Um julgamento histórico pode não ser o julgamento da história

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Difícil saber qual o conceito que a sociedade do futuro terá sobre a condenação de Lula. As lições da história são complexas e um bom cientista político, para melhor visualizar as consequências do presente, precisa ter uma ampla visão da história e do contexto dos fatos.

Rascunho automático 67

A perspectiva histórica se adquire estudando, obviamente, mas, para ter uma maior abrangência na análise dos fatos, uma das possibilidades é procurar olhar a questão de fora. Nós, brasileiros, estamos afogados em preconceitos, frustrações, desânimos e até em rancores e ódios, por isso que nos é muito mais complicado visualizar o futuro desse caldo de sentimentos em meio a um caos de governabilidade.

A propósito, recentemente estive na Alemanha, visitando a Universidade de Hamburgo, para falar do sistema penitenciário brasileiro, e contei sobre as ameaças de morte que já recebi, tanto da polícia quanto dos presos. Porque o juiz da execução penal, ao garantir direitos do preso, também fazendo valer deveres, é odiado pelos presos que têm interesses violados, e por alguns policiais, que ainda não entenderam não existir no Brasil prisão perpétua.

Pois bem, sempre pensei nessas ameaças como conteúdo da violência já tão comum do nosso dia a dia. Afinal, quem não se sente ameaçado hoje em dia? Mas, logo depois da minha fala, ouvi de alguns alemães, quase como proposta, a sugestão de pedir asilo político na Alemanha.

Sinceramente, nunca tinha pensado em viver longe dos amigos, da família, em um país distante, nunca tinha pensado nos perigos da minha profissão na forma como foi colocado, a ponto de ter que me refugiar em outro país, mas a lição serviu para ver como o Brasil, um juiz brasileiro, é visto diferente de fora, em perigo, em um lugar desorganizado, em que a injustiça social tornou-se o parâmetro da injustiça como um todo.

Pode-se, assim, olhando do exterior, vislumbrar o que vão falar da sentença condenatória de Lula no futuro. As primeiras notícias ressaltam apenas o racha que a condenação do ex-presidente sacramenta na já tão dividida e pobre discussão política do brasileiro. As tais provas suficientes para a condenação no Brasil, quase não são citadas nos jornais do exterior. Quando muito, fala-se da sentença como se uma condenação pudesse estabelecer definitivamente uma culpa. Para fins de história, uma sentença judicial pode apenas estabelecer uma condenação, nunca uma culpa.

Os jornais estrangeiros, entretanto, são somente um indício. Têm seus proprietários e interesses, apesar de terem jornalistas e analistas políticos, jurídicos também, muito mais isentos do que nós mesmos, aqui envolvidos quase que numa partida de futebol. Por enquanto, deixemos que essas provas sejam analisadas por quem não torce para nenhum time.

De qualquer forma, como dito no início, não basta a visão ampla do fato. Uma avaliação política é sobretudo uma avaliação histórica. E, nesse ponto, convenhamos, ainda que o ex-presidente não se saia bem, não se conhece um magistrado que tenha efetivamente entrado para história como personagem fundamental de uma era ou de uma nação.

De Lampião ao Maníaco do Parque, passando pelo Bandido da Luz Vermelha, Escadinha e Lúcio Flávio, ninguém lembra do juiz de suas prisões ou condenações. Os juízes mais famosos assim o são por seus erros ou por sua crueldade, como Pilatos que, aliás, nem julgou ninguém, lavou as mãos, ou Torquemada, acostumado a queimar pessoas em praça pública.

Parafraseando o filósofo Cioran, a justiça institucionalizada e, portanto, engessada, pretende ser um ponto, as sentenças terminam com um ponto, enquanto os seres humanos são, para a história, apenas vírgulas.

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