Investigando de perto a Polícia Federal

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Nos seminários e congressos, quando as pessoas se encontram nos corredores ou cochicham nos auditórios durante as palestras, há um consenso: aprendemos muito mais nessas conversas paralelas do que nas aulas, conferências, mesmo ilustres, de ilustres professores.

Rascunho automático 67

Pois bem, dia 21 de junho passado estava eu em Salvador para um evento promovido pelos policiais federais da Bahia. Tratava-se de um seminário de segurança pública, com o subtítulo “essência e aparência”, e fui convidado para expor minha tese de doutorado que, após várias denúncias, defende a descriminalização e a regulamentação do comércio das drogas.

Vejam, foi uma defesa da descriminalização das drogas em um seminário organizado por membros da Polícia Federal. Méritos para aqueles policiais, que surpreenderam pela abertura democrática a críticas, seguindo inclusive a postura de muitos policiais norte-americanos, fundadores da Law Enforcement Against Prohibition, no Brasil: Agentes da Lei Contra a Proibição; policiais que perceberam a irracionalidade de guerra às drogas, que mata e corrompe tanto a polícia quanto a sociedade. Mas, para mim, perseguido recentemente pela própria Polícia Federal, uma surpresa dupla.

Aliás, tripla, porque desde o começo, apenas com o convite para falar no evento, já estava desconfiado: será que a polícia quer me prender em Salvador? Depois, no final, ainda recebi uma bela placa de homenagem do Sindicato dos Policiais Federais da Bahia. Mas a surpresa maior mesmo foi a abertura e a liberdade de fala e, principalmente, o posicionamento autocrítico de inúmeros policiais presentes.

Se, como dito no início, o que mais a gente aprende nesses eventos está nas conversas de corredores, nos bate-papos, resolvi escrever este texto para dizer o que ouvi naquele seminário. Sempre falamos da polícia de fora – quando temos coragem de falar algo da polícia – mas raras as vezes podemos ouvir livremente policiais falando entre si.

Pesquisar sobre a polícia também é muito difícil, quando não perigoso, por isso o ar meio autorreferencial nestas palavras, pois, repito, foi o que ouvi. Soube, por exemplo, que há policiais federais trabalhando há mais de cinco anos com coletes a prova de balas vencidos.

Soube que a Polícia Federal é uma das polícias onde há mais suicídios do mundo. Talvez pela cobrança, talvez pela tristeza em ver que muito do trabalho realizado não surte o efeito imaginado, mas o dado é por demais relevante, tratando-se da polícia da preferência de nove entre dez brasileiros.

Ouvi que há muita perseguição interna na Polícia Federal também. Há policiais puxa-sacos que nunca são punidos, enquanto outros, que querem trabalhar de verdade e de forma isenta, são perseguidos por superiores invejosos ou com “outros” interesses (às vezes pensava que estavam falando de um tribunal).

Delegados filhinhos e papai que acabaram de passar no concurso, não sabem nada de polícia, de investigação, ingressam no meio de operações policiais que já duram meses ou anos e querem aparecer como responsáveis, colher os frutos “políticos” do trabalho de policiais com vasta experiência. Dão entrevistas, se promovem às custas dos policiais que ganham menos e trabalham mais.

Uma queixa que tenho ouvido a respeito da polícia civil também, delegados querem ser juristas para ganhar bem e policiais para aparecerem bem, mas acabam não sendo nenhuma coisa nem outra. Nem juristas, porque não escrevem quase nada, vez que quem escreve nos inquéritos é mais uma vez algum policial mal pago e com péssima estrutura de trabalho, nem policiais, porque trocar tiros com colete a prova de balas vencido não é para qualquer um.

No seminário falou-se do equívoco que é separar a carreira dos delegados da dos agentes, porque a Constituição Federal fala, no seu art. 144, que a Polícia Federal será estruturada em “carreira” e não em carreiras. Equívoco com o qual os delegados não se preocupam, obviamente mais interessados em manter privilégios salariais não estendidos aos agentes.

No fim, uma declaração importante para os dias atuais. E essa não foi mais uma que eu tenha ouvido nos intervalos do café que, diga-se de passagem, adoro prolongar. Foi uma declaração na mesa do seminário mesmo, pública. Disseram mais ou menos assim: Realmente há autonomia na Polícia Federal, o uso político da Polícia Federal é feito pelos delegados.

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