Necrofilia: melhor morto do que vivo?

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Um personagem triste da política brasileira, com suas bravatas de ode à violência, cansado de repetir que bandido bom é bandido morto, vendo o conceito de bandido se alastrar entre seus próprios companheiros de Congresso, resolveu, recentemente, dizer: “minha especialidade é matar”; à título, parece, de não ser especialista em realmente nada.

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O político exalta a sua própria ignorância porque tem a certeza de seus seguidores serem idiotas. Como a história política brasileira demonstra que as pessoas votam mais pela simpatia do que pela capacidade do candidato, muitos tentam se fazer de imbecis para angariar votos e a maioria não carece de muito esforço.

O político, na verdade, tenta ser parecido com o que ele acha que são seus eleitores. Contudo, fingimento ou não, vangloriar-se de ser especialista em matar só pode ser dito com orgulho em um país de necrófilos, como está se tornando o Brasil, onde a morte é de somenos importância, desde que seja a morte de um João, de uma Maria, de um José, desconhecidos da pessoa. A foto de um corpo no jornal, ou um corpo jogado na rua debaixo do jornal, não importa, a morte tem sido tratada com indiferença pela maioria.

A necrofilia, amor à morte, prefere mesmo corpos estranhos. Muitos necrófilos só são descobertos quando se fixam a um corpo em especial, como foi o caso de Victor Ardisson, em 1872, um ex-militar que começou lambendo urina de vasos sanitários antes de violar corpos, até se fixar na cabeça de uma mulher e ser preso (FINBOW, 2014).

Mas o episódio do político brasileiro lembrou o encontro de Miguel Unamuno com o general fascista Millán Astray, na universidade de Salamanca, de onde Unamuno era o eterno reitor, logo após o golpe de 1936, na Espanha. O general falava, exaltado, contra os intelectuais, e sua palavra de ordem, e a de seus inúmeros seguidores, que lotavam o auditório, era: “Viva a morte! ”.

Um discurso realmente contra a inteligência e a favor da burrice. A resposta de Unamuno serve muito para o político brasileiro, adorador da morte. Disse ele que já temos muitos mortos, mutilados como o próprio general, e que esse discurso só traria mais mortos ao país, mais mutilados.

Disse Unamuno que uma exaltação à morte como essas só pode vir de quem não tem outras expectativas mesmo, um necrófilo mutilado de inteligência, de caráter e de espírito, que, não vendo chances de se tornar um Cervantes, encontra alívio em provocar a mutilação ao seu redor.

O “viva a morte” é, de fato, um “morte à vida”, ressaltou Unamuno.

Mas o amor é algo intrínseco ao ser humano, não há como se livrar do amor. E se o amor à vida se torna inconveniente, fora de moda, perigoso, o ser humano tende a amar a morte. A paixão humana não diminui em intensidade, ela se transforma em necrofilia.

O filósofo e psiquiatra Erich FROMM alertava para esse amor à morte, uma perversão humana, nas suas palavras, mas amor e, durante o período de guerra fria, lembrava de haver pessoas dizendo: “melhor morto do que comunista”; que, no fundo, queriam dizer “melhor mortos do que vivos” (2013, p. 68). A morte como algo melhor, em qualquer circunstância, leva ao amor à morte, à necrofilia.

Referências:

FINBOW, Steve. Grave desire: a cultural history of necrophilia. UK: Zero Books, 2014.

FROMM, Erich. Sobre la desobediencia. Barcelona: Paidós, 2013.

 

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