Belchior fala de seu trabalho, de política e socialismo em entrevista feita pelo PCO

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Em fevereiro de 2001, o Partido da Causa Operária decidiu fazer um entrevista com uns dos ídolos dos seus militantes, o cantor Belchior. A entrevista foi publicada na revista Juventude Revolucionária número 7 da primeira quinzena de 2001, o órgão nacional da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), juventude do PCO.

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Em homenagem à recente e precoce morte do compositor e cantor, segue na íntegra essa brilhante conversa com Belchior, que fala de seu trabalho, de política, de socialismo e daquela “gente honesta, boa e comovida que caminha para a morte, pensando em vencer a vida”. “E eu quero é que este canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”.

Jornal da Juventude Revolucionária: Conte-nos um pouco da sua vida.

Belchior: Nasci em Sobral, uma cidade histórica ao norte do Ceará, recentemente tombada. Foi lá que passei minha infância e adolescência. Sou de uma família nordestina típica, 23 irmãos em casa. Foi em Sobral que nasceu o meu gosto pela música. Meu avô tocava um pouco de sax e flauta, minha mãe cantava no coro de igreja e a cidade tinha diversas bandas de músicas. A música da igreja era muito freqüente, havia uma rádio e um serviço de auto-falante constante. Tudo de interessante na minha vida pode e deve ser referido ao meu primeiro momento em Sobral. Lá, estudei em colégio de padres e ganhei uma bolsa de estudo que era única para todo o estado. Em Fortaleza, fiz um curso de Filosofia que, só mais tarde, ganharia status de universitário. Portanto, sou cursado, mas não diplomado. Depois, fiz mais quatro anos de medicina, na Universidade Federal do Ceará. Na verdade, peguei seis anos de universidade, saí em quatro por bom comportamento, cumprindo dois terços da pena. Cheguei a entrar num mosteiro, não para ser padre, evidentemente, mas porque lá podia estudar música, filosofia e usar o latim que havia aprendido no colégio. De alguma forma, a figura de Francisco de Assis me atraía…mas não mais do que isso. Foi neste mosteiro que fiz o curso de filosofia. Depois disso, fiz vestibular para medicina e também lecionei alfabetização para adultos e biologia em cursinhos de Fortaleza.

JJR: Você já cantava nesta época?

Belchior: Não. Nesse tempo eu fazia música, mas não me apresentava como compositor. Só depois que entrei para a universidade, onde o movimento estudantil era mais organizado, é que tive uma oportunidade maior de integrar a parte cultural no ambiente universitário.

JJR: Você militou movimento estudantil?

Belchior: Sim. Fui líder da minha turma e candidato a secretário do DCE. Sou companheiro de geração do José Genoíno, Paulo Monteiro, Mariano Freitas, pessoal que hoje é militante partidário do PT e do PDT. Na época, não cheguei a militar em nenhuma organização política ou partido. Como líder da turma, era obrigado a gerir as questões ‘estudantis dentro da universidade, até o momento em que fui, como outros companheiros, declarado persona non grata na instituição.

JJR: Mas foi por isso que você deixou o curso de medicina?

Belchior: Não, foi por opção. Por razões artísticas e boêmias. Tive, com isso, a aprovação dos meus professores e diretores, que disseram que eu faria muito mais bem à escola saindo do que ficando. Reconheço que, se há um espaço na minha vida do qual tenho saudade é o espaço da universidade, do tempo que lá vivi, dos companheiros, das idéias, das emoções da política estudantil, mas em nenhum momento me arrependi de ter tomado essa decisão. Portanto, não há nostalgia alguma sobre ter deixado o curso, nenhum arrependimento, nenhuma frustração. Entrei na universidade porque quis e saí dela porque quis.

JJR: Durante a faculdade, ou depois dela também, você chegou a se aproximar de alguma corrente ou partido?

Belchior: Sim, tive muita simpatia pelo PT. Aliás, estive no comício de fundação do PT em Santo Amaro, um showmício na verdade. Como leitor, como pessoa interessada em idéias, sempre me interessei pelo marxismo. Não exatamente como possibilidade política, mas sim filosófica, como matéria de estudos filosóficos, literários, sobre religião etc. Isso tudo sempre me interessou muito. Aí também entram os textos de Trótski sobre arte e literatura. Na verdade, sempre me aproximei destes temas com uma atitude filosófica, mais do que com um espírito típico militante.

