Ler a “História da Revolução Russa”, de Leon Trótski

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A pouco menos de um mês do início da 40ª Universidade de Férias do PCO, ainda dá tempo de ler a História da Revolução Russa, de Leon Trótski. E é preciso lê-la para compreender profundamente a importância histórica deste que foi o principal acontecimento político do século XX.

Com suas 1.026 páginas (na edição mais antiga em português, feita na década de 60 pela editora Saga, posteriormente republicada pela Paz e Terra) a leitura dos três volumes, nos 25 dias que restam até o início do curso, pode parecer desafiadora à primeira vista. Não é bem assim.

Para alcançar o objetivo é preciso encarar a tarefa de um ponto de vista concreto. A leitura de 1.026 páginas, divididas pelo tempo que ainda resta, resulta em 40 páginas por dia. Não é muito.

O primeiro passo é ter o livro em mãos. E isso pode ser feito de variadas maneiras, graças a farta disponibilidade de recursos disponíveis hoje. O livro pode ser encontrado em sebos ou ainda na internet, onde pode ser baixado em PDF (edição brasileira) ou lido online (em tradução portuguesa).

O leitor não deve se deter diante de obstáculos como a qualidade das traduções e das edições (que em geral é sofrível). Percalços como estes existem, mas não impedem em geral a compreensão do texto. Podem apenas torná-lo um pouco mais desajeitado.

A leitura desta, que é a principal obra do revolucionário Leon Trótski, deve ser feita com atenção. É um livro que precisa ser estudado por todo aquele que pretende fazer também uma revolução e precisa, portanto, ser lido e relido, tarefa para a qual a 40ª Universidade de Férias do PCO é uma ferramenta auxiliar da maior importância.

Nosso curso

A História da Revolução Russa será analisada em pelo menos sete exposições feitas por dirigentes do PCO durante a 40ª Universidade de Férias do PCO. Trataremos dela da seguinte maneira:

  1. Cronologia: uma exposição dos acontecimentos
  2. Introdução: a importância histórica da Revolução Russa
  3. As três concepções da revolução russa (Plekhânov, Lênin e Trótski)
  4. A dualidade de poderes e a palavra de ordem de “Todo poder aos sovietes”
  5. As jornadas de julho
  6. A tentativa de golpe do general Kornilov
  7. A arte da insurreição, a tomada do poder pelos Bolcheviques

A escolha desse roteiro não é casual. A divisão dos temas visa aprofundar a discussão dos aspectos centrais da Revolução: sua compreensão de um ponto de vista marxista; o programa do Partido operário diante da Revolução; o problema de como colocar esse programa em prática; a questão das palavras de ordem e sua importância; as marchas e contramarchas da luta pelo poder, o combate à contrarrevolução e a tentativa de golpe de estado e os problemas teóricos e práticos da tomada do poder.

A obra

Já foram dadas algumas indicações de leituras preliminares no nosso guia de leitura elementar e algumas outras sugestões em colunas anteriores para que nosso curso de formação política e marxista seja mais bem aproveitado por todos os militantes e simpatizantes da causa operária.

Tratemos brevemente do conteúdo da obra de Leon Trótski correndo o risco de cometer mais de uma injustiça contra o livro.

Escrito em um ano, enquanto Trótski estava exilado na ilha Prinkipo, na costa da Turquia, o livro foi publicado em duas etapas, em 1930 e 1932, logo traduzido do original russo e publicado em inglês, francês e espanhol por trotskistas e simpatizantes da Oposição de Esquerda (respectivamente, Max Eastman, Maurice Parijanine e Andrés Nin).

As edições em língua portuguesa, feitas mais de 30 anos depois da publicação do livro, apoiam-se na versão em inglês, ela própria elogiada por Trótski no prefácio ao segundo volume. “Os críticos já prestaram tributo à tradução de Max Eastman. Ele deu ao seu trabalho não apenas o dom criativo do estilo, mas também o cuidado de um amigo. Subscrevo com calorosa gratidão à voz unânime dos críticos”, escreveu.

