Lênin: no caminho da insurreição

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Muito já dissemos nesta coluna sobre a monumental obra de Leon Trótski, História da Revolução Russa, e sua importância para a compreensão deste que foi o principal acontecimento político do século XX.

Rascunho automático 67

Chegou a hora (já não era sem tempo!) de tratar do que escreveu Lênin, no calor dos acontecimentos, orientando os bolcheviques na condução da tomada do poder.

Para os que desejam conhecê-lo melhor, em primeiro lugar recomendo o curso realizado em 2014 na 34ª edição da Universidade de Férias do nosso Partido, “Lênin, Vida e Obra“. Tratamos aí da sua biografia, da questão do Partido e da sua teoria da revolução.

A coletânea de textos publicada em 1931, há muito tempo esgotada, No caminho da insurreição, reúne os principais escritos de Lênin no período de setembro a novembro de 1917. Foram escritos no período em que Lênin estava na clandestinidade, instalado em Helsinque, na Finlândia, devido ao perigo de ser preso ou mesmo assassinado pelo Governo Provisório após as jornadas de julho.

Estes textos, publicados à época nos jornais bolcheviques e em folhetos separados, orientaram o Partido nos momentos decisivos da revolução.

Relacionamos abaixo os títulos publicados neste volume, seguidos de uma curta citação para indicar seu conteúdo. Sua leitura é essencial para a compreensão da política bolchevique e a questão da tomada do poder pela classe operária. Infelizmente, nem todos encontram-se em português na internet. Para remediar essa dificuldade, disponibilizamos os quatro que faltam em inglês:

[texto em inglês, encontra-se traduzida no 2º tomo das Obras Escolhidas de Lênin, publicadas pelas Edições Avante!]

  • Trata da mudança de tática dos bolcheviques após a derrota do levante do general Kornilov.
    • “Estamos mudando a forma da luta contra Kerenski. Sem diminuir nossa hostilidade a ele, sem retirar nenhuma palavra dita contra ele, sem renunciar à tarefa de derrubá-lo, devemos levar em conta a situação presente. Não devemos derrubar Kerenski agora. Devemos tratar da tarefa de combatê-lo de uma maneira diferente, isto é, devemos mostrar para o povo (que está combatendo Kornilov a fraqueza vacilação de Kerenski.
  • Sobre os Compromissos

    • Lênin discute a possibilidade de uma transição pacífica ao poder dos sovietes por meio de um compromisso com os Socialistas Revolucionários e Mencheviques, à cabeça do governo provisório.
      • “Compromisso é, da nossa parte, o nosso regresso à reivindicação de antes de Julho: todo o poder aos Sovietes, governo de socialistas-revolucionários e mencheviques, responsável perante os Sovietes.
      • “Agora e só agora, e talvez durante alguns dias apenas, ou uma-duas semanas, um tal governo poderia criar-se e consolidar-se de modo inteiramente pacífico. Poderia garantir com uma probabilidade gigantesca um movimento pacífico para a frente de toda a revolução russa e possibilidades extremamente grandes de grandes passos em frente do movimento mundial para a paz e a vitória do socialismo”.
  • Uma das questões fundamentais da revolução

    • Trata-se da questão do poder político e da maneira como a palavra de ordem de “Todo o poder aos sovietes”, levantada em abril por Lênin, deveria ser compreendida e em setembro, cerca de um mês antes da insurreição de outubro.
      • “O poder aos Sovietes” significa uma transformação radical de todo o velho aparelho de Estado, deste aparelho burocrático que entrava tudo quanto é democrático, a eliminação deste aparelho e a sua substituição pelo aparelho novo, popular, isto é, verdadeiramente democrático, dos Sovietes, isto é, da maioria organizada e armada do povo, dos operários, dos soldados, dos camponeses, a concessão da iniciativa e da autonomia à maioria do povo não só na eleição dos deputados mas também na administração do Estado, na realização de reformas e transformações”.
  • Como assegurar o êxito das eleições para a Assembleia Constituinte [texto em inglês]

    • O texto trata especificamente do problema da liberdade de imprensa e Lênin, fazendo uma importante comparação com a imprensa burguesa nos países europeus, apresenta uma proposta para garantir aos sovietes os meios necessários para manter e ampliar o alcance da sua imprensa:
      • “Por que os democratas que chamam a si mesmos revolucionários não podem estabelecer uma medida como declarar monopólio estatal os anúncios privados na imprensa, ou banir os anúncios em qualquer outro meio fora os periódicos publicados pelo Soviete nas cidades provinciais e pelo soviete central em Petrogrado para toda Rússia? Por que os democratas ‘revolucionários’ devem tolerar tal coisa como o enriquecimento, por meio dos anúncios privados, de homens ricos, apoiadores de Kornilov e disseminadores de calúnias contra os Sovietes?”
  • A catástrofe iminente e os meios de a conjurar