JJR: Marx tem uma frase que diz o seguinte: “O escritor tem que viver para escrever e não escrever para viver”…

Belchior: Concordo plenamente. E acho que o ofício artístico é muito importante. Também acho que só vale a pena escrever, ou cantar, se isso nos fizer viver, jamais viver disso.

JJR: Neste sentido, como foi e é a sua relação com o mercado capitalista da arte?

Belchior: O show business é um setor típico da sociedade capitalista, em que o trabalho artístico imediatamente se transforma em mercadoria. E a posição do artista na construção destes objetos artísticos também pode ser comercializada. É uma relação sempre conflitante. Se você tem determinada visão do mundo, é sempre conflitante. Do meu ponto de vista, esse conflito é que é o construtor da linguagem do artista. O contido entre a posição do artista como cidadão, sonhador e utópico, e o embate com a produção do seu trabalho é que, evidentemente, pode formular uma linguagem ligada com a sua vida. Uma das coisas mais interessantes que eu admiro numa pessoa é a independência pessoal.

JJR: A mídia boicota você?

Belchior: Hummm…. eu não sei se deveria aparecer na mídia, porque não gosto de más companhias. Minha mãe sempre me disse para evitar os doces oferecidos por pessoas estranhas. As pessoas costumam achar que você precisa estar na mídia, como forma de mostrar que faz sucesso. Às vezes, eu me pergunto: “Será que tem lugar para mim lá?”. É como perguntar porque não fui convidado para uma determinada festa. Mas, será que eu estava ou não na lista de convidados?

JJR: Quem acompanha seu trabalho percebe que, desde o início até as últimas letras, você mantém um espírito crítico, de reflexão social. Em algum momento, o mercado, as gravadoras ou a Mia tentaram “enquadrá-lo”?

Belchior: Eu sou bastante sincero na minha resposta. O sucesso ou o fracasso do meu trabalho são de inteira responsabilidade minha e eu não poderia dizer que tenha sido obrigado a fazer qualquer coisa que não quisesse por ninguém, inclusive por nenhuma gravadora. Sempre fiz o que quis.

JJR: Em “Apenas um rapaz latino-americano”(disco Alucinação, 1976), você diz que não quer fazer uma “canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve”. Você define sons-palavras como “navalha” e diz que não dá para cantar “como convém, sem querer ferir ninguém”. Em “Não leve flores”(disco Alucinação, 1976), diz que palavras e sons são seu caminho para ser”livre”. Você acha que a arte em si é uma manifestação de liberdade para o ser humano? É assim para você?

Belchior: Acho que sim. Do meu ponto de vista, a arte deve ser uma expressão de liberdade individual, liberdade política, liberdade total, humana enfim. Creio que só interessa fazer arte assim, se você puder fazer da sua linguagem o seu próprio caminho para a liberdade. Eu falo muito de palavras e sons porque o que me interessa, e para o quê me acho competente, é fazer canção, ou seja, fazer palavra cantada. Acho que minimamente meu trabalho atendeu e atende às minhas expectativas como artista, como criador. Faço o tipo de música que imagino que deva fazer.

JJR: Em “Monólogo das grandezas do Brasil” (disco Paraíso, de 1982), você fala da “gente que bebe pra esquecer que é gente… humilhada e ofendida pelas grandezas do Brasil”. Você considera a música, assim como as demais manifestações artísticas, um veículo privilegiado de conscientização da população explorada, mais sofrida?

Belchior: Uma das questões gravíssimas que me levam a desconsiderar isso é a mediocrização das massas, do gosto popular, além da impossibilidade de acesso à arte ou ao efeito da arte. Ou seja, eu não poderia pretender que uma pessoa analfabeta se beneficie da poesia escrita ou de um livro, pois ela não sabe ler. É claro que não devemos baixar o nível da arte, mas sim subir as pessoas até ela. A arte é um fator de engrandecimento humano, mas o receptor precisa estar preparado e ter condições básicas para poder se beneficiar daquilo que está recebendo, para poder se apropriar dos efeitos da arte como elemento de crescimento humano. As pessoas não têm acesso à educação, à cultura. É natural que venha primeiro a barriga e depois o perfume.