A obra está dividida em três volumes, 1) A derrubada do czarismo, 2) A tentativa da contrarrevolução e 3) O triunfo dos sovietes. Eles cobrem, respectivamente os seguintes períodos da Revolução: de fevereiro a junho; de julho a setembro e, finalmente, o mês de outubro. Cada um dos livros contêm capítulos tratando dos problemas factuais, teóricos e políticos da Revolução.

Um plano de leitura para o 1º volume

Nos seis primeiros capítulos do primeiro volume, o leitor encontrará uma descrição e uma análise clara e precisa do desenvolvimento da Rússia, sua condição de país atrasado e os fatores que levaram à Revolução de Fevereiro (“As particularidades do desenvolvimento da Rússia“, “A Rússia czarista e a guerra“, “O proletariado e os camponeses“, “O czar e a czarina“, “A ideia de uma revolução palaciana” e a “Agonia da monarquia“).

A Revolução de Fevereiro – ela mesma ofuscada pela de Outubro – é o centro dos capítulos seguintes. Neles Trotski descreve a derrubada da monarquia pelo movimento dos soldados e trabalhadores (“Cinco dias: de 23 a 27 de fevereiro de 1917“) e a ascensão ao poder de um governo provisório (encabeçado pela burguesia liberal) apoiado no comitê executivo dos sovietes (controlado pelos socialistas pequeno-burgueses, “democratas”) (“Quem dirigiu a insurreição de Fevereiro” e “O paradoxo da Revolução de Fevereiro“, que explica como uma revolução feita pelas massas de soldados e trabalhadores, esgotadas pela guerra, resultou em um governo liberal-burguês, ávido por atirar o país à guerra).

O governo provisório é descrito, em sua composição e ação políticas, no capítulo “O novo poder“, mostrando os personagens da burguesia “desligados do povo, muito mais ligada ao grande capital financeiro estrangeiro do que com as classes trabalhadoras do seu próprio país, hostil à revolução”, organizada em torno do Partido Constitucional Democrata (KDT) e suas relações com a monarquia, representada no governo pelo príncipe Lvov, e o imperialismo.

O capítulo seguinte sobre a “dualidade de poderes“, “um estado particular de uma crise social, característica não somente da Revolução Russa de 1917, embora marcada precisamente por ela”, explica de que modo conviveram um governo burguês, detentor do poder “oficial”, e uma nova forma de poder, operário, nos sovietes.

A composição do “comitê executivo” do Soviete, dominado no primeiro momento da revolução pela esquerda pequeno-burguesa (Mencheviques e Socialistas Revolucionários) e sua relação com a classe operária e as massas é descrita no capítulo seguinte, que leva esse mesmo nome.

Os dois capítulos seguintes, “O exército e a guerra” e “Os dirigentes e a guerra” narram, no primeiro deles, a situação das massas camponesas organizadas pelo czarismo para travar a I Guerra Mundial, sua evolução no confronto e, no segundo, a posição do governo provisório (que via na revolução um obstáculo para a continuidade da guerra e de seus próprios interesses) e da democracia pequeno-burguesa(que vacilava sob pressão da burguesia) à frente dos sovietes.

Os capítulos “Os bolcheviques e Lênin” e “O rearmamento do partido” apresentam um balanço da luta política dentro do partido que viria, oito meses depois, conduzir a insurreição de outubro. Trótski analisa as divergências dentro do partido sobre o caráter da revolução, as tarefas decorrentes dela e a maneira como Lênin, em minoria, persuadiu e conquistou o Partido para o programa expresso nas suas “Teses de Abril”. Neles reside a chave para compreender as divergências e a luta dentro do governo soviético que levou, 10 anos mais tarde, à expulsão de Trótski do Partido.