    • Neste folheto, publicado em outubro de 1917, Lênin analisa a situação de crise econômica e penúria das massas, a paralisia do governo e apresenta um programa, a ser colocado em prática pelos sovietes para combater a sabotagem capitalista.
      • A fome se aproxima
      • Medidas de controle conhecidas de todos e fáceis de serem tomadas
      • A nacionalização dos sindicatos
      • A abolição do segredo comercial
      • Associação compulsória
      • Regulação do consumo
      • A interrupção do trabalho das organizações democráticas pelo governo
      • O colapso financeiro e as medidas para combatê-lo
      • Podemos seguir em frente se avançarmos em direção ao socialismo?
      • A luta contra o caos econômico e a guerra
      • Os democratas revolucionários e o proletariado revolucionário
  • Os bolcheviques devem tomar o poder

    • A maioria obtida pelos bolcheviques à frente dos sovietes de Petrogrado e Moscou, na primeira quinzena de setembro, atesta: a situação está madura para a tomada do poder. Lenin destaca:
      • “É ingênuo esperar pela maioria ‘formal’ dos bolcheviques: nenhuma revolução espera por isto. Também Kerenski e cia. não esperam, antes preparam a entrega de Petrogrado. Precisamente as lamentáveis vacilações da ‘Conferência Democrática’ devem esgotar e esgotarão a paciência dos operários de Petrogrado e de Moscou! A história não nos perdoará se não tomarmos agora o poder”.
  • O marxismo e a insurreição

    • Em uma carta ao Comitê Central do Partido Bolchevique, em fins de setembro, Lênin exorta a direção do Partido (ainda vacilando) a tomar o poder:
      • “Temos diante de nós todas as premissas objetivas de uma insurreição com êxito. Temos diante de nós as excepcionais vantagens de uma situação em que só a nossa vitória na insurreição porá fim a essa coisa mais penosa do mundo, as vacilações, que esgotaram o povo; em que só a nossa vitória na insurreição dará imediatamente a terra ao campesinato; — em que só a nossa vitória na insurreição fará fracassar o jogo de uma paz separada contra a revolução, e fá-lo-á fracassar mediante a proposta aberta de uma paz mais completa, mais justa, mais próxima, uma paz em proveito da revolução”.
  • A revolução russa e a guerra civil

    • Combatendo as tendências contrarrevolucionárias da burguesia, que ameaçavam com a possibilidade de uma guerra civil e as vacilações da democracia pequeno-burguesa (os Mencheviques de Socialistas-Revolucionários), Lênin adverte sobre a necessidade da tomada do poder pelos operários e camponeses como meio seguro para desbaratar e impedir a reação burguesa:
      • “Se nem sequer a experiência da kornilovada ensinou a «democracia» e se ela continuar a sua política funesta de vacilações e de conciliação, então diremos: nada destrói tanto a revolução proletária como estas vacilações. Não intimideis, pois, senhores, com a guerra civil: ela é inevitável se não quiserdes ajustar contas, agora mesmo e até ao fim, com a kornilovada e com a ‘coligação’ — então esta guerra dará a vitória sobre os exploradores, dará a terra aos camponeses, dará a paz aos povos, abrirá um caminho seguro para a revolução vitoriosa do proletariado socialista mundial”.
  • Os objetivos da revolução [texto em inglês]

    • No fim de setembro, Lênin redige este artigo, publicado em duas partes no jornal bolchevique Rabochy Put (“Via Operária”, um dos nomes sob os quais publicaram o famoso Pravda, desde que o governo provisório começou a perseguição contra os bolcheviques). É um resumo dos problemas políticos fundamentais colocados para a revolução e a síntese do programa dos Bolcheviques.
      • Paz para os povos
      • Poder para os sovietes
      • Terra para quem nela trabalha
      • A luta contra a fome e o descalabro econômico
      • A luta contra os proprietários de terra e capitalistas hostis à revolução
      • O desenvolvimento pacífico da revolução
  • A crise está madura

    • Lênin analisa as condições que fizeram da tomada do poder uma necessidade inevitável para os sovietes e os bolcheviques e exorta seus companheiros de partido a fazê-lo.
      • “A crise amadureceu. Está em jogo todo o futuro da revolução russa. Está em questão toda a honra do partido bolchevique. Está em jogo todo o futuro da revolução operária internacional pelo socialismo”.
  • Os bolcheviques conservarão o poder?