JJR: “Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha…” Você demonstra solidariedade com o cotidiano destes personagens, descritos na música “Alucinação”. A situação social hoje está mais difícil do que naquele momento em que você escreveu “Alucinação”. Esse ainda e um tema para você?

Belchior: Constantemente. Se você observar o disco Bahiuno, isto é ainda mais marcante, mais contundente. Acho que a condição humana sempre será um objeto importantíssimo para a arte, seja a música popular, a poesia, o romance, o ensaio. Eu tento fazer em cada música uma espécie de crônica, de relato lírico, dramático, sentimental. É acre ou doce. Procuro retratar a história das mentalidades, o percurso das gerações, alguns personagens comuns que eu não vejo muito retratados em outras músicas. A maior parte das canções expõe a questão amorosa e erótica, do ponto de vista estético. Eu sempre achei que esta era uma entre muitas que a arte deve abranger, mas não só. Então, no meu caso particular, eu quis contar um pouco da história da minha própria geração, da qual me acho um personagem e, no caso, como artista, um narrador. Atualmente, como eu costumo dizer, as pessoas precisam ir além dos shopping centers. Acho extremamente limitada a visão de felicidade como a posse de alguns objetos e badulaques. Temos que ultrapassar o fato de que o supermercado tornou-se o templo da sociedade contemporânea Neste sentido, o Brasil é uma sociedade atrasada, que precisa superar a barbárie.

JJR: Em “Pequeno perfil de um cidadão comum”(1979), você fala daquela “gente honesta, boa e comovida, que caminha para a morte, pensando em vencer na vida”. Este é o perfil do brasileiro típico?

Belchior: Este é o perfil do cidadão comum, imprensado na classe média e para quem o conformismo é impeditivo de qualquer visão mais aberta e futurista. Um cidadão cuja satisfação máxima seria a própria segurança, em to-dos os sentidos que ela pode ter. Acho também que eu sou, de alguma forma, personagem destas músicas todas, que são biográficas. Eu me identifico e me incluo nestes personagens que aparecem em minhas músicas, que são uma versão do jeito que eu vejo a situação do homem comum do Brasil, de larga faixa da população urbana e suburbana e a multidão de humilhados e ofendidos da sociedade.

JJR: Na música “Fotografia 3 X 4″(Disco Alucinação, de 1976), você fala de uma experiência comum à maioria dos migrantes que chegam a SP: “jovem que desceu do Norte e que, no Sul, viveu na rua… e que ficou desnorteado… desapontado… apaixonado e violento como você…”. O último trecho de “A Palo Seco” (Disco A Palo Seco, de 1974), expressa revolta: “E eu quero é que este canto torto, feito faca, corte a carne de vocês”. Você vê a cidade grande como símbolo de opressão?

Belchior: O nordestino, neste sentido, tradicionalmente, é a figura que mais identifica a imagem do migrante, do sujeito que obrigatoriamente deixa o seu lugar e torna-se mão-de-obra barata na cidade grande. Essa questão, naturalmente, não foi tratada em primeira mão pela minha música. A tradição de personagens nordestinos, tanto na música, quanto na literatura, é antiga. Como nordestino, na cidade grande, eu necessariamente tinha que sofrer este estranhamento. Acho que a cidade grande é absurda mesmo, é anti-ecológica, anti-administrativa, anti-política, é tudo. A barbárie, hoje, é a situação mais visível e mais próxima. É a luta da civilização e da cultura contra a barbárie. Esse meu estranhamento com a cidade ainda não passou e eu nem quero que passe muito, porque faz parte da intimidade do meu trabalho me identificar com o nordestino na cidade grande, enxergar a cidade sob a ótica deles, pois sou um deles.

JJR: Em algumas letras, como “Apenas um rapaz latino-americano”, você cita Caetano questionando que nem tudo é “divino e maravilhoso” na cidade grande, como ele dizia. O olhar de Caetano sobre a cidade grande, ao chegar, foi diferente do seu?

