonas Scherner, publicado em 2006, sob o título “O papel da propriedade privada na economia nazista: o caso da indústria”, não só a propriedade privada dos grandes capitalistas continuou vigorando, como os próprios capitalistas tinham liberdade para decidir como investiam, mesmo em plena guerra. Apesar de estarem “fortemente influenciados pelas ideias socialistas”, os capitalistas alemães continuaram no controle da economia.

O neoliberalismo

No momento em que Hayek defendia essas teses elas eram quase clandestinas. O capitalismo tinha acabado de passar por sua maior crise e o Estado estava sendo usado para dar fôlego a esse sistema moribundo, hoje ainda mais decadente. A partir dessas ideias a burguesia já começou a preparar o desmonte do chamado “estado de bem estar social” assim que ele foi criado, depois da Segunda Guerra Mundial, para conter o avanço do movimento operário depois de sua vitória contra o nazismo.

É isso que viria a se tornar a ideologia do neoliberalismo, por trás de todos os ataques contra a classe trabalhadora nos países imperialistas a partir dos anos 70, e do apoio aos golpes na América Latina na segunda metade do século XX. Novamente a burguesia encontrava sua ideologia para combater os trabalhadores e o comunismo. Dessa vez não o nazismo e o fascismo, mas o neoliberalismo.

O imperialismo está pronto para fazer qualquer coisa em defesa de seus interesses econômicos pelo mundo. Desde apoiar golpes até defender e sustentar ditaduras em nome do livre mercado e da propriedade privada. O sentido da existência de um debate tão esdrúxulo como o de que o “nazismo é de esquerda” consiste nisso: em nome da “liberdade” do mercado o imperialismo está pronto para ficar à direita do próprio nazismo. E para isso foram buscar um ideólogos mais direitistas que Hitler, como Hayek, von Mises e Milton Friedman.

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