    • Em outubro, a maioria dos Sovietes está contra o governo de colaboração de classes dos Mencheviques e Socialistas-Revolucionários. Lênin polemiza contra os adversários do bolchevismo, da direita burguesa à esquerda pequeno-burguesa sobre o problema da tomada do poder e sobre as condições em que os Bolcheviques conseguiriam mantê-lo uma vez que o tomassem (como o fizeram poucos dias depois da redação deste folheto).
      • “O proletariado não pode ‘apossar-se’ do ‘aparelho de Estado’ e ‘pô-lo em movimento’ [dizem os adversários da revolução]. Mas pode destruir tudo o que existe de opressor, de rotineiro, de incorrigivelmente burguês no velho aparelho de Estado, colocando em seu lugar um aparelho novo, seu. Este aparelho são precisamente os Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses”.
  • Teses da exposição feita a 8 de outubro, na conferência da organização bolchevique de Petrogrado, destinadas a servir de resolução assim como de procuração para os delegados do Congresso do Partido [texto em inglês]

    • O documento destinado a orientar os Bolcheviques tratava das questões candentes no final de setembro e início de setembro: a participação no pré-parlamento, as condições maduras para a tomada do poder contra Kerenski e a necessidade imperiosa de não adiá-la.
      • “É necessário lutar contra as ilusões constitucionais e esperanças depositadas no Congresso dos Sovietes, descartar a ideia pré-concebida de que devemos “esperar” por ele, concentrar todos os esforços em explicar para as massas a inevitabilidade de um levante, e da sua preparação”.
  • Carta ao Comitê Central, ao Comitê de Petrogrado, ao Comitê de Moscou do Partido Operário Social-Democrata Russo (Bolchevique) e aos membros bolcheviques dos sovietes de Petrogrado e Moscou

    • Os dias decisivos se aproximavam e Lênin, de seu esconderijo próximo a Petrogrado, insistia sobre a necessidade da tomada imediata do poder.
      • “Se não é possível tomar o poder sem insurreição, é preciso ir para a insurreição imediatamente. É muito provável que precisamente agora se possa tomar o poder sem insurreição: por exemplo, se o Soviete de Moscovo tomasse o poder imediatamente e se proclamasse governo (juntamente com o Soviete de Petrogrado). Em Moscovo, a vitória está assegurada e não há ninguém que possa lutar. Em Petrogrado, é possível esperar. O governo nada pode fazer e não tem salvação, render-se-á”.
  • Conselhos de um ausente

    • Procurando orientar os bolcheviques diante do Congresso dos Sovietes, e temendo que sua carta chegasse atrasada, Lênin trata uma vez mais do problema da insurreição. E apresenta um resumo das lições de Marx sobre a tomada do poder:
      • Nunca jogar com a insurreição e, uma vez começada, saber firmemente que é preciso ir até ao fim.
      • É necessário concentrar no lugar decisivo, e no momento decisivo, uma grande superioridade de
        forças, pois de outro modo o inimigo, possuindo melhor preparação e organização, aniquilará os
        insurrectos.
      • Uma vez começada a insurreição, é preciso agir com a maior decisão e passar obrigatória e incondicionalmente à ofensiva. « A defensiva é a morte da insurreição armada.»
      • É preciso esforçar-se para apanhar o inimigo de surpresa, captar o momento em que as suas tropas estão ainda dispersas.
      • É preciso obter diariamente êxitos ainda que pequenos (poderia dizer-se: em cada hora, se se tratar de uma só cidade), mantendo, a todo o custo a «superioridade moral».
  • Carta aos camaradas [texto em inglês]

    • Nesta carta de 17 de outubro, uma semana antes da tomada do poder, Lênin respondia às objeções dentro do Partido Bolchevique à insurreição:
      • “Duvidar agora de que a maioria do povo está seguindo e seguirá os Bolcheviques é uma vacilação vergonhosa e na prática um abandono de todos os princípios da revolução proletária, uma renúncia completa ao Bolchevismo”

Para quem quer saber mais:

Relacionamos abaixo artigos e cursos em vídeo já publicados pelo Diário Causa Operária e o canal no YouTube da Causa Operária TV sobre Lênin e a Revolução Russa.

Vídeos:

A importância histórica da Revolução Russa, palestra apresentada em 1º de julho deste ano por Rui Costa Pimenta

95 anos da Revolução Russa, palestra-debate apresentada por Rui Costa Pimenta em novembro de 2012

Lênin, aos 90 anos de sua morte, palestra-debate apresentada por Rui Costa Pimenta em março de 2014

Artigos:

“Era o Dia Internacional da Mulher…” Aqui começa a nossa cobertura da Revolução Russa de 1917, por Rui Costa Pimenta

O que foi a Revolução de Fevereiro?

O paradoxo da Revolução de Fevereiro (I e II), por Antônio Eduardo de Oliveira

A Revolução Russa e o marxismo

Nos 100 anos da Revolução Russa, um guia de leitura elementar

Revolução Russa: o que estudaremos na 40ª Universidade de Férias do PCO

Ler a “História da Revolução Russa”, de Leon Trótski

O trotskismo e a Revolução Russa

A cobertura da imprensa burguesa durante a Revolução Russa (I, II e III), por Eduardo Vasco

Desenvolvimento combinado e desigual: ” A chave do enigma da Revolução Russa”, por Antônio Eduardo de Oliveira

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