Belchior: Acho que não. O olhar sob a cidade grande é muito parecido, basta ver Sampa, por exemplo. Deste ponto de vista, é esteticamente similar. A visão dele sobre este tema parece ser a visão de quem veio da província, uma visão delicada e real, de estranhamento sobre a cidade grande…

JJR: Um pouco deslumbrada….

Belchior: Não creio. Deste ponto de vista, considero Caetano um poeta estupendamente harmônico e lúcido. A questão que aparece em “Apenas um rapaz latino-americano” é comple-mentar, por oposição. Traduzindo: há momentos em que você pode dizer que tudo é divino e maravilhoso, e há momentos em que você tem que dizer que nada é divino e maravilhoso. Então, são dois momentos igualmente reais do ponto de vista artístico e que fazem parte de uma visão poética da realidade, tanto um como o outro. Daí porque a colocação destas palavras na música não é simplesmente opositiva à visão anterior. São visões críticas, mas são complementares. Aliás, do ponto de vista cronológico, essa música é bastante atrasada, pois o próprio Caetano já havia, em programas anteriores, falado que a tropicália estava morta, ou seja, que o divino e maravilhoso já haviam morrido. Portanto, se há uma crítica na música, ela está bastante atrasada.

JJR: A música “Na hora do almoço”, com a qual você conquistou o primeiro lugar no IV Festival Universitário (1971), traz um olhar bastante crítico sobre a instituição família: “No centro da sala/ diante da mesa/ no fundo do prato/ comida e tristeza / A gente se olha se toca e se cala / e se desentende no instante em que fala….” O Belchior de hoje faz o mesmo questionamento do jovem que escreveu aqueles versos?

Belchior: Permanece. Aquela era uma crítica à família patriarcal nordestina, em que os ascendentes são donos dos descendentes, e à solidão que deriva daí. Um relacionamento de domínio e senhorio sobre os descendentes, onde 😉 predominam a incomunicabilidade, a solidão e a humilhação que vem do fato de alguém ser excluído. Em algumas regiões do Brasil, este tipo de família ainda é comum e, portanto, merece a mesma crítica.

JJR: “A única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter; é nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer. Nunca reverenciar” (“Como o diabo gosta”, do disco Alucinação, de 1976). O Belchior de hoje ainda pensa assim?

Belchior: Sem dúvida. Eu poderia não só assinar esta música, como refazê-la. Acho que a universalidade da liberdade individual é cabível em qualquer momento, principalmente porque esta questão da desobediência civil, para mim, é uma das noções mais importantes já elaboradas. Nem tudo o que é legal, é legítimo. Eu acho que um dos primeiros momentos para se mudar uma lei é quando algum herói resolve desobedecê-la. Quase sempre há um descompasso entre a formulação da lei e o caminho e a experiência dos homens.

JJR: Na música “Jornal Blues” (Disco Melodrama, de 1987), você diz ser ateu: “o velho blues me diz que, ateu como eu, devo manter os modos e o estilo…”. Belchior é ateu?

Belchior: Eu acho que o ateu é um sujeito tão religioso que passa a combater Deus. Eu não tenho nem armas nem vontade de combatê-lo. Eu diria que sou agnóstico. Vulgarmente, definir-se como ateu identifica isso. É muito complicado de se dizer isso, porque normalmente as pessoas não distinguem as questões de natureza especulativa com as de natureza ética ou moral. Comumente, imagina-se que um ateu é uma pessoa necessariamente de moral desregrada, enfim, as pessoas confundem isso. Acho que a questão religiosa diz respeito a hábitos e costumes.

JJR: Palavras e trechos de músicas dos Beatles são recorrentes em suas letras? Eles foram marcantes para você?

Belchior: Essa admiração ainda permanece. Do ponto de vista artístico, eu acho muito interessante o aparecimento dos Beatles. Pessoalmente e artisticamente, eu prefiro John Lenon. Prefiro o momento individual de Lenon do que o dos Beatles. Sempre me atraíram mais as suas músicas e idéias. Se eu acreditasse em numerologia e alguém me desse a oportunidade de mudar meu nome, mudaria para John Lenon… ou Bob Dylan… ou Chico Buarque.

