Relendo o Manifesto Comunista

Compartilhar:

Assistindo ao discurso de Lula após a condenação, pensei em escrever um texto sobre as instituições, nas quais ele, recém condenado, disse acreditar e confiar. Pensei em falar no judiciário, que tem parte de suas superiores instâncias nomeadas por ele próprio, mas, pensando melhor, não parecia o momento mais adequado.

Rascunho automático 67

Aí resolvi escrever como juiz da execução, para o próprio Lula, agora sentenciado, vez que, tendo falado com sentenciados por mais de vinte anos, sei muito dos seus medos, anseios e desânimos. Sei que o jogo do Corinthians não é mais importante que uma condenação iminente. Pensei também em fazer um contraste entre o ex-presidente condenado e os presos abandonados pelo Estado, em penitenciárias imundas, insalubres e ilegais.

Mas também essa segunda opção me pareceu meio de mal gosto. Falar sobre a sentença como técnico do direito, muitos mais bem capacitados já fizeram. Foi então que resolvi reler o Manifesto Comunista e, assim, mandar um recado para o ex-presidente.

Lula, a história de todas as sociedades até os nossos dias tem sido a “história da luta de classes” (MARX; ENGELS, 2002, p. 40). As crises, Lula, são criadas pela própria burguesia para se manter no poder e, portanto, fazem parte desse sistema perverso de exploração e desigualdade.

Está no Manifesto, tão atual como nunca, “esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesas de todas as precedentes” (Idem, p. 43). E, da mesma forma que a burguesia promove a destruição de forças produtivas para se renovar como classe no poder, promove miséria, ódio e revolta entre a população que, sem alternativas, pede mais polícia, mais repressão.

O verdadeiro proletário, Lula, o proletário com consciência de classe, percebe logo que “as leis, a moral, a religião são meros preconceitos burgueses” (Idem, p. 49), atrás dos quais se ocultam inúmeros interesses também burgueses, e, mesmo que se faça concessão de cargos ou funções, nunca se pode fazer concessão de valores.

O objetivo de um partido proletário deve ser a constituição dos proletários em classe, a derrubada da supremacia burguesa e a conquista do poder político pelo proletariado, não o conchavo com a burguesia ou a divisão e a rixa entre os outros partidos proletários. Um verdadeiro e consciente proletário não pode querer ver o trabalhador dividido, nem em classes, nem em partidos, nem em nada.

O poder político, Lula, é o poder organizado de uma classe para a opressão da outra. E se “o executivo no Estado moderno não é senão o comitê para gerir os negócios comuns de toda classe burguesa” (Idem, p. 42), o judiciário é a polícia de choque. O jurista, como lembra o Manifesto, é um servidor assalariado, servidor no sentido mais pobre da palavra.

O discurso de reforma, de auxílios e benefícios, ainda que apareça com mais força em uma época que se demonstra sem alternativas a curto prazo, continua agradável à classe dominante, que acaba precisando de menos esforço para dominar. Mas esse discurso, de qualquer forma, ela já dominou, e não precisa de um proletário para expressá-lo.

O alerta “prisões celulares, no interesse da classe operária!” (Idem, p. 65) está tão vivo como nunca em uma sociedade na qual as pessoas pedem mais polícia do que diminuição das desigualdades. Em uma sociedade em que se prefere ser chicoteado para ver outros igualmente chicoteados, todos juntos explorados e silenciados, a prisão é o êxtase máximo.

O espectro que ronda o mundo, infelizmente, hoje, é o espectro do ódio. E, pior, o espectro do ódio convivendo com a conivência para com o explorador, com o amor ao chicote, amando-se o responsável pelo próprio ódio.

Não desejo a prisão para ninguém. Aliás, a prisão faz parte de toda essa irracionalidade, resultado da alienação geral. Um local caro que só gera mais criminalidade, mas como disse Henry D. THOREAU, (1996, p. 10), “em um governo que prende injustamente, a prisão também é lugar de homens justos”.

Referências:

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2002.

THOREAU, Henry David. Civil disobedience. In: Thoreau: Political Writings. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.

artigo Anterior

Economia encolheu em maio, e o FGTS já foi, e agora?

Próximo artigo

Sucateamento da UERJ é a política dos golpistas

Leia mais

Deixe uma resposta