O samba: de raízes negras e um produto de toda a classe operária brasileira

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Motivo de piada virou a chamada “problematização” de todo e qualquer problema. Basta alguém achar que determinado assunto é passível de ser “problematizado” para que viralize nas redes sociais um debate sobre qualquer assunto. Um desses assuntos foi a recente declaração da cantora e compositora Malu Magalhães no programa da Fátima Bernardes da golpista rede Globo. A cantora disse que “para quem é preconceituoso e fala que branco não pode tocar samba” e cantou alguma coisa, sabe-se lá o que (confesso que não assisti a esse belo programa televisivo).

Rascunho automático 67

O fato é que, como bem afirmou o jornalista Marcos Sacramento no DCM, a cantora fez explodir “problematizações” sobre sua declaração e acabou “bombando na internet”. Já que é assim, é preciso dizer duas coisas sobre o problema.

A primeira diz respeito à enorme besteira que está embutida na frase da cantora, insinuando que existiria um “preconceito contra brancos”, que na realidade podemos traduzir como o velho papo furado de “racismo às avessas”. Nesse sentido, a declaração de Malu Magalhães é uma idiotice. Isso simplesmente não existe. E nesse sentido também é mais do legítimo o protesto de setores do movimento negro contra a declaração idiota, já que ela reforça uma ideia difundida pela direita de que o racismo não seria um problema histórico da exploração do negro pelo branco, mas apenas uma “ideia”, “cultura” ou “comportamento” o que possibilitaria que negros também praticassem racismo contra brancos, ou seja, tudo se reduziria a um problema individual e não de luta de classes.

A segunda observação é do ponto de vista da liberdade de expressão. Embora a declaração de Malu Magalhães seja uma imbecilidade e seja mais do que legítimo uma crítica a ela, é também uma imbecilidade a ideia de que brancos não poderiam fazer samba ou seja lá qual estilo de música. Em primeiro lugar porque a arte é universal e não só não se pode dizer o que uma pessoa deve ou não fazer como é impossível impor determinados limites.

Em segundo lugar, dizer que o samba é uma especialidade dos negros é um erro. O samba é originado nos negros, dos batuques africanos. Não devemos ter dúvidas sobre isso. No entanto, o samba como o estilo genuinamente brasileiro e o estilo que universalizou a música brasileira é uma produto das camadas pobres da sociedade. O samba como conhecemos hoje é um produto do que se fazia nos morros e nas periferias urbanas das primeiras metrópoles brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro.

A predominância dos negros é inegável justamente por fazerem parte da maioria da população, mas o samba é um estilo que representa a síntese de uma cultura das camadas baixas das grandes cidades, onde em torno dessa cultura negra se juntava toda a população pobre e trabalhadora.

O problema é que às vezes o samba precisa lidar com alguns mimados da classe média e com a confusão de uma esquerda pequeno-burguesa (portanto também classe média) que não sabe o que fala.

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