JJR: No disco Bahiuno, nota-se muita decepção de sua parte. Você diz que “o cara caiu na vida, ao ver seu mundo tão certo, assim tão perto do fim” e cita a queda do Muro de Berlim. Esse fato decepcionou muito você?

Belchior: Para mim, o cidadão decepcionado é de altíssimo valor social. A decepção está ligada à esperança. Dizer que alguém está decepcionado tem uma validade moral, também do ponto de vista artístico. Muitas destas canções são decepcionadas mesmo. Ou seja, a nossa esperança de jovens não aconteceu. Mas isso não quer dizer que ela não possa acontecer. A queda do Muro de Berlim, sem dúvida, me influenciou. Além de ter sido simbólica, na questão da separação política entre Oriente e Ocidente, foi uma espécie de decepção com alguns ideais. Imaginava-se, por exemplo, que o Muro separasse duas visões diferentes e contraditórias de mundo, mas parece que não foi bem assim. A questão das liberdades na União Soviética também foi grave. A queda do Muro foi simbólica de tudo isso e, naturalmente, teria que ser motivo de reflexão e entrar numa canção que eu fizesse.

JJR: A queda do Muro é uma questão marcante e, seguramente, está entre as mais importantes deste século. No meio da esquerda, o PCO foi o único partido (na época, ainda dentro do PT), que caracterizou como um avanço esse fato porque significava que, de alguma maneira, os trabalhadores e a população da Alemanha Oriental estariam superando a burocracia que estava dirigindo aquele regime, que não tinha nada a ver com o socialismo…

Belchior: Sinceramente, eu não tenho suficiente conhecimento político nem factual para avaliar mais profundamente esse assunto. Mas eu concordo com você, por exemplo, que a burocracia e a nomenclatura foram profundamente atingidas pela queda do Muro. Em que direção o Muro caiu é que deve ser matéria de reflexão, você não acha?

JJR: A expectativa e que haja uma revolução no Leste Europeu e que se avance para construir, de fato, o socialismo, e não aquela imitação que estava vigindo por lá…

Belchior: O socialismo continua sendo importantíssimo como objetivo social. Eu acho que é a visão mais interessante, mais sonhadora, mais utópica que mereça ser construída. A participação de todos na cultura, na civilização, na produção, no trabalho, nos benefícios… tudo isso tem que ser buscado. Para mim, isso continua sendo o maior ideal. Eu não tenho elementos para traduzir essa questão do ponto de vista típico, partidário, revolucionário, institucional, por assim dizer. Mas, sem dúvida, a colocação que mais interesse pode despertar numa pessoa consciente é o socialismo. É a visão humanamente mais rica e fecunda. Eu nem digo isso do ponto de vista partidário. Eu não tenho uma visão típica de partido, mas sim visão de quem toma partido. Eu sou um pouco avesso a atuar partidariamente…

JJR: Por que?

Belchior: Por que me pareceria uma perda da liberdade individual. E eu tenho restrição a qualquer coisa que possa diminuir esta liberdade, até por formação filosófica. Você percebe que alguma coisa está fora do eixo quando há qualquer restrição à liberdade individual. Eu também acho que, como tudo o que é humano, a liberdade também não é ilimitada. Confesso que estas idéias não partem de experiências concretas… são uma intuição artística apenas.

JJR: O que o levou a criar uma gravadora própria? Qual é a proposta?

Belchior: Eu tinha um parente, nordestino, que certa vez sentiu-se maltratado numa pensão e acabou por comprá-la. Isso define o porquê de eu ter comprado uma gravadora. Eu quis ter uma casa própria. Ser maltratado, na música, é você imaginar, mesmo longinquamente, que alguém possa querer interferir no seu trabalho. Para mim, como criador, é intolerável que o trabalho artístico seja cerceado de alguma maneira. A minha visão original é a de que o artista simboliza o conjunto das liberdades sociais A proposta da gravadora é promover um tipo de música popular brasileira que minimamente se configure dentro dos parâmetros da criação: que seja criativa, interessada, brasileira, contemporânea, que trate de temas importantes, ligados à vida estética nacional. É isso.

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