As “Jornadas de Abril” marcam o fim do primeiro governo provisório, por assim dizer. O atraso no calendário Juliano, em vigor à época, fez com que o 1º de Maio fosse comemorado publicamente pela primeira vez na Rússia em 18 de abril. Na data, o ministro do Exterior do governo provisório, Pavel Miliukov, publica uma declaração aos Aliados reafirmando a continuidade da participação dos russos na guerra dizendo que governo provisório unia sua voz às vozes dos Aliados e estava plenamente convencido do final vitorioso da guerra.

Em novas manifestações, os operários e soldados saem de armas na mão às ruas em Petrogrado e Moscou nos dias seguintes contra a política do governo provisório, de continuidade da guerra. As massas pediam “paz sem anexações nem indenizações”, “imediato cessar-fogo em todos os fronts” e, animadas pelos Bolcheviques, “todo poder aos sovietes”.

Dois ministros (Miliukov e Guchkov) renunciam e é formada “A primeira coligação“, em 1º de junho, com o Socialista-revolucionário Kerenski, como ministro-presidente e ministro da guerra, e Mencheviques e membros de outros partidos pequeno-burgueses (Trudoviques,  Socialistas Populares).

O próximo passo do 2º gabinete do governo provisório é desastroso e está descrito no capítulo “A ofensiva“, onde a capitulação de Kerenski diante da burguesia e a vacilação dos socialistas pequeno-burgueses à frente do comitê executivo do Soviete levam a preparar a ofensiva militar contra o império Austro-Húngaro, em junho, que o gabinete anterior não conseguiu por em prática.

Em “O campesinato“, Trótski trata da relação dos camponeses, um dos principais fatores na revolução, com o governo e as massas revolucionárias de trabalhadores de Petrogrado e das grandes cidades. A luta de classes entre os camponeses ricos e pobres, as relações destes com os partidos políticos, sua posição diante da guerra, como a revolução se processou no campo, todas essas questões são abordadas aqui.

Ao tratar dos “Reagrupamentos nas massas“, Trótski assinala que “no quarto mês da sua existência, o regime de Fevereiro já sufocava nas suas próprias contradições”. Neste capítulo está exposto o deslocamento do apoio das massas em direção aos Bolcheviques nas fábricas e destacamentos militares e a evolução da pequena-burguesia em direção aos socialistas pequeno-burgueses e seu declínio entre as massas revolucionárias, medidas nas eleições parciais dos sovietes, no Congresso dos sovietes em junho e nas eleições para as dumas municipais.

O capítulo final do 1º volume, “O Congresso dos Sovietes e a manifestação de Junho“, narra em detalhes o Congresso dos Sovietes de junho, que deu a Kerenski o aval para que esse conduzisse a ofensiva militar tão aguardada pela burguesia em nome do governo provisório. “O congresso compunha-se maioritariamente de gente que em Março, se tinha inscrito como socialistas e que, em Junho, sentiam-se já cansados da revolução”, assinala Trótski. A manifestação de que o capítulo trata foi organizada pelo Congresso dos Sovietes, dominado pelos Mencheviques e Socialistas Revolucionários para apoiar a decisão do governo. Ao sair às ruas, no entanto, as massas adotaram as palavras de ordem dos Bolcheviques. Foi o primeiro ponto de destaque, a primeira vez que os Bolcheviques impuseram uma derrota política à esquerda pequeno-burguesa, o que preparou a semi-insurreição de julho, as conhecidas “Jornadas de Julho”, que abrem o 2º volume da obra.

Conclusões“: ao final do primeiro volume, Trótski sintetiza os principais passos da sua análise: “Esse primeiro volume, consagrado à Revolução de Fevereiro, mostra como e porquê ela devia reduzir-se a nada. O volume seguinte mostrará como a Revolução de Outubro venceu”. Ninguém melhor do que ele poderia captar a essência dos acontecimentos de maneira tão simples, clara e breve. Todos os problemas fundamentais tratados no primeiro volume estão colocados aí. E se alguém teve interesse e chegou até este ponto na nossa tentativa de resumir o livro, recomendamos fortemente começar por aqui.

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